O carioca e sua aversão ao estádio

Morando a cinco minutos do maior estádio da cidade, faz algum tempo que (re)comecei a frequentar os jogos de futebol do Fluminense regularmente. Preciso começar este artigo com esta colocação porque, embora a antiga capital do país do futebol hospede quatro times entre os quinze maiores do Brasil, o hábito de assistir jogos de futebol dentro do estádio é extremamente incomum: apesar de 85,5% dos sete milhões de cariocas torcerem para algum dos quatro clubes, o público dos times no campeonato brasileiro representa uma fração mínima desta torcida:

fonte: Globo Esporte

O número parece baixo, e é mesmo, até para os padrões nacionais. Nenhum dos quatro clubes leva gente suficiente aos estádios para ficar acima da média nacional:

fonte: Globo Esporte

E, apesar de ter sediado duas finais de Copa do Mundo (1950 e 2014), o Maracanã só alcançou mais da metade de público presente (entre pagantes e gratuidades) em três partidas deste ano:

fonte: Globo Esporte

De fato, a frequência ao estádio é tão baixa que, apesar de ser a atividade-fim do esporte, utilizá-lo para jogos do Brasileirão costuma causar mais prejuízos do que lucros. Nas cinco primeiras rodadas do campeonato, o Fluminense teve prejuízo de um milhão de reais ao mandar três de seus jogos para o Maracanã. A um preço médio de R$40, um jogo precisa ter 15 mil pagantes para fechar no zero a zero, o equivalente a cerca de 0,2% da população da cidade que diz gostar de futebol. Times como Flamengo e Vasco preferem receber seus adversários em outros estádios, menores, porém muito menos custosos. O Flamengo, em especial, quando opta por jogar no Maracanã, aumenta substancialmente o preço dos ingressos, o que explica o fato de arrecadar mais que o dobro dos concorrentes.

Há um argumento sólido em favor de se abdicar o estádio para jogos de pouco apelo. O jornalista Mateus Silva Alves faz boa análise dos custos excessivos de utilização do Maracanã:

Embora o jogo fosse decisivo (o Fluminense havia perdido na ida por 2 a 1) e o clube tenha vendido os ingressos a um preço máximo de R$ 40, um valor baixo para o padrão atual do futebol no Brasil, a torcida tricolor não foi em peso ao Maracanã, que recebeu um público pagante de 17.946 pessoas. Elas geraram uma renda de R$ 506.725,00, um valor que à primeira vista parece alto, mas é enganoso. Porque as despesas foram muitas.
Para começar, o Fluminense teve de pagar R$ 100 mil de aluguel pelo uso do Maracanã. Culpa do imbróglio em que se transformou a gestão do maior estádio do Brasil, porque o clube tinha um contrato com a Odebrecht (construtora e administradora da casa do futebol carioca) que o isentava de pagamento pelo uso, mas esse documento perdeu sua validade. Pior ainda foi a despesa operacional do estádio, que ficou em R$ 329.501,77 – outro pagamento que os tricolores não teriam de fazer caso aquele contrato ainda estivesse valendo.
O resultado para o clube foi desastroso: prejuízo de R$ 145.485,73 (levando em conta todas as despesas) com a partida de quarta-feira, que colocou o Fluminense nas oitavas de final da Copa do Brasil, etapa em que vai enfrentar o Grêmio.

Apesar da acertada crítica política, Mateus reconhece que o principal fator permanece sendo o mesmo: a torcida não comparece em peso ao Maracanã. No próximo artigo, comentarei sobre os fatores socioeconômicos que influenciam o público a comparecer aos estádios, em particular ao Maracanã.

Entretanto, já adianto, o custo dos ingressos não é a raiz do problema, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, onde a especulação imobiliária e a pecha de Cidade Maravilhosa com fins turísticos tornam as alternativas de entretenimento muito menos vantajosas. De fato, os cariocas que optaram por trocar o futebol pelo cinema na tarde de ontem tiveram de pagar os mesmos R$40 pelo ingresso. Até a próxima!

Etiqueta: sports soccer rio de janeiro 

 

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