Por que escrevo um blog

publicado originalmente em inglês no dia 2017-04-13

Perguntam-me ao menos uma vez por semana por que escrevo um blog. Claro, é fácil de entender por que alguém teria um perfil de rede social (encontrar amigos e colegas) ou um site pessoal (marketing pessoal é frequentemente mais valorizado que trabalho de verdade). Eu ainda tenho uma conta no Twitter, e este blog está, de fato, abrigado sob a marquise do meu site pessoal, mas não é como se ele houvesse sido meu foco. Responder a esta questão, porém, requer muito mais introspecção do que eu havia previsto. Qualquer resposta que eu possa fornecer agora mesmo seria superficial, tangencial, ou talvez simplesmente errada. E eu sei disto porque acredito ter encontrado a resposta, agora mesmo. 

Para início de conversa, preciso confessar que sou uma pessoa extremamente egocêntrica. Eu me importo muito pouco com o que outras pessoas vão sentir sobre a minha pessoa. Sentimentos são efêmeros e facilmente manipulados por humores, hormônios e alterações neurofisiológicas. Sentimentos podem mudar num estalar de dedos. Todo mundo tem o direito de sentir o que desejar, mas precisa aceitar que ninguém tem o dever de se importar com isto. 

Pensamentos, por outro lado, exigem um comprometimento mais profundo. Raciocinar, em especial, é a principal virtude que permitiu à espécie humana a sobrepujar os demais animais e controlar o planeta Terra. Eu me importo com o que outras pessoas pensam de mim, especialmente se perceber que elas investiram tempo e energia para elaborar um julgamento detalhado sobre mim. Frequentemente, gosto de citar uma das pessoas que mais desprezo na história da Humanidade, e é com muita dor que concordo com ela:

“Você sabe que um dos maiores problemas de nossa era é que somos governados por pessoas que se importam com sentimentos mais do que com pensamentos e ideias.”
Margaret Thatcher, por Margaret Thatcher

É lógico que isto reflete uma opinião particularmente íntima sobre mim mesmo: gasto muito pouco tempo - bem menos do que deveria - preocupando-me com como me sinto em relação a mim mesmo, mas dedico uma quantidade imensa de tempo analisando a mim mesmo, como posso melhorar a mim mesmo, como posso me impedir de cometer os mesmos erros novamente, como posso fazer mais com o mesmo tempo que tenho todos os dias. 

Acabei me tornando uma pessoa abominavelmente egocêntrica. Falo demais, por tempo excessivo, usando palavras extremamente prolixas, sobre mim mesmo, e isto não me faz sentir melhor comigo mesmo (ah, a ironia). Pelo contrário, incomoda-me tanto que vez ou outra pego-me repetindo o mantra "o assunto não sou eu" toda vez que converso com alguém sobre as experiências alheias, porque escutar o discurso de outra pessoa e entender suas idiossincrasias requer uma dose intensa de empatia. 

Ok, mas de onde veio tudo isso? Conheci uma moça indubitavelmente interessante: dotada de um senso de humor ácido, de uma capacidade narrativa fantástica e de uma experiência de vida particularmente divertida. Apesar disso, senti algo estranho ao conversar com ela, observava todo e qualquer assunto rapidamente tornar-se sobre ela. Não achei incômodo, mas fiquei espantado. Pensar sobre isto deu-me arrepios, enquanto eu me perguntava se talvez este insight abrisse uma ferida profunda demais na minha alma. Eu com certeza não estava preparado.

Enquanto fazia uma pesquisa para esta publicação, acabei tropeçando neste tópico, de um grupo de apoio para vítimas de abuso doméstico. O link é seguro, mas o restante da comunidade é assustadora e talvez o conteúdo não seja do seu interesse. Os depoimentos, porém, são ferozmente alinhados: egocentrismo era um traço particularmente típico dos seus agressores. Um sinal de perigo, dizem, como uma forma de reconhecê-los facilmente e proteger a si mesmos de futuros agressores. Porém, como se espera que as pessoas falem de si mesmas em voz alta?

O que me traz de volta à questão original, mas, agora, com uma resposta honesta: eu escrevo um blog. Aqui, sinto que posso falar livre e candidamente sobre mim mesmo. Escrevo estas linhas para conseguir a reflexão que não encontro em nenhum outro lugar porque este mundo já está afundando debaixo do peso de tanto abuso psicológico. Talvez estes parágrafos jamais sejam lidos e estou perfeitamente em paz com isto: eles serviram ao propósito de me ajudar a melhorar a mim mesmo. Talvez alguém venha a lê-los no futuro - e aí é iniciativa delas, não estou impondo nada - e divirta-se com esta janela heterodoxa da minha mente. Todo mundo tem o direito de sentir o que desejar, e eu me sinto ótimo.

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