Infelizmente millennials são uma merda: a praga urbana do empreendedor good vibes

Se você vive numa cidade com acesso à Internet, infelizmente já teve o desprazer de se deparar com ele(a): usando seu MacBook para escrever um textão no LinkedIn enquanto aprecia seu frappuccino do Starbucks, o millennial empreendedor está sempre preocupado em dividir sua experiência individual e particular como xaropes de sabedoria universal para todos que conseguir importunar.

Ele não tem escolha: Paulo Freire ensinou-lhe que todo ato é um ato político e, agora, não basta a ele só empreender: também precisa militar pelo progresso do empreendedorismo, tarefa da qual não pode jamais abdicar. Por mais escasso que seja seu tempo disponível e por mais labutosa que seja sua peleja. o empreendedor otimista possui somente duas missões na vida: empreender e convencer o restante da população a provar dos sabores do empreeendorismo. Um equilíbrio deveras intrincado, haja vista que disseminar o Iluminismo empreendedor pode consumir muito mais recursos do que construir um produto que preste desenvolver o próximo insight disruptivo que revolucionará o mindset da indústria 4.0.

Para ser feliz, não basta só ser millennial empreendedor good vibes: precisa arranjar GRANDES PROBLEMAS também!

A inspiração do blog de hoje vem da pilha de trabalho que estou procrastinando e também da publicação de ontem, sobre o lançamento trágico do IFTTT Pro. A reação de todos os stakeholders (clientes, fornecedores, parceiros, etc) foi virulentamente negativa. Fabricantes de hardware compatível com o IFTTT já estão anunciando a descontinuação do suporte. A maioria esmagadora dos usuários está fechando a conta, desistindo até mesmo dos recursos gratuitos. Os poucos dispostos a pagarem US$2 mensais só o estão fazendo para ganharem tempo enquanto migram para outros serviços. Alguns denunciam práticas criminosas e cogitam ação judicial.

Enquanto eu pesquisava a web na tentativa de compreender por que raios uma empresa daria este tiro no pé de espingarda, meu maior temor demonstrava-se ululante a minha frente. Como era de se esperar, por trás de todo cataclismo no mundo da tecnologia, há um millennial empreendedor good vibes sustentado por uma barragem de venture capitalists. Como o otimismo é o maior inimigo do senso crítico, é o próprio CEO do IFTTT, Linden Tibbets, que emite a jocosidade mais autodepreciativa de todo este imbróglio:

Até recentemente, nosso time de 35 [funcionários] estava focado em construir o IFTTT Connect, nosso novo produto corporativo, que agora está em uso por companhias inovadoras como Husqvarna e iRobot. Francamente, isto tem significado uma falta de foco na nossa comunidade de usuários a quem [IFTTT] Pro nos ajudará a direcionar.

O CEO gravou um vídeo, mas é desnecessário assisti-lo para descobrir que, obviamente, estamos diante de mais um millennial californiano dirigindo uma corporação que não só oferece serviços, mas principalmente conecta pessoas. A honestidade cândida com que ele admite que passará a cobrar por um produto até então abandonado sem oferecer uma contrapartida à altura pode parecer refrescante no vulcão de mentiras em que este meio tornou-se, mas não confunda a cara-de-pau com respeito: o empreendedor millennial good vibes sente-se seguro para se expressar livremente porque aprendeu que "definir é limitar" e "a zoeira não tem limites". Ele esperava que a confissão passasse impune porque seu otimismo impede-lhe de pensar racionalmente.

OBS: a opção de "escolher o próprio preço" veio só após a cascata de críticas públicas ao anúncio e não constava da publicação original (inclusive, não há data nela). As reações no anúncio publicado no Reddit deixam clara a intenção inicial de cobrar US$10 mensais pelo serviço.

O empreendedor millennial otimista consegue escapar da realidade material dura e cruel porque tem, ao redor dele, uma bolha de outros empreendedores millennials otimistas similarmente avessos ao senso crítico. Foi assim que cheguei a Stacey Higginbotham, que o entrevistou em seu podcast sobre "internet das coisas" (integração de produtos mundanos à web). Higginbotham mostrou-se uma apresentadora aparentemente patrocinada bastante simpática à causa, já que ela não viu problema nenhum em pagar US$10 ao mês por um produto que ela mesma admitiu não conhecer bem. Inclusive, ela estava tão otimista que fez esta afirmação antes mesmo de Tibbets ter a chance de lhe explicar o funcionamento do serviço ou mesmo por que ele acha que o software não vale US$10.

SIM, ELE ADMITIU!

Numa publicação redigida provavelmente após a entrevista (editar um podcast na verdade leva bastante tempo, às vezes mais de uma semana), a apresentadora expõe melhor sua experiência com o serviço:

Por exemplo, eu tinha um processo que mudava a cor da minha [lâmpada Phillips] Hue para vermelho se meu editor ligasse ou mandasse uma mensagem ao meu telefone. O formato é que, "se este número me ligar ou enviar uma mensagem, então faça a Hue ficar vermelha".

A ideia de usar uma lâmpada de R$360 como ferramenta de notificação para o celular é estúpida por si só, e por uma multitude de razões: o aparelho já tem um LED de notificação, um alto-falante para notificações e vários aplicativos que enviam esta notificação para diversos dispositivos (como o computador que ela está usando). Para uma entusiasta da "internet das coisas", a opção por controlar remotamente a lâmpada em vez de, sei lá, um desses relógios inteligentes ou um fone de ouvido sem fio, é bastante curiosa.

Há, no entanto, um detalhe ainda mais interessante: o IFTTT não admite mais de um gatilho por processo. Portanto, é impossível combinar "ligação" e "mensagem" na mesma "receita": seriam necessárias ao menos duas delas, e viriam com as complicações inerentes ao funcionamento de serviços concorrentes: cada ligação e cada mensagem mudam a cor da lâmpada, e não há um gatilho para restaurar a cor anterior.

Pensei em lhe deixar um comentário avisando, mas parece que ela já sabia (?):

Por enquanto, você só pode escolher um único evento como gatilho, e a interface de usuário permanece muito familiar aos que já usam a plataforma (sic).

Natal ou chefe cobrando entrega? Stacey não tem como saber!

O que significa que, após terminar de interagir com ele, ela precisaria (ninguém realmente acredita nessa história, né?) desligar a lâmpada manualmente. Ainda bem que a lâmpada tem WiFi e Bluetooth, e um aplicativo de celular dedicado que a controla remotamente. É tão prático que nem precisa do IFTTT!

Tasker é um aplicativo que, ao contrário do IFTTT, permite combinações sofisticadas de gatilhos, como (0:00 < HORA < 6:30) + (TELA DESLIGADA) + (TELA PARA BAIXO => TELA PARA CIMA), além de tarefas de saída, executadas quando a combinação é desfeita. Eu uso e recomendo.

Um dos recursos adicionados à assinatura do IFTTT Pro e mencionados no podcast e no texto é o que Tibbets chama de "redução da latência". No blog de ontem, reclamei do atraso inexplicável e imprevisível dos processos, mesmo quando usavam o mesmo gatilho. O que o "garoto" (millennials de 40 anos são só "garotos" quando erram) está dizendo é que, para os clientes pagantes, os gatilhos serão conferidos a intervalos menores. É uma funcionalidade sensata de ser colocada atrás de uma paywall, tendo em vista que não afeta os usuários anteriores e agrega valor aos que pretendem usá-la como ferramenta de automação doméstica, especialmente porque o IFTTT, ao contrário do Tasker, precisa fazer a conexão com o servidor remoto (que está na internet).

Mas, se este é um recurso recém-adicionado, como ela usava a integração com a lâmpada antes? Nas palavras dela:

O plano [IFTTT] Pro também terá menor latência, o que é um problema no momento para várias das minhas tarefas no IFTTT. Eu parei de configurar lâmpadas como ações simplesmente porque havia, por vezes, um minuto inteiro entre o evento de gatilho [por exemplo, a ligação recebida] e o acendimento da luz. Tibbets diz que o IFTTT também pode adicionar um atraso ao serviço se os usuários pedirem, o que significa que eu poderia parar de criar um processo separado para desligar as luzes depois de um processo tê-las ligado.

Higginbotham conclui dizendo que, "honestamente" (lembre-se: não é respeito!), ela "talvez não considere [o IFTTT Pro] um mau negócio", e que "usuários terão que se acostumar a pagar pela 'casa inteligente'" (sic), embora Tibbets tenha anunciado no podcast e no próprio site que o foco da empresa anteriormente estava, justamente, em cobrar das fabricantes e não dos usuários, que agora terão que pagar duplamente pelo serviço, já que qualquer fabricante que se preze repassa o custo adicional ao consumidor.

Ela pergunta se os leitores esão dispostos a pagarem para terem um serviço melhorado e, das treze respostas, doze variaram no espectro entre "não" e "que piada". Essa é a minha resposta favorita:

Mas a resposta que eu estava procurando era a positiva, claro. O otimismo é o inimigo nº 1 do senso crítico. O comentário não tinha links ou endereços de e-mail, somente um nome, que eu procurei no Google e o primeiro resultado veio do... LinkedIn. Não acredito no que estou vendo. Não sabia nem que era possível escrever tanto numa única publicação do LinkedIn. Estou sem palavras. Por hoje, basta.

Diga NÃO às drogas, crianças!

OBS: o título é uma referência a este perfil de rede social
Etiqueta: millennials usa tools 

 

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