Infelizmente Millennials Não Leram 1984

OBS: o título é uma referência a este perfil de rede social

Sim, este é uma publicação cult sobre Big Brother Brasil. Se não gosta de BBB ou auto-reflexão, não é o texto para você.

Escrito em 1948, o livro é baseado nas experiências do autor nas guerras contra o fascismo e o comunismo.

No clássico de George Orwell, o Grande Irmão ("Big Brother", em inglês) era o símbolo do paternalismo do socialismo inglês que controlava a Oceania distópica do livro (que também incluía as Américas, o Reino Unido e até parte da África). É verdade que o Estado vigiava seus cidadãos a todo momento, através de telas onipresentes com câmeras e microfones embutidos (hoje chamadas de smartphones), mas esse era apenas um aspecto da política policialesca do IngSoc.

Não é mera coincidência: Steve Jobs era um fã do livro e de ficção científica em geral.

Até minoritário, na verdade. Na Oceania distópica, o Grande Irmão limitava as liberdades sexuais ao mesmo tempo em que controlava toda a indústria pornográfica; cobrava o coletivismo ao mesmo tempo em que estimulava escândalos interpessoais e denuncismo; instituía um Ministério da Verdade cujas funções eram justamente falsificação de estatísticas, disseminação de boatos (muitas vezes até contraditórios) e construção de narrativas; e até patrulhava as pautas sociais ao mesmo tempo em que promovia a guerra permanente contra inimigos novos e antigos. 1984 sempre foi um livro sobre meios e não sobre fins: o discurso do líder partidário ao final deixa isso muito claro. 

Big Brother é um jogo sobre poder: nunca foi sobre qualquer outra coisa.

É justamente por isso que gosto tanto da adaptação da Rede Globo para a televisão. Contando com um hábil time de roteiristas e uma direção que conduz arte e elenco com maestria milimétrica, o BBB reproduz com fidelidade o clima sociopolítico instaurado na ficção de George Orwell. O espectador sente-se parte do programa ao mesmo tempo em que se sente no controle, embora não seja nenhum dos dois.

A Rede Globo controla as câmeras, a edição do programa, a dinâmica das rotações semanais e até a tônica dos relacionamentos internos na casa. Qualquer um que assiste ao pay-per-view (ou tenha assistido à Carla Diaz no Quarto Secreto) sabe que câmeras são suspensas, trocadas ou mesmo tornadas indisponíveis a qualquer momento. Há abundância de vídeos e relatos de informações sigilosas sendo vazadas (quem teria este poder?) a participantes. Vemos as interlocuções do apresentador com o elenco, mas sabemos que este último recebe roupas, alimentos, utilidades domésticas e inclusive orientações fora do radar do público. O Big Brother Brasil é brilhante neste aspecto porque controla os fluxos de informações tanto dentro, quanto fora da casa.  

Tem vídeo, mas não vou publicá-lo porque sei o que acontece com quem desafia o Big Boss.

Justiça, porém, nunca foi um aspecto prezado pelo IngSoc no livro, e fico feliz por a Rede Globo reproduzi-la da mesma forma em seu reality show. A mesma emissora que cobrou fair play do elenco foi a que vazou vídeo sugerindo que um dos participantes era dependente químico. As regras mudam toda semana e de forma tão confusa que precisam ser explicadas múltiplas vezes até mesmo ao próprio público. Até o esquema de votação favorece a cultura das massas promovida pelo IngSoc, permitindo que torcedores motivados insiram milhares de escolhas sucessivas, desde que tenham a paciência de passarem pelo sistema de verificação de robôs.

Os participantes do elenco, entretanto, sabem disso e preparam-se adequadamente. No último texto, comentei sobre Gilberto, que não somente é mestre em Teoria dos Jogos, como também confessou, em tom de diversão, diversas vezes que comprou seguidores para sua conta no Instagram por pensar que lhe favoreceria. Vilãs do programa, porém, Karol Conká e Lumena Aleluia foram acusadas da mesma coisa, embora sem a mesma leveza. Gilberto, portanto, possuía um poder que as concorrentes não possuíam, por estar alinhado ao Big Boss

Sarah, que chegou a escrever uma monografia sobre o BBB e repetidas vezes contou que leu um livro de "linguagem corporal", rapidamente adotou - com orgulho - o título de "espiã", embora seu sinônimo mais pejorativo ("fofoqueiro") tenha sido muito mais utilizado para seus concorrentes do que para si. Enquanto servia aos interesses do poder central, Sarah teve a devida blindagem midiática que seus adversários não conseguiram.

A influência crescente das mídias sociais também é bastante reconhecida pelo elenco, que parece avaliar seriamente decisões baseado neste poder efêmero e pouco conhecido chamado "número de seguidores". Gil e Sarah, por diversas vezes, acusaram Juliette de se posicionar mais favoravelmente a quem tinha mais seguidores, muito embora tal participante já tivesse superado todos os demais nesta métrica.

Este fenômeno parece ser atribuído a uma melhor gerência de comunicação da candidata, muito embora diversos participantes tenham recorrido a estratégias similares. Vários contrataram equipes de participantes anteriores: Camilla de Lucas, em especial, chegou à final com a equipe da atual vencedora do BBB. Alguns ainda recorreram a uma "limpeza de imagem", com assessores removendo conteúdo potencialmente polêmico de seus sites de relacionamento antes de serem revelados ao grande público. Há até os que buscaram treinamento de sensibilidade, para anularem traços da própria personalidade de forma a terem maiores chances no jogo.

Mas, mesmo se a gestão de redes sociais fosse verdadeiramente capaz de determinar os resultados do programa, qual seria o problema? Esta é a gênese do programa: manobrar as narrativas. Quem não a domina não entendeu a metáfora orwelliana e não é mesmo merecedor do prêmio. Faltou leitura.

Apesar da eliminação ter surpreendido muitos (inclusive eu), Gil notou rápido onde perdeu o controle da narrativa.

Aos (demais) perdedores, resta apenas ter espírito esportivo e reconhecer o jogo bem jogado. A Rede Globo não escalaria um jornalista esportivo para cobrir o programa se ele não fosse só um jogo. O fim do Big Brother Brasil é o encerramento de uma partida e início de outra. Bola pra frente!


 

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