ISSO É MUITO BLACK MIRROR

Não, ainda não terminei de assistir a última temporada. Mas, a esta altura do campeonato, já deu para notar que o mote da série é o sensacionalismo sobre o impacto da revolução técnico-científica sobre as relações humanas. Aos mais desavisados, fica implícita até uma certa premonição: se não discutirmos os limites éticos do progresso tecnológico, estaremos caminhando à autodestruição. 

Exceto que, bem, não existe avanço técnico-científico sem discussão ética. Nenhuma universidade de renome concede diplomas a alunos que não tenham dedicado ao menos 20% da sua graduação aos estudos sociotécnicos. Na UFRJ, por exemplo, o percentual gira em torno de 25% e não inclui as mais de 400 horas de extensão necessárias à concessão do diploma. Estamos todos cientes das consequências, acredite. Se os limites da ética estão sendo ignorados e transgredidos, é porque a sociedade como um todo não só tolera, como incentiva o desmoronamento de instituições e tradições em busca de prazeres e resultados imediados. Para provar isso, preparei aqui meu TOP 3 ISSO É MUITO BLACK MIRROR - EDIÇÃO VIDA REAL. Vem comigo!

 

Episódio 1: Greyball

 

Táxi é uma coisa do passado, ? Se tem algo que taxistas conseguiram ao longo dos anos, foi irritar seus usuários ao ponto de transformá-los em seus maiores carrascos. Antes da febre dos aplicativos de caronas, taxistas já eram vistos na cultura popular como preguiçosos, reclamões e exigentes:

 

 

Quando surgiu o Uber para fornecer um serviço de qualidade a um preço acessível, é compreensível que se tenha iniciado uma revolução para a qual não há mais como voltar. Na ânsia de proteger os interesses da companhia (e dos passageiros, claro), até comunistas viraram defensores do livre mercado, citando o velho conhecido Marx no processo, inclusive. 

 

 

Mas o Uber não é (e nunca foi) uma startup de faculdade. Sediada no coração da maior indústria de tecnologia do mundo, a Califórnia, a empresa já nasceu grande, com 50 milhões de dólares no capital. Ao contrário do que muitos pensam, o Uber não é um negócio lucrativo, acumulando margens operacionais negativas de mais de 10% há anos. A principal explicação é que o Uber cobra menos do que o custo real das viagens para promover concorrência desleal e, assim, forçar concorrentes à falência. Essa prática comercial tem nome (dumping) e é considerada ilegal na maioria dos países. Você talvez esteja se perguntando, então: por que a empresa não é punida por isso?

Bom, porque, nascida como uma empresa de tecnologia, a companhia desenvolveu sua própria versão do sistema de Minority Report, a que deu o nome de Greyball. Para escapar dos oficiais da lei e da justiça, o Uber desenvolveu um sistema extremamente dinâmico e complexo para prever e ludibriar policiais e agentes públicos que estivessem tentando acessar o serviço, valendo-se de dados que não foram obtidos legalmente. Por exemplo, quando o aplicativo é instalado no celular, ele automaticamente vasculha todas as informações disponíveis na agenda de contatos para verificar se um usuário possui muitos conhecidos que são policiais. Este fenômeno é conhecido na ciência das redes sociais como homofilia, a tendência de pessoas a se cercarem de outras com características similares. Outro exemplo: de posse do nome do usuário, é possível procurar os perfis dele em redes sociais e identificar, por exemplo, quem é seu empregador. Ou ainda consultar os cadastros bancários, financeiros e fiscais (afinal, CPF é uma informação obrigatória) para checar se eles têm ligação com a polícia. Um belo trabalho de engenharia da computação mas também de engenharia social. Graças ao Uber, o conhecimento necessário para a detecção de agentes de segurança pública está acessível a qualquer organização criminosa com recursos suficientes para construir seu próprio Greyball

O sistema demorou anos para ser descoberto porque - adivinha só - o Uber dividiu o software em várias partes menores e entregou-as a equipes distantes umas das outras, mas não se engane: elas sabiam o que estavam fazendo. O grande trunfo do Uber nesta estratégia de dividir para conquistar não foi descentralizar o conhecimento, mas o peso na consciência. Ao acharem que o escopo do programa era menor, os funcionários envolvidos aceitaram engolir a própria ética em troca de impunidade e o salário no fim do mês. Greyball é um sistema projetado para manipular as comunidades do lado de fora e do lado de dentro, ao mesmo tempo. ISSO É MUITO BLACK MIRROR!

 

Episódio 2: O fim da neutralidade na rede

 

Já notou que certas operadoras de celular oferecem "pacotes de vantagens" restritos a um ou outro aplicativo em especial? Maior operadora celular do país, a Vivo tem um plano com 1GB de dados somente para o Youtube. A Claro nem sequer cobra os dados enviados e transferidos para a rede do Whatsapp. A TIM vai além e inclui também streaming de músicas, desenhos animados e vídeos esportivos. Pode parecer vantajoso a princípio, mas já parou para imaginar como que a operadora sabe que você está trocando dados com estes serviços?

 

Você prefere Spotify? Que pena, não existe livre concorrência na internet.

 

Bom, se não ficou óbvio ainda, aqui vai: ela lê suas mensagens. Todas as suas mensagens. Sem exceção. Algumas delas são encriptadas, é verdade, mas as informações de remetente, destinatário, tamanho e horário ficam sempre visíveis. Esta técnica, chamada de análise de datagramas, tem o objetivo principal de analisar os perfis de consumo e permitir às empresas vender anúncios relevantes e reduzir custos de infraestrutura. Já que parte das vantagens é repassada ao consumidor, parece um bom negócio, certo?

Exceto que a ferramenta usada para facilitar seu acesso também pode ser usada para dificultá-lo. Operadoras de internet podem efetivamente impedir seu acesso à informação, e já estão fazendo isso. Os exemplos são vários. Em agosto de 2016, a Claro bloqueou o acesso aos servidores do jogo Pokemon GO via 4G, forçando os jogadores a migrarem para o mais lento 3G e deixarem a frequência mais cara para os demais clientes (por exemplo, os turistas que assistiam às Olimpíadas). Clientes do Vivo Fixo reclamam há anos de extrema lentidão em serviços de streaming de vídeo, como Youtube e Netflix. Os consumidores não são os únicos a serem extorquidos. Nos EUA, onde a neutralidade da rede já foi formalmente assassinada, a operadora de cabo Comcast chantageia serviços de streaming como o Netflix para continuar prestando a eles o serviço que seus clientes já pagaram para ter. 

E não para por aí. Talvez as operadoras não queiram somente dificultar o acesso a um ou outro serviço. Talvez elas tenham interesse em censurá-lo. No Reino Unido, por exemplo, diversos sites de pornografia são bloqueados até mesmo para adultos. A definição de pornografia, para os censores, é bem ampla e volúvel: a Wikipédia, por exemplo, é frequentemente bloqueada por hospedar fotos com nudez. A explicação de que um texto de anatomia precisa de ilustrações não satisfaz os reguladores ingleses. Às vezes, o Reino Unido considera que um site está dificultando demais a própria censura e simplesmente o remove do ar. Tudo isso debaixo da batuta da democracia.  ISSO É MUITO BLACK MIRROR!

 

O Reino Unido não curte Scorpions, pelo visto.

 

Episódio 3: As fábricas de fake news

 

Há alguns dias, fiz um desabafo sobre a disseminação de notícias falsas em redes sociais, aproveitando-se da histeria coletiva para espalhar narrativas ideológicas que satisfazem os desejos do difamador. O que talvez você não saiba é que há um mercado negro de destruição de reputações e diluição da verdade logo ali, na esquina após o Google. 

No interior da pequena nação ex-soviética chamada Geórgia, um estudante de 22 anos decidiu montar um site de notícias falsas sobre Hillary Clinton em meio à disputa presidencial americana de 2016. Ao perceber que não estava alcançando o sucesso que queria, começou a postar notícias sobre Donald Trump. Foi um sucesso. Não importava se as notícias eram reais ou não. Aliás, era melhor que não fossem, já que, a 10 mil quilômetros de distância, o jovem Beqa Latsabidze não teria condições de disputar com os jornais locais a primazia sobre uma reportagem. Notícias falsas não precisam ser checadas, porque o autor sabe que são falsas. E, como os leitores sequer se davam o trabalho de lê-las, o principal era um título bem sensacionalista. 

 

 

Não acaba por aí. Sites de apoio a indígenas norte-americanos, por exemplo, não só publicam e divulgam notícias falsas, como vendem produtos falsificados com a arte e a cultura tipicamente indígena, num exemplo cruel de apropriação cultural que tem causado danos reais ao ativismo indigenista, como o fechamento da rede Indian Country Today. Estas páginas são sustentadas e prosperam com o apoio de pessoas que se solidarizam e apoiam a causa indígena, mas não possuem o senso crítico necessário para checar as fontes. É com isso, aliás, que os autores destas notícias contam: "esta notícia era tão ridiculamente falsa, não consigo acreditar que os norte-americanos acreditaram nisso", diz um deles ao contar que ganhou 6 mil dólares com a notícia de que o México estaria fechando sua fronteira com os EUA. 

 

 

O Brasil não está livre disso. A história da professora de letras da Universidade Federal do Ceará é um excelente exemplo disso. Seus adversários políticos reuniram-se num fórum e planejaram, durante meses, a divulgação de um site falso e criminoso com os dados pessoais dela. Ela, que tem acesso ao fórum, denunciava os planos com frequência, fez mais de uma dezena de boletins de ocorrência, foi à Delegacia de Atendimento à Mulher, à Delegacia de Combate a Crimes Virtuais, e até a Polícia Federal. Os criadores deste site de difamação não são desconhecidos. Muito pelo contrário, suas identidades e seus endereços já são de conhecimento público, assim como suas associações com o nazismo, a distribuição de pornografia infantil e o racismo. Aliás, dois deles já foram até presos numa operação nacional de combate à intolerância, mas soltos após a progressão de pena. Ainda assim, contam com a boa vontade de personalidades famosas que, mesmo sabendo da origem e da inveracidade dos fatos, fazem questão de compartilhá-los com seus conhecidos. 

 

"Espalhei mentiras sobre outra pessoa? Problema dela!"

 

Este é o universo do século XXI: empoderadas pela revolução da informação, as democracias estão ameaçadas pela evasão aos agentes da lei, pela censura, e pela divulgação de notícias falsas. Perto disso, galera, nenhum seriado do Netflix é realmente assustador. Deem uma olhada pela janela: o mundo real é muito Black Mirror

Etiqueta: newspeak social networks 

 

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