Diário do Feriadown: Episódio 2 (Nem Todo Herói Usa Máscara [ou Capa])

Prefeitos e governadores esqueceram de combinarem o feriadown com o Tinder e estão prestes a descobrirem que nem todo herói usa máscara (ou capa).

Todo o mundo já sabe que vacina nenhuma previne a infecção. Mas já diziam nossas mães: "você não é todo o mundo"!

Honestamente, este cenário era tão previsível que estou espantado que alguém tenha se dado o trabalho de transformar em conteúdo. Mas não julgo. Já dizia o general Otto Von Bismarck: "o mundo é dos preguiçosos". A citação não é bem essa, mas eu seria contraditório se fosse pesquisar a original. Não tanto, claro, quanto o veículo que monetizou este texto fabuloso no interior de um caleidoscópico de opiniões esquizofrenicamente democraticamente conflituosas.

O conto traz ainda a preocupante transcrição de que dois a cada três usuários do aplicativo desejam um(a) parceiro(a) que já tenha recebido as doses da vacina. Além de inviável (somente um a cada vinte adultos foram vacinados até o momento), revela que a "sinalização de virtude" é mais valorizada que a ciência: até o momento, somente idosos e profissionais de saúde na linha de frente foram vacinados. Ao determinar suas "preferências de paquera por homens héteros, de 20 a 40 anos, próximos a Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo" (sic), a cronista está deliberadamente selecionando a parcela de parceiros que mais oferecem risco de contágio, justamente por interagir diariamente com o vírus.

Palmas para a autora, que conseguiu colocar no mesmo espaço a expressão "MATCH IMUNE" e a declaração da especialista desmentindo a desinformação.

O curioso é que, mesmo diante do óbvio, ululante e inevitável, não houve mesmo nenhum esforço em construir políticas públicas ou mesmo diálogo diante da massa de milhões de cidadãos desocupados, entediados e alienados da maioria de opções seguras de entretenimento que se verão forçados a buscarem na mais antiga das distrações alguma forma de acelerar a passagem dos próximos nove dias de feriadão. Até a prefeitura de Nova Iorque (há mais de um ano, diga-se de passagem) deu-se o trabalho de preparar uma cartilha para fingir que estava fazendo alguma coisa promover redução de danos humanizada. Provavelmente, a maior dificuldade de agir sobre o Tinder é o fácil do aplicativo ser de uso gratuito: lidar com o Uber foi consideravelmente mais fácil e, inclusive, teve prioridade sobre, sei lá, acelerar as medidas de contenção da pandemia. A pressa é, afinal, a inimiga da perfeição, mas agora aprendemos que dá para ser inimiga de ambas ao mesmo tempo.

Para ser sincero, não sei assim, de cabeça, o que poderia ser feito para mitigar o que está prestes a se tornar uma catástrofe. Repressão não exige só coragem, mas também planejamento cuidadoso. Talvez por isso países mais conservadores como Chile e Israel tenham apostado numa estratégia agressiva de vacinação, que tem uma logística mais fácil de controlar que a livre circulação de pessoas. Na ausência dela, o resultado não passa muito longe da barbárie.

Este final de semana é o teste de fogo do feriadown e o que não falta é literalmente lenha nesta fogueira. Despeço-me hoje com as palavras de uma profunda conhecedora das mais minuciosas idiossincrasias das dinâmicas socioculturais do Rio de Janeiro:


 

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