O celular do bandido

No Rio de Janeiro (e talvez no Brasil como um todo) assustado pela violência urbana em crescimento rampante, um fenômeno silencioso toma de assalto os moradores da região metropolitana: o celular do bandido.

De início, achei que estivesse sendo pioneiro ao carregar um aparelho antigo rachado, descarregado e disfuncional comigo o tempo todo, somente para ter o que entregar ao eventual assaltante que me sorteasse na loteria diária do crime na cidade. Quando forçado a entregar meu telefone, eu simplesmente faria uma interpretação de desespero e cederia o aparelho sem maiores cerimônias. Embora a estratégia não tenha sido das mais efetivas - as últimas tentativas ocorreram enquanto eu falava ao celular -, ter um plano de contingência, nestas horas, traz uma certa tranquilidade. Costumo dizer que, morando no Rio de Janeiro, a única dúvida sobre assaltos é quando vão ocorrer, porque é certo que vão ocorrer em algum momento.

Bom, acabei de descobrir que esta tática é extremamente comum. De fato, já se vendem pela cidade (e na internet) diversas imitações fajutas de aparelhos populares, destinadas somente a ludibriar criminosos.

Só me dei conta de que era parte de uma corrente quando uma de minhas alunas do Pré-Universitário Comunitário Rubem Alves, ao deixar seu iPhone cair no chão, disse para ninguém se preocupar porque aquele era o "do bandido". "Ele mostra a maçã mas não passa disso", dizia ela, divertindo-se. Reagi com surpresa, mas os demais alunos ao redor começaram a mostrar aparelhos antigos, carcaças e até capas de celulares ocas como seus subterfúgios de proteção patrimonial.

O fenômeno já chegou aos grandes jornais:

Inventaram uma coisa chamada "celular de bandido". É, senhores, nós cariocas somos muito criativos e demos um jeitinhinho na crescente falta de segurança para usar nossos aparelhos na cidade.

Não deixe o tom jocoso do artigo lhe enganar: estamos rindo, mas estamos com medo. O Brasil não é para amadores.

Etiqueta: brazil rio de janeiro 

 

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