Slowpoke Review #3: Vidro (Glass, 2019)

OBS: o texto abaixo contém spoilers.

Depois de Corpo Fechado (2000) e Fragmentado (2016), este é o último review da trilogia Eastrail 177. É claro que, como McAvoyeur, não poderia deixar de fora o grand finale do espetáculo.

Não sei se dá para considerá-lo tão Slowpoke assim, já que o filme lançou há menos de doze meses. O hype já passou, porém, o suficiente para ele não estar mais nem no top 200 do IMDb. E, além do mais, uma joia rara como Fragmentado merece um encerramento digno, mesmo que não seja bem isso que Vidro entrega.

Com orçamento dobrado e muita expectativa pelo desabrochar de uma série considerada pela crítica como bem conduzida, este filme aproveita muito pouco dos anteriores. O trabalho de construção do cânone foi rigoroso e é bastante difícil encontrar furos na história sem alguma teoria da conspiração ou muito tempo afundado nisso. Os protagonistas da trilogia, James McAvoy, Samuel L. Jackson e Bruce Willis, bem como a atriz que faz a sobrevivente de Fragmentado, Kristen Stewart Anya Taylor-Joy, retornam em Vidro, mas é só isso. Locações, ritmo, elenco, narrativa, quase tudo está novo em folha para esta obra.

Falando em locações, o filme conta com muito poucas delas, o que parece curioso, considerando que Fragmentado foi um imenso sucesso de arrecadação e entregou a ele uma $ituação muito mais confortável. Vou tomar a liberdade de julgar que esta foi uma opção dos roteiristas e não uma decisão da produção.

Em Portugal, o nome original foi mantido. Provavelmente porque os distribuidores assistiram o filme.

O filme em si começa logo após os acontecimentos de Fragmentado. Kevin e suas múltiplas personalidades acharam um novo quartel-general e continuam a aterrorizar a cidade de Philadelphia. David virou um vigilante e o encontra, mas a briga termina com eles internados num hospital psiquiátrico, sob os cuidados de uma “especialista em delírios de grandeza” - aqui desempenhada pela excelente Sarah Paulson, que, entre outros papéis de destaque, fez a promotora Marcia na minissérie American Crime Story: The People v. O. J. Simpson (recomendo).

A doutora chegando para internar os dois marmanjos.

Em Vidro, no entanto, Paulson é cansativa e abusa da mesmice. A personagem dela parece permanentemente sedada e é difícil notar as sutis, quase imperceptíveis variações emocionais que ela produz. Meus dedos coçam para culpar o roteiro, mas houve oportunidades, ainda que escassas, de exprimir algo diferente daquele misto de compaixão e preocupação monótonas. Eu tenho dificuldade de falar “eu não acho que somos particularmente malvados” sem expressar nada até mesmo aqui, sentado na frente do computador. Como a doutora consegue dizer isso a um homem no leito de morte - depois de ter sido (quase-)lobotomizado e assassinado a mando dela - sem expressar nem uma pontinha de escárnio, desprezo, tristeza? Em American Crime Story: The People v. O. J. Simpson, Marcia não conseguia nem mesmo comprar absorventes sem expressar tristeza e desespero.

Aliás, talvez eu seja exigente demais, mas quem é que cai nessa ladainha de “especialista em delírios de grandeza”??? Ainda mais sendo virtualmente indestrutível. Não é uma questão de ser cético, mas como alguém vira vigilante por anos sem um pingo de desconfiança? Se aparecer alguém dizendo que é o Príncipe da Nigéria, vai enviar grana para ele também?

Devia ter mandado para a Philadelphia, lá pelo menos dois otários ajudariam.

Era evidente que ela se revelaria como uma vilã do bem, e também que seria Elijah Price, que já está internado no mesmo hospital há 18 anos, não cairia neste lenga-lenga. É por isso que este filme leva o nome apelido dele.

Na segunda metade do filme, ele assume o controle da narrativa e ela se torna ágil e bem conduzida até as imediações do hospital, já do lado de fora. Os diálogos tornam-se, então, folhetinescos ao ponto de me fazer conferir se a Rede Globo não tinha algum dedo na produção do filme. Em condições normais, acompanhar isso seria intragável e um bom momento para visitar o toalete, mas Vidro traz uma surpresa que faz essa seção ser até divertida.

O epílogo da trilogia conta com um recurso novo e muito bem explorado pela direção: o uso de flashbacks com cenas de filmes anteriores. O que falta de intertextualidade em Fragmentado é compensado aqui com dezenas de momentos “eu lembro dessa cena!” polvilhados sobre a história de maneira coerente e suave. Há instantes em que cenas gravadas para Corpo Fechado mas cortadas da edição são empregadas, e todas parecem frescas como se inéditas, mas acolhedoras como se familiares. Este ás na manga conseguiu me deixar extasiado desde a primeira vez e, a cada utilização, meu medo do uso excessivo diminuía em prol da expectativa de assisti-lo novamente. M. Night Shyamalan espreme leite de pedra aqui e obriga a reflexão - certamente desmedida, mas assim são as tintas da emoção - sobre se o atraso de quinze anos entre o primeiro e o segundo filmes não foram propositais.

Eu tenho certeza que não, visto que os produtores, diretores e até atores do filme correram em busca de apoio para produzirem a sequência ainda nos anos 2000. O roteiro que foi adaptado para se encaixar às cenas previamente gravadas. Mas a reflexão permanece.

O final do filme trouxe-me tristeza porque veio com a morte do que eu mais gosto em toda a série Corpo Fechado: o trio de protagonistas. James McAvoy tem menos espaço na telona e um exagero de alívios cômigos nas falas. É como se os roteiristas houvessem pretendido abusar o máximo possível do talento espetacular em trocar de personalidades e esquecido de construir, sei lá, história, ambientação, plot twists. Apesar de forçadas, as transformações de Kevin continuam suaves e perfeitamente contínuas como sempre, de forma que elas se tornam cansativas mas permanecendo impressionantes. Curiosamente, Kevin, a personalidade que eu mais detesto, assume o papel de liderança sobre o próprio corpo e está mais presente do que nunca. Por outro lado, temos muito mais Hedwig dessa vez e ele sempre será meu main man.

Bruce Willis aparece com um mash-up entre Duro de Matar e namorado da Rachel Green em Friends desta vez. Não existem lágrimas propriamente ditas, mas o sentimento de dor é palpável. Willis é decidido e firme enquanto performa um personagem indeciso e inseguro, e estranhamente isto funciona muito bem. Sabemos que David Dunn é um super-herói, mas, no entanto, não esperamos que ele seja perfeito, num dilema perene entre o humano e o sobre-humano que habitam o mesmo corpo.

Samuel L. Jackson, contudo, é quem carrega este filme nas costas. As longas cenas de diálogos em que ele permanece em silêncio também me deixaram sem palavras. Se Sarah Paulson permanece monocórdica ao longo da maior parte do filme, Jackson em estado catatônico esbanja expressões tão minuciosas que é possível ler sua mente.

A morte deles representa que não deve haver sequência. Se, por um lado, é uma pena que precisemos esperar o remake para obter uma continuação, por outro, é também uma forma de proteger o que a franquia construiu de melhor: nostalgia. Neste ponto, Vidro dá um ponto final tolerável à trilogia, que termina sem fôlego, mas com dignidade.

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