A porta da rua é a serventia da casa

publicado originalmente em inglês no dia 2017-03-16

Tenho andado sumido estes dias, eu sei, mas ainda não desisti desta vida de blogueiro. Não vou fingir que é a faculdade que está me atrapalhando, já que não seria apenas uma desculpa ruim, mas também uma mentira. O que tem realmente tomado meu tempo e minha atennção é um problema sério e profundamente enraizado na nossa atual cultura de trabalho.

No Pré-Universitário Comunitário Rubem Alves, nós trabalhamos muito duro para fornecer aos nossos alunos a melhor educação que podemos, a um custo praticamente nulo para eles. Aliás, nós nunca dispensamos um aluno interessado em estudar, mesmo que ele não pudesse sequer pagar a passagem do ônibus até nosso Projeto. Levamos educação muito a sério, e estamos dispostos ao que for necessário para que eles se sintam seguros e dedicados a estudarem.

Ou pelo menos era o que eu pensava. O Projeto como um todo está sendo mantido pelos quatro coordenadores e um punhado de professores voluntários fervorosamente dedicados que insistem em desenvolver formas inovadoras de difundir conhecimento, arte e cultura. Infelizmente, isto significa que a organização já atingiu seu ápice, e as sementes da decadência começam a encontrar terreno fértil. Uma cultura de trabalho produtiva não é capaz de resistir aos esforços combinados da Mediocridade, Impunidade e Negligência. É por isto que o ditado acertadamente alega que excelência é uma prática e não uma meta. A cada instante que a organização hesita em aplicar os fundamentos da melhoria contínua, está se expondo à Mediocridade, Impunidade e Negligência e mergulhando em direção ao seu fracasso. 

Para contexto, existem centenas de cursos pré-vestibulares na cidade do Rio de Janeiro (e arredores), entre privados, públicos e sociais. Cursos privados são focados em resultados numéricos e têm a liberdade de cobrar o quanto desejarem para atingí-los. Quando falo de custos, não estou falando somente de dinheiro. Pelo contrário, para ser honesto. Ao considerar como resultados a quantidade de aprovações (e não o percentual de alunos aprovados), estas instituições capitalizam a desvalorização da dedicação de nossos jovens cidadãos, um valor ético que eu considero insustentável para um país que se denomina em desenvolvimento. Ainda assim, este apetite voraz por números e a necessidade ininterrupta de atrair a atenção das classes sociais mais privilegiadas previnem que estes cursos sucumbam à Mediocridade, Impunidade e Negligência. Esta dinâmica é evidenciada pela imponente longevidade destas escolas, muitas delas com mais de cinquanta anos de tradição.

Cursos pré-vestibulares públicos foram geralmente fundados com fins político-partidários em mente e, uma vez estabelecidos, a interrupção de suas atividades é improvável, dado que alguém permaneça interessado em financiá-los. A maioria esmagadora dos funcionários possui estabilidade profissional registrada em contrato ou numa cultura de trabalho com décadas de existência e, portanto, rapidamente se torna resiliente a mudanças. Melhorias na cultura ou no ambiente de trabalho são infrequentes, especialmente se houver qualquer sugestão, por mais implícita que seja, de que qualquer das partes envolvidas poderá ter que trabalhar mais por causa delas. Estas escolas, por conseguinte, tornam-se imunes às consequências da Mediocridade, Impunidade e Negligência, ao adotarem a estratégia de convidá-las e hospedá-las no seio de suas instituições, de uma forma que pode até parecer subconsciente, mas é plenamente consensual. É lógico que nenhum funcionário de escola pública jamais a admitiria, particularmente um professor ou diretor. Mas lhes ofereça a mínima possibilidade de enviarem seus filhos para uma escola privada de sua escolha e observe o quão rápida e agradecidamente ele a aceitará. Ao declararem que a missão delas é ajudar os que mais necessitam, o que realmente querem dizer é que estão ali somente para atender aos que não têm outra alternativa. 

O que nos leva à terceira opção: cursos pré-vestibulares sociais, comunitários ou sem fins lucrativos, que têm crescido vertiginosamente em popularidade na última década, justamente porque as escolas privadas haviam se tornado custosas demais para a classe trabalhadora e as escolas públicas, ineficientes demais para serem confiadas. Em projetos como o nosso, conseguimos nos livrar dos grilhões do capitalismo e da burocracia governamental, permitindo a pessoas como eu colocarem em prática suas próprias visões do que consideram que educação trate-se. Dos meus estudantes não são, e nunca serão exigidas quantias absurdas de dinheiro para terem acesso a uma educação que eles acreditem digna de si mesmos. E eles também não são, e nunca serão forçados a aceitarem nosso Projeto por julgarem que não têm outra escolha. Se qualquer um deles algum dia ver-se insatisfeito com os nossos serviços, há diversos caminhos para a resolução de conflitos: juntar-se ao Projeto para mudar a cultura por dentro; demandar mudanças da Gestão e discutir acordos plausíveis para ambas as partes; ou ainda, se nenhum dos anteriores for do agrado dele, abandonar o curso e buscar outra instituição - existem literalmente centenas de outras como a nossa para ele escolher. Orgulho-me de dizer que este último caminho tem sido o mais preterido por uma gorda margem: tenho hoje, na lista de chamada, estudantes cujas famílias haviam gastado dezenas de milhares de reais em cursos privados bastante renomados, apenas para terem uma experiência muito aquém da esperada e encontrarem-se em nosso Projeto. Aliás, tenho ainda alunos que estão neste exato momento matriculados em escolas privadas e concomitantemente assistindo às nossas aulas, frequentemente elogiando nossa estrutura como flexível, acessível e convidativa. 

Bom, a esta altura do campeonato, você deve estar se perguntando de que raios tanto reclamo, e com razão. Infelizmente, apesar de não precisar perseguir lucros constantes e bajular políticos eleitoreiros, ainda preciso batalhar por sobrevivência. Uma batalha interminável contra a Mediocridade, Impunidade e Negligência. Uma luta permanente para lembrar a todos no Projeto, seja estudantes, seja voluntários, que não somos uma ação de caridade, mas uma instituição de ensino cuja construção e manutenção são coletivas e, portanto, requer que todos façam a sua parte. Um lugar para se cometer erros, sem sombra de dúvidas, mas erros proativos, erros honestos, erros bem-intencionados, erros necessários ao aprendizado. Nós não somos, e jamais devemos nos sujeitar a sermos, tolerantes a erros causados por Mediocridade, Impunidade e Negligência.

É claro que, uma vez que nossa mão-de-obra permanece humana em essência, é enganosa a expectativa de que todos darão o máximo de si o tempo inteiro, e, justamente por isto, esta nunca foi uma de nossas práticas. Mas sabe o que é ainda mais enganoso? Iludir centenas de jovens adultos de forma a fazê-los gastarem seus dias conosco, enquanto fornecemos um serviço cujo padrão de qualidade jamais aceitaríamos para nós mesmos. Nossa busca pela Excelência precisa ser encarada como um trabalho de tempo integral, sem pausas para a Mediocridade, Impunidade e Negligência. Por favor, leve-as a outro lugar. Se você não encara nossa missão como prioritária, por favor, faça a nós e a si mesmo um favor e encontre a saída. A porta da frente é a serventia da casa.

Etiqueta: pura 

 

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