A porta da rua é a serventia da casa: Episódio final

O momento pelo qual eu tanto esperava chegou, e de forma bem mais acelerada do que eu havia previsto. A situação no PURA atingiu um nível insustentável e culminou no meu afastamento. Vamos aos fatos.

No dia 8 de julho, faltei ao Projeto por estar doente. Neste dia, um dos voluntários foi interpelado a auxiliar três membros da Gestão a fazerem as compras para as aulas do dia seguinte. Como o mesmo não fosse capaz de ajudá-los, por ter sido comunicado em cima da hora e já ter um compromisso, os membros da Gestão iniciaram uma campanha de perseguição ao mesmo, numa evidência clara de abuso de autoridade. Utilizando-se de prerrogativas e competências que não lhes cabiam, os três empregaram uma decisão não divulgada à comunidade (portanto, sem valor normativo) para empreenderem o assédio moral ao longo de dois dias, através de meios presenciais e virtuais. 

No dia seguinte, com a saúde ainda fragilizada, compareci ao Projeto e, em nenhum momento, quaisquer dos três membros consultou-me ou informou-me a respeito do acontecido. As atividades foram realizadas com retumbante sucesso, e o voluntário em questão agradeceu-me pela presença, a despeito da péssima saúde. 

Foi com surpresa, portanto, que reagi às reclamações dele no dia seguinte. Uma participante da Gestão, usando de linguagem rude e de hierarquias que não lhe pertenciam, ameaçou o voluntário de cancelamento das atividades futuras e de atrapalhar ativamente os planos do mesmo. Visto que, como Coordenador Pedagógico, a marcação de atividades cai sob a minha tutela (e eu mesmo nunca ameacei ninguém de cancelamento), o voluntário consultou-me a respeito do assédio moral sofrido. 

Levei à Gestão a discussão sobre um apropriado pedido de desculpas ao voluntário, bem como a adequada divulgação da decisão. Dos oito membros da Gestão, seis abstiveram-se ante a denúncia de assédio moral, justificando-se pela alegada rudeza do voluntário. Argumentei que problemas pessoais não podem interferir em decisões profissionais, e não são justificativas aceitáveis para a prática criminosa, mas, ainda assim, os mesmos permaneceram irredutíveis. A voluntária agressora negou ter realizado qualquer perseguição, mesmo tendo citado diversas contendas pessoais como motivadoras de suas ações. Ao final, o Coordenador Geral posiciona-se firmemente contra a violência, mas opta por um tom genérico e não-direcionado a nenhum dos envolvidos. 

Após uma semana, a perseguição da voluntária persiste, com crescente adesão dos demais membros da Gestão. Por não concordar com a leniência dos demais, pressionei os demais coordenadores e chegamos ao seguinte acordo:

  1. O curso realizará um pedido de desculpas público ao voluntário agredido, seguido de informe da decisão utilizada para atacá-lo. O pedido de desculpas explicitará a repulsa que o curso sente pela prática do assédio moral, e comprometer-se-á a reprimir ativamente perseguições e vinganças pessoais;
  2. A perseguição ao tal voluntário deverá ser encerrada imediatamente, de forma que suas atividades sejam mantidas e executadas conforme o planejado;
  3. A Gestão convidará membros do corpo docente a fiscalizarem os meios virtuais da mesma, de forma a promover a necessária transparência de que tanto carece o Projeto;
  4. Eu me afastarei da posição de Coordenador Pedagógico em breve, por não mais confiar na atual Gestão como uma organização interessada no combate aos crimes contra a dignidade. 

O acordo foi alcançado com anuência de todas as partes, e está sujeito ao seu cumprimento total. A falha de alguma das partes em cumprir o acordo dar-se-á em revogação completa. Embora meu cargo tenha sido servido como sacrifício, minha expectativa é de que a comunidade do PURA tenha meios mais eficazes de prevenir e combater o assédio moral em suas dependências. 

Por fim, espero estar fazendo a coisa certa e impedindo que a Mediocridade, a Impunidade e a Negligência instalem-se no PURA. Por ora, resta-me apenas concluir que a porta da rua é a serventia da casa

Etiqueta: pura 

 

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