Uma andorinha não faz verão

Deve fazer umas 24 horas que não troco palavras com ninguém. Tem sido solitário, mas não depressivo. Para ser sincero, está sendo bastante relaxante. A reflexão tem me permitido apreciar a beleza inesperada da arte que se comunica através do silêncio.

Minha instrutora de inglês recomendou o conto "O Príncipe Feliz", escrito pelo inglês Oscar Wilde em 1888, o mesmo ano em que a escravidão foi criminalizada no Brasil. Sei que vocês devem estar provavelmente embriagados, ou de ressaca, ou ambos, mas talvez alguém se importe com a mensagem da andorinha que fez de si mesma verão.

O Príncipe Feliz

de Oscar Wilde
Tradução de André de Souza Mucciolo, Flávia Souto Maior, Júlio César Alves e Patrícia Freitas dos Santos

 

Bem acima do nível da cidade, ao alto de uma elevada coluna, erguia-se a estátua do Príncipe Feliz. Coberta por uma camada de finas folhas de puro ouro, tinha no lugar de olhos duas safiras brilhantes e na empunhadura de sua espada, um resplandecente rubi vermelho. De fato, era muito admirada.

˗ É tão bonita quanto um cata-vento ˗ destacou um dos Conselheiros da Cidade, procurando dar ao seu discurso um ar de quem conhecia das artes. ˗ Apesar de não ser lá de toda utilidade ˗ acrescentou prudentemente, a fim de não fazer-se passar por homem pouco prático, o que sem dúvida ele não era.

˗ Por que você não pode ser como o Príncipe Feliz? ˗ perguntou uma mãe sensata ao seu pequeno garoto, que chorava por coisas que sua mãe não lhe podia dar. ˗ Nunca ocorreu ao Príncipe Feliz chorar por coisa alguma.

˗ Alegro-me de saber que há no mundo alguém que seja realmente feliz ˗ resmungou um homem desiludido ao contemplar a admirável obra.

˗ Parece realmente um anjo ˗ afirmaram as Crianças do Orfanato ao saírem da catedral com seus aventais brancos e mantos de vivo escarlate.

˗ Como vocês sabem? ˗ perguntou-lhes o Professor de Matemática. ˗ Vocês nunca viram um anjo.

˗ Ah, mas em nossos sonhos sim! ˗ responderam as crianças, ao que o Professor de Matemática reprochou franzindo o cenho e lançando-lhes um olhar severo, pois não permitia que as crianças sonhassem.

Uma noite, voava pela cidade um pequeno Andorinho. Seus amigos haviam migrado para o Egito seis semanas antes, mas ele preferira ficar, pois havia se apaixonado pela mais bela Haste de Junco3. Havia-a visto pela primeira vez na primavera, enquanto voava para capturar uma grande mariposa amarela ao rio. Sentiu-se tão atraído pela singela cintura daquela linda Haste, que parou para conversar com ela.

˗ Posso amar você? ˗ perguntou-lhe o Andorinho, que gostava de ir direto ao assunto, ao que ela respondeu afirmativamente, com uma reverência. Ele então passou a voar e voar ao redor de sua amada, tocando as águas do rio e criando ondas de prata. Assim começou seu namoro com ela, que durou todo o verão.

˗ Que relação ridícula! ˗ contestavam seus amigos. ˗ Além de não ter dinheiro, ela tem parentes demais. ˗ O rio, de fato, estava repleto de juncos. Sentiu-se só após a partida de seus amigos, com a chegada do outono. Sua
amada já não lhe atraía mais e sentia-se enfadado com a situação.

˗ Ela não é de muita conversa e receio que seja coquete, pois está sempre flertando com o vento. ˗ Sempre que ventava, a Haste fazia as mais graciosas reverências.

˗ Reconheço que ela seja caseira ˗ continuou ˗ mas eu adoro viajar e minha mulher deveria também gostar de conhecer outros lugares.

˗ Você fugiria comigo? ˗ desabafou finalmente com ela, mas sua amada recusou, meneando com a cabeça: era muito arraigada ao lar.

˗ Você não tem se importado comigo ˗ disse-lhe enfurecido. ˗ As pirâmides me esperam, adeus! ˗ Bateu asas e se foi.

Voou durante todo o dia até que, enfim, chegou à cidade ao anoitecer.

˗ Onde eu poderia passar a noite? ˗ pensou. ˗ Espero que a cidade tenha feito os preparativos para me receber.

Foi então que ele viu uma estátua sobre uma elevada coluna.

˗ Já sei, vou passar a noite ali; é um lugar arejado, com bastante ar fresco. ˗ Pousou então entre os pés do Príncipe Feliz.

˗ Tenho um berço de ouro ˗ disse para si enquanto olhava em redor, preparando-se para dormir. Mas, no exato momento em que colocava sua cabeçinha sob a asa, uma grande gota de água caiu sobre ele.

˗ Que estranho! ˗ exclamou. ˗ Não há sequer uma nuvem no céu; as estrelas estão claras e brilhantes, mas mesmo assim está chovendo. O clima na Europa do Norte é realmente estranho.

A Haste de junco costumava gostar de chuva, mas isto não passava de um egoísmo seu. Outra gota então caiu sobre ele.

˗ Que utilidade tem uma estátua se nem evitar a chuva ela pode? ˗ afirmou. ˗ Preciso encontrar um bom abrigo em alguma chaminé. ˗ E assim decidiu voar para outro lugar.

No entanto, antes mesmo de poder abrir as asas, uma terceira gota lhe acertou. Ele então olhou para cima e... Ah! Era realmente verdade o que estava vendo? Os olhos do Príncipe Feliz estavam repletos de lágrimas, que escorriam sobre sua face dourada. Seu rosto ao luar era tão belo que o Andorinho encheu-se de pena.

˗ Quem é você? ˗ perguntou.

˗ Sou o Príncipe Feliz.

˗ Por que chora então? Você me deixou todo ensopado!

˗ Quando era vivo e tinha um coração humano ˗ respondeu a estátua – não conhecia as lágrimas, porque vivia no Palácio de Sans-Souci, onde a tristeza não podia entrar. Durante o dia, brincava com meus amigos no jardim e, à noite, conduzia a dança no Grande Salão. Ao redor do jardim estendia-se um enorme muro, mas nunca me havia interessado em saber o que havia além dele. Tudo a meu respeito era absolutamente belo. Meus cortesões me chamavam de Príncipe Feliz, e feliz de fato eu era, se se pode chamar o prazer de felicidade. Assim vivi, assim morri. E agora que me puseram aqui neste local tão alto, posso ver o quão horrível e miserável é minha cidade; e embora meu coração esteja feito de bronze, nada posso fazer senão chorar.

˗ O que?! Não é ele feito de ouro sólido? ˗ perguntou-se o Andorinho, que era educado demais para fazer observações pessoais em voz alta.

˗ Em um lugar distante ˗ continuou a estátua em um tom musical ˗ em uma rua estreita há uma casa humilde. Uma das janelas está aberta, através da qual vejo uma mulher sentada em uma cadeira. Seu rosto é delgado e cansado. Suas mãos são ásperas e avermelhadas, completamente feridas pela agulha, por ser ela uma costureira. Está bordando flores de maracujá em um vestido de cetim para que a mais adorável dama de
honra da Rainha a vista em um baile na corte. Na cama, em um canto do quarto, jaz seu filho doente. Ele arde em febre e pede a sua mãe laranjas. Ela, porém, nada tem a oferecer-lhe senão a água do rio e, por isso, ele chora. Andorinho, Andorinho, querido Andorinho, não poderia levar a ela este rubi que está na empunhadura de minha espada? Meus pés estão presos neste pedestal, por isso não posso me mover.

˗ Esperam-me no Egito ˗ disse o Andorinho. ˗ Meus amigos estão agora voando sobre o Nilo e flertando com flores de lótus. Daqui a pouco estarão se preparando para dormir na tumba do grande Rei, que está lá, dentro de seu caixão pintado. Está embrulhado com linho amarelo e embalsamado com especiarias. Ao redor de seu pescoço há uma corrente de jade verde fosco e suas mãos são como folhas murchas.

˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho, não poderia ficar esta noite comigo e ser meu mensageiro? O garotinho tem sede e sua mãe está tão triste.

˗ Não sei se gosto de garotos ˗ respondeu o Andorinho. ˗ No verão passado, quando estava à beira do rio, havia dois garotos muito grosseiros, filhos do dono da moedeira, que não paravam de jogar pedras em mim. Nunca me acertaram, obviamente: os Andorinhos podemos voar para bem longe e, além disso, sou de uma linhagem conhecida pela agilidade, mas mesmo assim era um sinal de desrespeito.

Mas o olhar triste do Príncipe Feliz fez o Andorinho arrepender-se: ˗ Faz muito frio aqui, mas ficarei com você esta noite e serei seu mensageiro.

˗ Muito obrigado, querido Andorinho ˗ agradeceu o Príncipe.

Então o Andorinho pegou o grande rubi da espada do Príncipe e saiu voando sobre os telhados da cidade com a pedra ao bico. Passou pela torre da catedral, onde anjos de mármore branco estavam esculpidos. Passou também sobre o palácio e ouviu a música do grande baile. Uma linda garota
surgiu à varanda com seu namorado.

˗ Que lindas estão as estrelas hoje ˗ disse o garoto a sua amada. ˗ E quão poderoso é o poder do amor!

˗ Espero que minha roupa esteja pronta até o dia do Baile Oficial ˗ respondeu ela. ˗ Pedi que flores de maracujá fossem bordadas em meu vestido, mas as costureiras são tão preguiçosas.

O Andorinho sobrevoou o rio e viu as lanternas acesas nos mastros dos navios. Passou sobre o Gueto e viu alguns judeus barganhando e pesando dinheiro sobre balanças de cobre. Enfim, chegou àquela casinha humilde e olhou seu interior. O garotinho agitava-se febrilmente sobre a cama, e sua mãe havia caído no sono, devido ao cansaço. O Andorinho então entrou e colocou o grande rubi sobre a mesa, ao lado do dedal da mulher. Logo depois, voou suavemente ao redor da cama, abanando com as asas a fronte do garoto.

˗ Como me sinto mais refrescado ˗ disse o menino. ˗ Devo estar melhorando. ˗ E mergulhou em um delicioso sono.

O Andorinho então voou de volta para o Príncipe Feliz e contou-lhe o que havia feito.

˗ É engraçado ˗ afirmou-lhe. ˗ Sinto-me aquecido agora, mesmo estando frio.

˗ É porque você acabou de fazer uma boa ação ˗ respondeu-lhe o Príncipe. E o Andorinho começou a pensar e também caiu no sono. Pensar sempre o deixava sonolento.

Assim que o dia amanheceu, voou em direção ao rio e tomou um banho.

˗ Que fenômeno singular ˗ exclamou o Professor de Ornitologia, enquanto passava sobre a ponte. ˗ Um Andorinho no inverno! ˗ E o professor então decidiu escrever um longo artigo sobre isto no jornal local. Todos na cidade o mencionavam, mas o texto estava repleto de palavras que ninguém podia entender.

˗ Esta noite vou para o Egito ˗ disse o Andorinho, que estava ansioso por causa da expectativa. Visitou todos os monumentos públicos e sentou-se por um longo tempo no topo do campanário da igreja. Sempre que aparecia por lá, os Pardais gorjeavam, dizendo uns aos outros: ˗ Que ilustre estrangeiro! ˗ e ele sentia-se o todo-todo.

Quando a lua nasceu, voltou para junto do Príncipe Feliz.

˗ Tem algum recado para o Egito? ˗ perguntou. ˗ Vou partir agora mesmo.

˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você não ficaria mais uma noite comigo?

˗ Esperam-me no Egito ˗ respondeu o Andorinho. ˗ Amanhã os meus amigos voarão para a Segunda Catarata. É ali que o hipopótamo descansa entre as plantas aquáticas, e o Deus Memnon repousa em um grande trono de granito11. Todas as noites ele contempla as estrelas, e quando a estrela da manhã brilha, solta um grito de alegria e emudece novamente. Ao meio dia, leões amarelos dirigem-se à margem do rio para beber água. Seus olhos são como berilos verdes, e o seu uivo é tão forte quanto o bramido da catarata.

˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Em um lugar distante, do outro lado da cidade, vejo um jovem em um sótão. Está debruçado sobre uma mesa cheia de papéis, e em um copo a seu lado há um ramo de violetas murchas. Seu cabelo é castanho e ondulado, e seus lábios são vermelhos como uma romã; e seus olhos, grandes e sonhadores. Está tentando terminar uma peça para o Diretor do Teatro, mas ele tem tanto frio que é incapaz de continuar a escrever. Não há mais fogo na lareira, e a fome o fez perder a consciência.

˗ Ficarei aqui com você uma noite mais ˗ respondeu o Andorinho, que realmente tinha um coração bom. ˗ Devo levar ao garoto outro rubi?

˗ Céus! Não me resta mais nenhum rubi! ˗ exclamou o Príncipe. ˗ Meus olhos são o que tenho neste momento. São feitos de safiras raras, que foram trazidas da Índia mil anos atrás. Arranque uma delas e leve-a ao garoto. Ele certamente levará a um joalheiro, e então poderá comprar comida, lenha e terminar a peça.

˗ Querido Príncipe ˗ disse o Andorinho ˗ não posso fazer isso. ˗ E pôs-se a chorar.

˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Faça tal como lhe ordeno.

E o Andorinho arrancou um dos olhos do Príncipe e voou em direção ao sótão onde se encontrava o garoto. Era extremamente fácil adentrar o recinto, pois havia um buraco no teto, através do qual teve acesso ao quarto. O garotinho tinha a cabeça sobre as mãos e por isso não pôde ouvir o bater de asas do Andorinho. Assim, quando olhou para cima, viu uma linda safira sobre as violetas murchas.

˗ Acho que alguém está gostando de mim ˗ exclamou o garoto. ˗ Isto deve ser um presente de um grande admirador. Agora posso terminar minha peça. ˗ E o garoto ficou muito feliz.

No dia seguinte, o Andorinho voou para o porto. Pousou no mastro de um grande navio e viu os marinheiros içando grandes caixas para fora do porão. ˗ Puxando carga! ˗ gritavam eles, a cada caixa que subia.

˗ Estou indo para o Egito! ˗ gritou o Andorinho, mas ninguém pareceu importar-se.

Quando a lua voltou a aparecer, ele voou de volta para o Príncipe Feliz.

˗ Voltei para dizer-lhe adeus ˗ disse-lhe.

˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ respondeu o Príncipe. ˗ Você não ficaria comigo uma noite mais?

˗ Já é inverno ˗ respondeu o Andorinho ˗ e logo, logo, a neve fria estará aqui. No Egito, o sol é quente sobre as palmeiras verdes, e os crocodilos descansam sobre a lama, preguiçosamente. Meus companheiros estão construindo um ninho sobre Templo de Baalbek, e os pombos brancos assistem seu trabalho, arrulhando uns aos outros. Querido Príncipe, preciso realmente deixá-lo agora, mas nunca o esquecerei. Na próxima primavera trarei duas lindas joias para substituir as que você doou. O rubi há de ser vermelho como uma rosa; e a safira, azul, como o infinito oceano.

˗ Logo ali na praça ˗ disse o Príncipe Feliz ˗ há uma garotinha que vende fósforos, os quais estragaram depois de ela tê-los deixado cair na valeta. Seu pai a castigará se ela não trouxer algum dinheiro para casa, e por isso ela chora. Ela não tem tênis ou meia, e sua cabecinha está desprotegida contra o frio. Arranque o olho que me resta e o dê a ela, assim seu pai não a castigará.

˗ Ficarei com você uma noite mais ˗ respondeu o Andorinho ˗ mas de maneira alguma arrancarei o olho que lhe resta: você ficará completamente cego.

˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Faça tal como lhe ordeno.

Ele então arrancou-lhe o outro olho partiu como uma flecha. Ao avistar a garotinha, o Andorinho baixou em sua direção e soltou a joia sobre a palma de sua mão.

˗ Que lindo cristal! ˗ exclamou ela, e saiu correndo alegremente para casa.

O Andorinho então voltou para junto do Príncipe e disse-lhe:

˗ Você agora está cego, e por isso vou ficar sempre com você.

˗ De maneira alguma, querido Andorinho ˗ respondeu o pobre Príncipe. ˗ Você precisa ir para o Egito.

˗ Ficarei com você para sempre ˗ afirmou o Andorinho, adormecendo logo em seguida aos pés do Príncipe.

Durante todo o dia seguinte, ele permaneceu sobre o ombro do Príncipe Feliz, contando-lhe histórias que havia visto em terras estrangeiras. Contou-lhe sobre as Íbis, aves que formavam longas filas às margens do Nilo para capturar peixinhos dourados; sobre a Esfinge, que é tão velha quanto o mundo, vive no deserto e conhece tudo; sobre os comerciantes, que caminham lentamente ao lado de seus camelos e carregam miçangas de âmbar em suas mãos; sobre o Rei da Montanhas da Lua, que é negro como o ébano e louva um grande cristal; sobre a grande serpente verde que dorme em uma palmeira e vinte sacerdotes lhe dão de comer bolinhos de mel; sobre os pigmeus, que navegam em um grande lago sobre folhas largas e achatadas, e sempre estão em guerra contra as borboletas.

˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você me conta histórias surpreendentes; porém, mais surpreendente ainda é o sofrimento dos homens. Não há Mistério maior que a Miséria. Voe sobre minha cidade, querido Andorinho, e diga-me o que lá vê.

O Andorinho então sobrevoou a grande cidade e viu os ricos divertindo-se em suas lindas casas, enquanto mendigos sentavam-se ao pé do portão. Passou por becos escuros e viu os rostos brancos de crianças famintas olhando desinteressadamente as ruas obscuras. Sob a arcada de uma ponte dois garotos estavam deitados, abraçando-se um ao outro de modo a se aquecerem.

˗ Que fome temos! ˗ diziam.

˗ Não podem ficar aqui! ˗ ordenou-lhes o Vigia; e eles então tiveram que perambular na chuva.

Voltou para o Príncipe Feliz e contou-lhe o que havia visto.

˗ Estou coberto com puro ouro ˗ segredou-lhe o Príncipe. ˗ Retire-o folha por folha e dê-o aos pobres: os homens têm o costume de pensar que o ouro pode deixá-los mais felizes.

Folha por folha o Andorinho ia retirando o ouro, até que o Príncipe ficou completamente cinza e desinteressante. Folha por folha o Andorinho passou a distribuí-las aos pobres. As faces das crianças enrubesciam, e de tanta alegria os pequenos riam e brincavam na rua.

˗ Agora temos pão! ˗ gritavam de alegria.

Mas a neve logo chegaria, e com ela a geada. As ruas pareciam feitas de prata, de tão claras e cintilantes que eram. Pedaços de gelo pendiam das calhas das casas como adagas de cristal. Todos passeavam em casacos de pele, e os meninos, com seus gorros escarlates, patinavam no gelo. O pobre Andorinho sentia cada vez mais frio, mas isto não o impedia de continuar com Príncipe: seu amor por ele era muito grande. Sempre que o padeiro se distraía, o Andorinho ia lá e pegava ao pé de sua porta miolos de pão, e agitava as asas a fim de manter-se aquecido. Mas aos poucos ele percebia que a morte se aproximava: sobravam-lhe apenas forças para voar pela última vez aos ombros do Príncipe.

˗ Adeus, amado Príncipe! ˗ murmurou-lhe. ˗ Você permitiria que eu beijasse sua mão?

˗ Sinto-me contende de saber que finalmente você vai para o Egito, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você já ficou tempo demais aqui. Mas beije-me nos lábios, pois eu amo você.

˗ Não é ao Egito que estou indo ˗ respondeu o Andorinho. ˗ Vou para junto da Morte; afinal, ela é a irmã do Sono, não é?

Dito isto, ele beijou os lábios do Príncipe e sucumbiu, logo em seguida, morto aos seus pés.

Naquele momento, ouviu-se um barulho estranho vindo de dentro da estátua, como se algo houvesse se quebrado. E foi exatamente o que aconteceu: o coração do Príncipe partira-se em dois. Sem dúvida havia sido a terrível geada.

Na manhã seguinte, o Prefeito passeava pela praça em companhia de seus Assessores. Ao passarem pela coluna, olhou para cima, em direção à estátua, e exclamou assombrado:

˗ Santo Deus! Que miserável aspecto tem o Príncipe!

˗ Miserável mesmo! ˗ responderam os Assessores, que sempre concordavam com o Prefeito. Eles então subiram para conferir de perto.

˗ O rubi caiu de sua espada; seus olhos se foram; e ele não é mais feito de ouro ˗ afirmou o Prefeito, asseverando logo em seguida: ˗ Sua sorte é um pouco melhor que a de um mendigo!

˗ Pouco melhor que a de um mendigo ˗ repetiram os Assessores.

˗ Há até um pássaro morto a seus pés! ˗ continuou o Prefeito. ˗ Devemos urgentemente lançar um decreto que proíba os pássaros de morrerem aqui. ˗ E o Escrevente da cidade tomou nota da sugestão.

Eles então incumbiram-se de derrubar a estátua do Príncipe Feliz.

˗ Não sendo mais belo, deixa de ser útil ˗ declarou o Professor de Artes da Universidade.

Decidiram, enfim, derreter a estátua em um forno, e o Prefeito solicitou uma reunião da Corporação a fim de decidir o que haveria de ser feito com o metal.

˗ Devemos ter outra estátua, obviamente, e esta estátua será a minha ˗ concluiu.

˗ Será a minha ˗ repetiram os Assessores, um a um, o que acabou provocando uma grande briga entre eles. Desde a última vez que soube notícia deles, estavam brigando ainda.

˗ Que coisa mais curiosa! ˗ disse o supervisor do trabalhador da fundição. ˗ Este coração de bronze não quer derreter no forno. Teremos que jogá-lo fora. E atiraram-no em uma pilha de lixo onde se encontrava também o Andorinho morto.

˗ Traga-me as duas coisas mais preciosas da cidade ˗ ordenou Deus a um de seus Anjos, que Lhe trouxe um coração de bronze e um passarinho morto.

˗ Você fez a escolha certa ˗ disse Deus. ˗ Por isso, no jardim do Paraíso este lindo pássaro há de cantar para todos ouvirem, e em minha cidade de ouro o Príncipe Feliz há de louvar-me.

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