Mentiras de muitas pernas

O blog de hoje é um desabafo nascido do publicado ontem. É um grito que vem sendo silenciosamente sufocado desde o dia que retornei ao Facebook, com uma nova conta, na expectativa justamente de que não estivesse vendo o que estou vendo.

Que o Facebook permanece uma rede social projetada para extrair, expor e explorar o que há de mais mesquinho do ser humano, eu não tinha dúvidas, e nem esperava diferente. Inclusive, acho graça dos que reclamam da leniência do site em combater conteúdos inapropriados, porque o formato é desenhado desde o princípio para concentrar dentro dos domínios dele as discussões e as polêmicas delas nascidas. Se algo é removido, é apenas com a intenção de manter o (des)equilíbrio do ecossistema, porque, no fundo, o Facebook deseja permanecer como o principal campo de batalha da web.

Vou direto ao ponto. Ontem, enquanto pesquisava sobre a polêmica do texto da Elika Takimoto, tropecei nesta opinião. Quem quiser ler na íntegra, que visite o site. Para cá, trarei somente o trecho que me chamou a atenção:

Em termos individuais, seu resultado é o escracho, que pode conduzir a efeitos concretos bastante perversos. Isso porque a distinção entre ficção e realidade tende a desaparecer em espaços como o Facebook, zonas virtuais onde tudo é já ficção e, ao mesmo tempo, real.

Hoje, ao acordar, estava lendo blogs antigos (que transformei em livros e folheio enquanto espero a vontade de viver se materializar) e encontrei um desabafo da professora de letras Lola Aronovich, de novembro de 2015, quando um site falso que usava o nome dela viralizou na rede. É claro que ninguém sente prazer em ser difamado, mas sua decepção não é direcionada aos desafetos e sim aos seus leitores:

Mas gente que já leu o meu blog uma vez na vida perguntar "É seu?" dói.

Não sei se é porque li ambos quase no mesmo dia, mas a intertextualidade tomou-me de assalto e, quiçá de forma irracional, estou desapontado. A sociedade que cultua e exalta o meme "ISSO É MUITO BLACK MIRROR" talvez devesse rever seu espanto com a similaridade entre ficção científica e a realidade, porque reproduz com fidelidade assustadora o universo distópico de Aldous Huxley em "Admirável Mundo Novo". Nas palavras do escritor americano Neil Postman:

Huxley temia que não haveria razões para se banir um livro, porque não haveria ninguém disposto a ler algum; que nós receberíamos tanta informação que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo; que a verdade seria afogada num mar de irrelevância. Huxley temia que nós nos tornaríamos uma cultura trivial, preocupada somente com as sensações, as orgias e os brinquedos. Como Huxley declarou na edição revisada, os libertários e racionalistas que viviam em alerta contra a tirania esqueceram de levar em consideração o apetite quase infinito do homem por distrações.

POSTMAN, Neil. Amusing Ourselves to Death, 1985. Tradução livre.

Não existe mais o conjunto da verdade e o conjunto da mentira, existe somente a histeria e aqueles com pulmão suficiente para espalhá-la. A distopia de Aldous Huxley materializou-se numa sociedade histriônica e alucinada pela revolução tecnológica.

Não há um dia que eu não entre no Facebook e não descubra uma notícia falsa, claramente falsa, escancaradamente falsa. Notícias tão falsas que não aguentam 30 segundos de olhar crítico ou 60 segundos de escrutínio do Google. Todo dia, insisto em chamar a atenção da pessoa distinta que espalhou aquela mentira e recebo a mesma resposta: o emoji de olhos virados (🙄).

Não há mais espanto, não há mais surpresa, não há mais pudor. Espalhar mentiras convenientes tornou-se socialmente aceito e eu que sou o inconveniente por estar expressando o óbvio. Não vou me sujeitar à humilhação de fazer o apelo a que todos façam o mínimo de esforço e procurem uma fonte confiável antes de divulgar boatos, porque é evidente que quem os espalha não se importa com a verdade e sim com a narrativa sendo construída

Estou exausto. Faço planos para o futuro mas, honestamente, se este é o futuro que me espera, não sinto nenhuma vontade de fazer parte dele.

É isso, desculpem o desabafo. Até a próxima. 


 

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