Saindo da zona de conforto com Katerina Kamprani

Uma das primeiras disciplinas da engenharia da computação com que tive contato foi o design de interação, um nome refinado e cosmopolita para um campo que estuda a forma com que as pessoas interagem com as interfaces de programas de computador. Hoje em dia, esta disciplina está praticamente morta em favor do design de experiência de usuário, que funciona melhor com equipes menores e com recursos mais limitados. Ainda assim, lembro de quando li pela primeiríssima vez o livro O Design das Coisas Cotidianas, do engenheiro norte-americano Donald Norman, que é a primeira leitura obrigatória da disciplina e tinha esta capa:

Norman usou para a capa de seu best-seller uma foto do Bule de Café para Masoquistas, obra do artista francês Jacques Carelman. A alça fica do mesmo lado que o bico do bule e, por isso, o objeto perde sua utilidade prática e passa existir somente como enfeite. Norman, portanto, utilizou-o como um exemplo de design que era bonito, mas inútil, e de como a mentalidade tradicional dos designers gerava programas de computador que eram visualmente impressionantes, mas irritavam seus usuários. 

Além de influenciar uma geração inteira de desenvolvedores de sistemas, Norman também inspirou a protagonista desta história, a arquiteta grega Katerina Kamprani, que tem uma exposição inteira de objetos como o Bule de Carelman, chamada Os Desconfortáveis. As fotos que ilustram este post fazem parte da coleção. 

O Garfo de Corrente talvez seja o expoente mais famoso da artista. O paradoxo aqui é bastante evidente: a corrente impede o garfo de perfurar objetos e enrolar macarrão.

Kamprani, no entanto, é apaixonada por talheres. Uma das minhas obras favoritas, justamente pela simplicidade, é O Faqueiro Espesso.

Outra de suas obras mais famosas é As Canecas de Noivado, que exigem muito mais que sintonia do casal para serem utilizadas.

Café, porém, não é a praia dela, que parece preferir o chá. Nesta chaleira reinventada para ser desconfortável, a dificuldade vem da forma e não da posição.

Por dentro, é ainda mais interessante: a saída do bico é perfurada e não vazada. 

O Guarda-Chuva de Concreto ainda é apenas um protótipo, mas é uma das mais profundas justamente pelo surrealismo: o formato suscita a lembrança de um guarda-chuva, mas, como diria o pintor francês René Magritte, ceci n'est pas un parapluie

O Regador Desconfortável até que dá um simpático vaso de plantas. Se alguém estiver interessado num projeto artístico para 2018, é um objeto simples de torcer montar e presentear.

Um dos designs mais complexos é o d'A Chave Desconfortável, que se vale do fato de que precisa ser girada para se tornar inútil. Mas ainda dá para fazer raspadinhas com ela, então não é tão inútil assim

Esta última obra, porém, está bem longe de ser A Taça de Vinho Desconfortável. A ideia dela é que o vinho ali derramado está pronto para ter seu odor apreciado, mas não seu sabor. Ainda assim, acredite, conheço muita gente que não teria problemas em encher a cara saborear vinhos com ela. 

A má notícia é que o talento de Katerina Kamprani infelizmente ainda está inédito aqui em terras tupiniquins, embora esteja à mostra em diversos museus da Europa. Apesar disso, acredito que não demore para a jovem arquiteta grega desembarcar por aqui, considerando que o Centro Cultural do Banco do Brasil já trouxe o austríaco Erwin Wurm e sua obra por dois meses, com direito a palestras semanais do artista, e foi uma das mostras mais concorridas da cidade.

Resta torcer. Até lá, um brinde!

Etiqueta: art relaxing web design 

 

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