Seres Humanos São Máquinas Sim, e das Mais Fáceis de Serem Hackeadas

A inspiração deste blog nasceu de uma conversa com alguns amigos, onde um deles argumentou que "engenharia social não é hack" (sic). Há muitos erros lógicos e éticos nessa afirmação e não é meu objetivo esmiuçá-los por aqui. Eu precisaria de um livro inteiro para isso. É sabido e repetido à exaustão que toda técnica é, por definição, uma construção social. A engenharia, que é um ramo específico da ciência que busca desenvolver técnicas (ou "utilidades", se preferir; não gosto da utilização desta palavra neste contexto, porém) para descobertas científicas de forma sistemática, é ainda mais social que a ciência em si, pois tem seu início, meio e fim numa preocupação inerentemente social. Uma citação do Dr. Robert Stadler, reitor do Departamento de Física do Instituto Nacional da Ciência na ficção distópica de "A Revolta de Atlas" ("Atlas Shrugged", publicada em 1957 pela escritora Ayn Rand), costuma me vir à mente:

Quando lidamos com ciência aplicada, com tecnologia - lidamos com pessoas.

Engenharia social, portanto, é a mais delicadamente técnica de todas as disciplinas de engenharia. É claro que a ideia de que os seres humanos, criados à imagem e semelhança do Criador, sentem dificuldades de se verem na situação de meros construtos. Os próprios psicólogos sentem muitas dificuldades em entenderem esta conclusão: menos porque a psicologia enxerga os espécimes humanos como indivíduos (pelo contrário, rotula-os como feras animalescas suavemente domadas) e mais porque a aceitação força-lhes a reflexão de que não passavam, também, de máquinas programáveis.

No fim das contas, o fato de não haver uma faculdade de engenharia social - o que provavelmente convenceria, de imediato, a maioria dos detratores - decorre mais da preocupação das demais disciplinas de engenharia em integrarem seres humanos a seus próprios sistemas. Não há um engenheiro civil formado que não tenha sido ensinado a lidar com canteiros de obras, ou um engenheiro mecânico ensinado a minimizar emissões de ruídos ou de calor. O que chamamos de "engenharia social", portanto, advém do uso inadvertido da tecnologia para fins maliciosos. Por exemplo, circulou poucos dias depois da conversa original - o assunto já havia morrido, mas está nos favoritos para um debate futuro - uma publicação no blog da companhia onde trabalho sobre justamente a tal da "engenharia social". Nas palavras do meu colega:

A Engenharia social é uma estratégia utilizada por criminosos virtuais para enganar usuários. Assim, através de ataques virtuais, os usuários são induzidos a praticar ações indevidas.

Os grifos são meus. Quando se fala de "engenharia social", os termos são sempre os mesmos: "estratégias", "indução", "enganar", "intimidar". Máquinas artificiais não estão sujeitas a estas táticas porque são incapazes de emoção. Talvez o nome mais adequado fosse "sociologia da computação pessoal", mas imagina o perigo de submeter os profissionais de humanidades ao ritual excruciante de fazer cálculos? Provavelmente o mundo moderno já teria descendido ao caos.

Não por acaso, é um engenheiro eletricista norte-americano, Donald Norman, que mergulha na mente humana - Norman também é doutor em psicologia - e, fazendo a ponte entre as duas áreas, reduz a cognição humana aos chamados "Sete Estágios de Ação". Nós, seres humanos, somos nada mais do que máquinas que desejam, percebem e avaliam serem mais do que apenas máquinas. O título de seu best-seller, portanto, vem naturalmente como "A Psicologia das Coisas Cotidianas" ("The Design of Everyday Things", 1988): um guia rápido de psicologia comportamental para engenheiros.

Brilhante autor, Don Norman evita a polêmica invertendo o dilema: são as coisas que estão sujeitas à psicologia, e não as pessoas que estão sujeitas à engenharia, embora o resultado seja o mesmo. A similaridade com o ciclo cognitivo usado pela psicologia comportamental facilitou a aceitação acadêmica da teoria.

Hoje, os engenheiros preferem termos como "engenharia da usabilidade" ou "design de experiência do usuário", mas a tônica do processo permanece a mesma: a sociedade é um dos elos frágeis dos sistemas modernos. Componentes apodrecem e colapsam: há uma engenharia dos materiais para cobri-los. Recursos tornam-se escassos e nocivos: há uma engenharia ambiental para atendê-los. Pessoas cometem erros e possuem limitações: há uma engenharia social para socorrê-las.

Quanto antes aprender isso, melhor: os tais "hackers" não só já aprenderam, como estão praticando em larga escala, no conforto dos escritórios das grandes corporações. Observe com cuidado a quantidade de serviços "gratuitos" que você usa: antivírus nenhum ajuda depois que você mesmo entregou suas senhas e dados pessoais.

Etiqueta: tools social engineering 

 

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