Crônicas de uma intervenção (parte 1)

Alguma coisa tem de ser feita

Sexta-feira, oito horas da manhã. O telefone de Ataíde toca:

- Bom dia, senhor. Gostaria de falar com o sr. Ataíde, por favor.

- É ele que está falando. Quem é?

- Ah, aqui é o dr. Jacinto, seu médico. Infelizmente, trago-lhe más notícias: seu estado de saúde encontra-se muito deteriorado e, por isso, o senhor terá de se submeter a uma quimioterapia. 

- Meu Deus! Eu estou com câncer?!

- Não sabemos ao certo, senhor. Mas a situação é grave e infelizmente não há tempo a perder. Alguma coisa tem de ser feita. Qualquer coisa é melhor do que ficar de braços cruzados.

- Mas o que meus exames dizem?

- Olha, senhor, eles dizem que sua saúde está comprometida, mas nada fora do comum. Está até melhorando, se comparada aos anos anteriores. Mas acabei de assistir uma reportagem muito preocupante na televisão, então precisamos fazer algo urgentemente. O senhor entende o que estou dizendo?

- Entendo, mas por que quimioterapia? Será que este é mesmo o tratamento mais adequado? Não existe o risco dela não somente não trazer a cura, como ainda espalhar o dano pelo resto do corpo? Tenho risco de ficar com sequelas? Como que a gente avalia se estou progredindo ou não? 

- Sr. Ataíde, não temos mais tempo de discutir se é a melhor solução ou não. Alguma coisa tem de ser feita. Quem defende esta discussão prolongada é quem está saudável e não sabe o que é estar com a saúde em risco.

- O que for preciso, dr. Jacinto. Será o senhor mesmo que prescreverá o tratamento?

- Não. Como a situação é da mais alta gravidade, traremos um cirurgião de fora para lhe acompanhar.

- Cirurgião?! Para a quimioterapia?

- Sim, sr. Ataíde. Veja bem, alguma coisa tem de ser feita. Já tentamos fazer quimioterapias com oncologistas antes e elas falharam. Agora vamos testar uma nova abordagem, desta vez com cirurgiões. Mas não se preocupe, dr. Geraldo é bastante experiente. 

- Inclusive com quimioterapia?

- Não, ele na verdade nunca trabalhou com quimioterapia. Mas não se preocupe, senhor, ele é um grande cirurgião e, no fim das contas, é tudo medicina

- Compreendo. Quando poderei conversar com o dr. Geraldo?

- Semana que vem, acredito. Ele não está familiarizado com seu caso e foi pego de surpresa com o nosso convite. Por isso, precisará de alguns dias enquanto se coloca em dia com sua situação.

- Olha, dr. Jacinto, desculpe-me a franqueza, mas não me sinto confortável com esta abordagem. Se o senhor não se importa, prefiro procurar uma segunda opinião. 

- Infelizmente, não há tempo para discussões. Alguma coisa tem de ser feita. Isto é uma intervenção.

(continua...)

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