Sobre idades e números

Meu aniversário está chegando e, com ele, o doloroso lembrete de que estou envelhecendo.

É claro que parece ingratidão da minha parte não reconhecer que até que consegui resultados bem acima da média para a minha idade. Ainda mais em se levando em conta que 75% da população brasileira nem sequer alcança o ensino superior. Mas isso só piora o prospecto.

Estou atrasado em relação aos colegas de ensino médio e da turma de calouros, que hoje estão formados e empregados. Eu sequer sei o que o futuro me reserva. Mas mesmo eles ainda não alcançaram os meios de sobrevivência da vida adulta.

Aos 30 anos, a maioria esmagadora deles mora com os pais, depende da pós-graduação e não encontrou um relacionamento estável. Eles podem até dizer que estão satisfeitos (nunca ouvi), ou que esta foi a escolha deles (incomum), mas não é verdade. Não tem como um adulto optar por morar com os pais no auge da juventude, a não ser que eles estejam doentes ou dependentes e precisem de sua ajuda. O que é infinitamente mais provável é que tenham permanecido na casa dos pais porque a especulação imobiliária jogou o preço dos imóveis nas alturas e não tenham que optar entre reduzir o padrão de vida e pagar o aluguel.

O problema é que esta escapatória não existe de verdade. Ao se recusarem a tomar esta decisão, estão também adiando uma etapa crucial do amadurecimento pessoal, que é fazer as próprias escolhas e lidar com as consequências. Talvez seja por isso que esta geração casa-se muito mais tarde. É difícil encontrar um parceiro para a vida toda debaixo dos olhares aguçados dos pais, enquanto se vive uma jornada dupla entre estudo e trabalho, sem a certeza do que o futuro próximo revelará. Em outras palavras, 30 anos é o novo 18.

A sensação de insegurança é massacrante. Ainda não estou formado e todas as oportunidades que recebo para escapar deste buraco exigem o diploma. Mas, ainda assim, a formatura não deve resolver o problema. Afinal, muitos dos que passam por esta crise estão formados.

Enquanto isso, as decisões que preciso tomar continuam a serem adiadas. Minha poltrona está rasgada, mas não posso trocá-la porque pode ser que não haja espaço no novo apartamento. Meu computador precisa de mais memória, mas talvez receba uma proposta para fora do país e não tenha como levá-lo. O gerente da corretora ligou para oferecer títulos prefixados para daqui a 5 anos, mas não sei se precisarei do dinheiro neste meio-tempo. São decisões que eu teria tomado facilmente há 5 anos se soubesse onde estaria agora.

Meu próximo aniversário provavelmente refletirá estas dúvidas, e é por isso que pretendo comemorá-lo como não o faço há muito tempo. Uma pena que o calendário da UFRJ e as responsabilidades da vida não permitam uma celebração estendida, mas alguns dias de carpe diem talvez sejam o que eu precise no momento. Ou talvez sejam um escapismo hedonista que trará apenas uma alegria temporária. Qualquer que seja o caso, estou disposto a pagar pra ver. Deixemos as dúvidas e os arrependimentos para depois.

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