With a professor, without a professor, despite the professor

O ditado diz que o ano só começa depois do Carnaval, mas a semana anterior é sempre intensiva no mundo das ideias. Talvez seja o ciclo natural das promessas de ano novo transformando-se em planos, não sei. O surpreendente é que, depois de "vai viajar?" e "tá pensando em ir a qual bloco?", a pergunta que mais observo por aqui é "o que você vai puxar este semestre?". As aulas da UFRJ retornam dia 12 de março, mas a inscrição em disciplinas começa logo na segunda-feira depois do Desfile das Campeãs.

Tem uma palavrinha que me surpreende toda vez que esta pergunta é feita ao meu redor: "aprender". Uma caloura resolveu me perguntar o que se aprende na disciplina em que fui monitor por quase dois anos e eu não sabia responder. Não me leve a mal: a disciplina tem uma boa ementa e as avaliações costumam ser rígidas. Os alunos, ainda assim, passam sem aprender. Aliás, talvez o único aprendizado fosse aprender a passar. Parece esquisito, mas é comum nas faculdades de engenharia a inserção de matérias com aplicação real discutível (seja ela teórica ou prática) sob o pretexto de "ajudar os alunos a resolverem problemas". Foi esta resposta que eu dei, aliás: "você aprende a resolver problemas".

Para meu próximo período, não prevejo aprender nada de novo, infelizmente. Numa das disciplinas, já fui avisado de que o professor exige respostas idênticas ao que foi escrito no quadro branco. Até o uso de sinônimos foi desaconselhado ("melhor não arriscar", disse um colega mais experiente). O conteúdo permanece o mesmo desde os anos 90, a despeito da evolução tecnológica que deveria pautar a ementa de uma faculdade de tecnologia (e de computação, ainda por cima). Não parece promissor.

Ontem, comentei com os colegas de trabalho (que estudam na mesma faculdade) sobre um dos meus professores favoritos da graduação. Eles não lembravam das aulas dele com o mesmo entusiasmo, porém. Reclamaram que tiveram de aprender o conteúdo todo por si mesmos. Aleguei que não era para ser diferente: o papel do professor universitário é cobrar e exigir, enquanto o aprendizado cabe ao aluno. A discordância foi unânime.

Lembrei, mas não mencionei, das palavras do meu falecido professor do segundo período: "o aprendizado é personalíssimo", dizia, para convencer que ninguém podia aprender por nós, ou nos obrigar a esquecer o que se aprendeu. Lembrei também das palavras que marcaram meu primeiro dia de aula, saídas da boca e dos dedos de ninguém menos que o todo-poderoso Diretor da Escola Politécnica:

A fonte é a monografia de um colega de turma. Parece que não fui o único impressionado.

A verdade é que já discordei de todas estas palavras, e hoje estão injetadas no meu subconsciente. Quando foi que criei essa relação tão pragmática com o ensino superior? Quando foi que passei a ver as disciplinas como obstáculos e não caminhos para alcançar o objetivo? Tenho certeza que foi depois de 2014, porque lembro de ter ralado tanto para conseguir meu A+ em Interações Humano-Computador e meu foco em aprender era tão determinado que cheguei a estudar ActionScript (componente do Adobe Flash que, graças ao bom GabeN, hoje já está quase morto) só pelo "conhecimento".

Pausa estratégica para ostentar meu prêmio

Acredito que tenho autocrítica suficiente para ver que há algo de errado comigo, uma vez que os alunos ao meu redor estão fazendo planos para "aprender" e não para "passar". Não são todos, logicamente, e a parcela de que faço parte está claramente numerosa e em crescimento. Talvez haja algo de errado com o curso, ou com a faculdade, ou com a universidade, ou com o País. Ou talvez não haja nada de errado e o problema seja só meu. Não sei. Mas preciso descobrir com urgência.

Estou perdido. Se você passou pela mesma situação e tiver interesse em conversar a respeito, eu realmente gostaria de ouvir sua opinião. Mesmo que seja anônima (tem uma caixa de comentários logo abaixo que não checa a identificação).

Até lá, o show tem que continuar. Segue o baile.

Tags: ufrj 

 

Comments

Priscila  3 years, 9 months ago Reply

Não sei se é generalizado, mas na minha faculdade o esforço era pra passar e eu ficava agoniada quando o incentivo para este comportamento vinha dos professores, quando eu, que não tinha a chance de fazer cursos por fora, queria mesmo era aprender (depende da matéria, claro, tinham aquelas que eu tmb só queria passar). Mas este tipo de atitude vir dos professores era demais pra mim, até quando eu só queria passar, afinal, eu não estar com vontade de absorver conteúdo é uma coisa, a fonte não estar afim de dar conteúdo além "do necessário para passar" é outra. Inclusive falei da minha indignação com o próprio ex-coordenador do curso, na aula que ele ministrava, mas neste caso eu estava falando dos outros professores, ele era uma das poucas pérolas do corpo docente que queria dar conteúdo além do mínimo necessário para os alunos.

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Ramon Melo  3 years, 9 months ago Reply

Poxa, é triste saber que é generalizado. Queria ser a exceção mas acho que sou a regra mesmo...

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