Why soccer is not really popular in Rio (part II)

Na publicação de ontem, expressei minha surpresa ao voltar a frequentar o Maracanã e descobrir que a maioria esmagadora dos cariocas não tem interesse em comparecer. Hoje, desejo comentar sobre os motivos pelos quais isto pode estar acontecendo. 

Toda discussão sobre o assunto começa pela premissa de que o custo do ingresso é proibitivo. Apesar disso, comecei a frequentar o estádio justamente por ser uma diversão bem mais barata do que as visitas semanais ao Outback. Fui procurar, portanto, quanto o carioca (ou melhor, o brasileiro, por falta de informação mais detalhada) gasta com lazer ou gastos supérfluos fora de casa. Para evitar comparações desleais, excluí gastos com bebidas alcoolicas e presentes de datas comemorativas (Dia das Crianças, por exemplo) das pesquisas. 

Um estudo do SPC Brasil de abril de 2015 calcula o gasto médio do brasileiro com "produtos de luxo" em R$18 mil ao ano:

Segundo os dados, em média 35% da renda mensal dos consumidores é utilizada para serviços ou produtos que consideram de luxo. Em um ano, isso totaliza cerca de R$ 18 mil em gastos por ano – o percentual aumenta expressivamente entre a classe C (44% da renda mensal, 12 mil de gastos por ano) se comparada com as classes A e B (19% da renda mensal e 40 mil de gastos por ano; e 36% da renda mensal e 29 mil de gastos por ano, respectivamente). Foi identificado que 68% dos consumidores desse mercado pertencem à classe C.

Indo mais a fundo nos dados, 24% dos consumidores entrevistados alegaram que "a compra de produtos de luxo virou um vício" (slide 41). Uma curiosidade: Outback foi a primeira marca citada como de "luxo" por 0,2% dos entrevistados (slide 27), uma taxa que já é maior do que o percentual de cariocas que frequentam o Maracanã. 

O mesmo SPC Brasil também alegou, em fevereiro de 2015, que o lazer é a principal despesa do consumidor brasileiro:

Em média, o brasileiro que direciona suas despesas ao lazer gasta R$ 389 por mês com atividades de entretenimento (cinema, boates, bares e outras), R$ 223 com produtos (roupas, calçados, acessórios e outros) e R$ 137 em serviços (telefonia móvel, tevê a cabo, plano de saúde e outros). O estudo foi realizado junto a 620 pessoas maiores de 18 anos, de todas as 27 capitais brasileiras.
O estudo também elencou o ranking de gastos mensais da cesta do consumidor brasileiro com atividades de lazer. Em primeiro lugar aparecem as viagens de fim de semana (R$ 425). Já em segundo lugar surgem as saídas para boates (R$ 320), seguidas pelas idas a restaurantes sofisticados (R$ 301) e pelas idas aos restaurantes do dia a dia (R$ 247). Em seguida se destacam as saídas para bares (R$ 174).

Uma análise da metodologia usada revela que o estádio não foi sequer considerado como um destino de lazer:

Mais recentemente, em junho de 2016, a prefeitura do município do Rio de Janeiro encomendou uma pesquisa do Perfil Cultural dos Cariocas. O jornalista André Miranda reporta:

O resultado do cinema ainda é de longe o melhor entre as atividades culturais no Rio. Na sequência dos 67% que declararam ter assistido a pelo menos um filme fora de casa no período de um ano, aparecem shows (52%), festas populares (50%), bibliotecas (35%), teatros (31%), museus (31%), espetáculos de dança ou balé (21%), circo (15%), saraus literários (12%) e concertos de música clássica (9%). Em 9 das 10 atividades pesquisadas, a maior frequência é entre os moradores da Zona Sul — apenas no circo o percentual é maior entre moradores da Zona Oeste.
A JLeiva realizou a mesma pesquisa em São Paulo, Salvador e Belo Horizonte, poucos meses antes, com um resultado que mostra maior frequência do carioca em comparação às outras cidades em cinemas (67% Rio, 61% São Paulo, 59% Salvador e 54% Belo Horizonte), shows (52%, 45%, 51% e 43%), teatros (31%, 30%, 28% e 26%) e museus (31%, 29%, 20% e 20%).

Em resumo, a realidade é que, ao dizer que o custo dos ingressos é alto demais, o torcedor está apenas afirmando que ele tem outras prioridades em termos de entretenimento. De fato, dados da BDO Brazil dos anos de 2004-2013 mostram que o aumento dos preço médio dos ingressos tem correlação muito pequena com a evolução da média do público pagante:

Mas a correlação do preço médio do ingresso com a arrecadação é inegável:

fonte das imagens e das legendas: Olhar Crônico Esportivo

É claro que isto não impede os times de continuar usando quedas de preços esporádicas como forma de motivar a torcida a aparecer em jogos importantes. Em 2014, o Flamengo conseguiu aumentar em 50% o público pagante de alguns jogos ao reduzir o custo médio de R$40 para R$28. Na reta final da campanha bem-sucedida de retorno à Série A, o Vasco reduziu o custo do ingresso mais barato para R$15 para contar com o apoio da torcida. Para o próximo domingo, o Fluminense já derrubou o custo de todos os ingressos para R$20 (R$10 a meia) na tentativa de recuperar o apoio da torcida. 

Mas não se deixe enganar: é uma estratégia insustentável a longo prazo. A menos que 40 mil tricolores pagantes compareçam no domingo, o clube terminará o jogo com prejuízo financeiro. A diretoria enxerga a redução apenas como uma tática de marketing, na expectativa de que lucros maiores (ou perdas menores) apareçam quando os preços voltarem ao normal. 

Agora que o principal bode expiatório da discussão foi inocentado, podemos voltar nossas atenções para outros culpados, especificamente o transporte público, a violência, os horários e a discriminação contra minorias. Até a próxima!


 

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