Unfortunately millenials suck

Tentei fingir que não vi, mas, como a única coisa que acontece nesta cidade é chover e faltar luz, a Feira do Podrão - evento gastronômico do Rio de Janeiro - foi adiada para o próximo final de semana por causa do mau tempo. O local permanece o mesmo, a alguns metros de onde escrevo estas linhas, o que dificulta a manufatura de desculpas aceitáveis para recusar o convite a gastar dinheiro e interagir com humanos. Ainda não sei se vou, porque marquei boate na madrugada anterior (já comprei meu ingresso) e provavelmente estarei desejoso da minha cama. 

O blog de hoje não é sobre isso, porém. A chamada da notícia foi bem-sucedida em atiçar minha curiosidade por conta de um detalhezinho: a atração ficará por conta das "comidas de rua não-gourmetizadas". Não precisa acreditar em mim, tenho prints para provar. 

O subtítulo não era clickbait (sensacionalista para obter cliques e lucrar com propaganda). O texto propriamente dito confirma o caráter escabroso logo no primeiro parágrafo:

Quem nunca saiu de uma balada, de uma noite estendida de trabalho ou de um jantarzinho na casa daquela amiga de dieta com uma fome de leão? Aqueles que nunca se socorreram numa barraquinha de comida de rua na madrugada ou que querem afirmar o valor de um verdadeiro "podrão", terão no fim de semana a sua chance. 

A esta altura do campeonato, já deve ter ficado claro para quem é de fora do Rio de Janeiro que "podrão" é um termo comum e popular entre uma geração bastante específica: os millenials. Num estado onde até o funk da Valesca Popozuda vira dissertação de mestrado, é até espantoso que nenhum acadêmico tenha se metido ainda a estudar o caráter sociológico do termo (sim, eu procurei). Afinal de contas, "podrão" é mais do que uma expressão, é um verdadeiro contrato implícito assinado entre consumidores e vendedores: fast food barato em troca de leniência da vigilância sanitária. Se tiver uma intoxicação alimentar, não dá nem para reclamar, afinal "podrão" não é exatamente um atestado de higiene. 

Apesar disso, não tenho a menor dúvida (aliás, torço) de que o evento será um sucesso estrondoso. Não porque "podrões" sejam particularmente desejáveis - não são, repare que a jornalista considera-os um "socorro" -, mas porque fazem o contraponto a um inimigo ainda mais deplorável. Nas palavras da repórter,

Segundo os organizadores, a feira é o primeiro evento a reunir comerciantes de "comida de rua não-gourmetizada". Ou seja, os famosos "podrões" – sanduíches, salgados e outros quitutes em quantidades generosas – que não têm grife, mas que com simplicidade e capricho, enchem não só os olhos, mas, principalmente, estômagos vazios noite adentro. E a preços bem em conta.

A ideia da feira surgiu do apetite das amigas Natália Alves e Suzanne Malta, da Digital Influência, de buscar uma alternativa aos caros food trucks.

A existência do "podrão" é validada porque a alternativa são os "food trucks" (essencialmente a mesma coisa, só que em porções menores e mais exorbitantes). Na revolução do proletariado millenial, "food trucks" representam o establishment a ser destronado e os "podrões", a contracultura de resistência ao capitalismo selvagem e acachapante que extorque uma geração de jovens empobrecidos, confusos, incertos em relação ao futuro e ainda morando com os pais. Na ausência do Pravda, sobra para o portal G1 fazer o malabarismo retórico para impulsionar o evento, convenientemente omitindo que 30% dos comerciantes virão da região mais gentrificada da cidade na hora de analisar a origem dos vendedores. É uma pena que, apesar de toda a propaganda (aparentemente) gratuita, os comentaristas da notícia não tenham se comovido com o apelo culinário, preferindo responder com impropérios infelizmente impublicáveis neste humilde espaço. A novilíngua, afinal, leva certo tempo para se espalhar pelas dimensões territoriais desta grande Nação. Não são todos os brasileiros dispostos a celebrar o "podrão" como herói da luta contra a gourmetização

Entretanto - e aposto que não esperava por isto! -, preparei para este texto a conclusão mais hipócrita da história deste blog: se você não tiver nada melhor a fazer do que comer lanches gordurosos debaixo do calor escaldante do verão carioca (o outono começa só dia 21) neste final de semana, apareça por lá. O local é de fácil acesso e parcialmente coberto. Na pior das hipóteses, há um hospital rua abaixo, a apenas um quarteirão de distância. Se existe um lugar seguro para se experimentar um "podrão", com certeza é lá. A propósito, por "seguro" quero dizer apenas que seu trato gastrointestinal estará protegido. A região é perigosa e recomendo levar o celular do bandido para andar por ali. 

Bom apetite!

OBS: o título é uma referência a este perfil de rede social

 

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