Unfortunately millenials suck (episode II)

Acabei de descobrir um "teste de privilégios" na internet. Já havia ouvido falar nele, mas achei que fosse piada. Entretanto, foi concebido como um teste sério. Há vídeos com diversos participantes alegando terem sido "iluminados". A cada "privilégio", a pessoa participando do teste deveria dar um passo à frente. A ideia é que os participantes possam enxergar o quanto são privilegiados por terem tido uma determinada formação quando comparados aos demais.

Uma das questões é "quantos livros havia na casa onde você cresceu?". Dei um passo à frente a contragosto, e o desgosto dá-me náuseas. Meus pais não foram seres humanos eruditos. Meu nascimento não fora planejado. Meus pais sequer moravam juntos e, logicamente, meus pais discutiram a possibilidade de abortarem a gravidez. Minha mãe, descendente de uma família de escravos, já era divorciada, tinha uma filha e trabalhava em dois hospitais distintos. Meu pai, vindo de uma família de imigrantes italianos fugindo da guerra, vendia limões no sinal enquanto criança e, por isso, só aprendeu a ler aos 16 anos, graças ao programa MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Os livros que eles liam eram os dos cursos técnicos que tiveram de fazer para escapar da miséria. Terminaram por decidirem continuar a gravidez que terminou por gerar o indivíduo que veio a se tornar o autor deste blog.

Eventualmente, tiveram de se comprometer com a família e às escolhas morais necessárias à construção de uma família. Num programa de TV, meus pais assistiram que ter livros à disposição incentivava crianças a se tornarem educadas, criticas e inteligentes. Meus pais, pobres coitados, eram tão ignorantes que precisaram de um programa de TV para descobrirem isso. Comos os dois trabalhavam no Hospital Municipal Souza Aguiar - foi onde se conheceram -, construído numa região de grande valor histórico e cultural para o País e onde os maiores sebos da cidade se concentram, decidiram num belo dia que deveriam adquirir livros para educar o bebê que um dia viria a se tornar eu.

Quais livros? Eles não sabiam bem. Afinal, mal sabiam ler. Meu pai desistiu da escola dominical por não conseguir ler o Gênesis. O vendedor recomendou uma coleção variada de autores clássicos da língua portuguesa e best-sellers traduzidos da língua inglesa, mas os avisou de que adquirir os livros não seria suficiente. "É preciso ensinar pelo exemplo", disse, "e ler os livros na frente dele". Enquanto Fernando Collor de Mello confiscava suas economias de uma vida inteira, meus pais lutavam contra o analfabetismo funcional para ensinar um bebê a ler. Hoje em dia, quando a geração dos pais millennials está mais preocupada com a própria vida noturna e sexual do que com o desenvolvimento intelectual dos próprios fihos, a sugestão desta hipótese soa absurda, reconheço, enquanto seco as lágrimas nos olhos.

Havia, de fato, literalmente centenas de livros empilhados em estantes da sala de jantar da casa onde eu cresci, na Praça Seca, zona oeste do Rio de Janeiro. A maioria esmagadora deles foi jogada fora ou doada sem ser lida. Tentei, mas não consegui, ler O Crime do Padre Amaro aos 12 anos, mas o descritivismo realista de Eça de Queiroz estava além do meu alcance. Até hoje não sei qual foi o crime em questão. Cheguei a perguntar aos meus pais, mas eles também não o haviam lido. O Assassinato no Campo de Golfe, de Agatha Christie, foi um crime mais palatável, pelo menos para mim, o que foi um alívio.

Meu irmão não teve a mesma sorte: detestava a literatura como gato escaldado a água fria. Não havia exemplos o suficiente que lhe pudessem ensinar. Aos 15 anos, meu irmão ainda errava meu nome e considerava Harry Potter uma leitura rebuscada demais para o próprio gosto. Sua redenção veio na idade adulta: hoje, competimos em número de livros lidos e, em 2017, levei uma surra. Bacharel em Física e católico, desliza de Galileu Galilei a São Tomás de Aquino com a delicadeza argumentativa de uma pluma.

O jovem nos meus braços está formado em Física pela UFF, versado em filosofia pré-iluminista e aceitando propostas de emprego. O que estão esperando, empreendedores do Brasil?

Comentei com ele sobre o "teste de privilégios" e rimos com gosto. Ele me contou sobre os dias que passava fingindo que estava lendo na vã expectativa de que nossos pais lhe deixariam jogar bola na rua ou assistir TV. Um dia, percebeu que resistir era contraproducente: se quisesse assistir Pedro Bial, teria de encarar Pedro Bandeira antes. E que, olha só, não precisava escolher entre os dois, pois, uma vez livre do mimimi, havia tempo suficiente para ambos.

É dele, aliás, que parte o título e a conclusão deste texto: "nesse teste aí não tem o privilégio de aprender o que são limites, não?".


 

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