To the 17-years-old girl

Daqui a exatamente uma semana, uma de minhas melhores amigas fará o tão aguardado aniversário de 18 anos. O texto de hoje é dedicado a ela.

Todo mundo sabe que o aniversário de 18 primaveras traz consigo sua própria cartela de direitos e deveres civis. Mas hoje vou falar de um outro tipo de cidadão: o de 17 anos, 11 meses e 24 dias.

À menina de 17 anos

Estás diante de um cenário em que és, ao mesmo tempo, superprotetogida e desprezada. Se decides que deve te dedicar aos estudos, precisas saber que o ensino superior está fora do teu alcance. Escolas estaduais (mas não particulares) hão de te conceder matrícula, onde, assim se espera, terás acesso ao conhecimento geral do funcionamento da sociedade brasileira, ao ensino profissionalizante e à educação sexual. Mas as universidades estarão de portas fechadas para ti.

Mesmo que sejas aprovada no vestibular, jovem, chegarás à matrícula apenas para ser informada de que tua experiência de vida te permitiu concluir o ensino médio, inscrever-te numa prova concorrida, obter a aprovação contra milhares de outros estudantes, mas não assumir a vaga que conseguiste a unhas e dentes. És adulta o suficiente para derrotar os obstáculos, todos concordamos, mas adolescente demais para cruzar a linha de chegada.

A universidade privada não é diferente. Ela está disposta a aceitar adolescentes como alunos de cursos de curta duração (como os de inglês), mas irá te recusar quando solicitares matrícula no ensino superior. Na democracia capitalista brasileira, a caneta deles é mais forte que teu dinheiro: mesmo que pagues à vista, a instituição exigirá a anuência de um responsável. Porque é isto que tu não és, moça: responsável por ti mesma.

Se estudar não é uma opção, trabalhar também não é. A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, diz o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas não a Consolidação das Leis Trabalhistas. Garota, saiba que estás autorizada a trabalhar, mas só em meio período, e só enquanto estiveres matriculada no ensino básico. O objetivo é proteger-te da evasão escolar, aquela que já te diplomou. Resta-te somente o desemprego, ou a clandestinidade.

De certa forma, é até melhor assim, eu diria. De que adianta ganhares dinheiro, menina, se nenhuma instituição bancária há de te conceder uma conta corrente? É até melhor que evites a fadiga!

Aliás, não deverias nem estar ganhando dinheiro, dizem as leis e os bancos de todo o país. Em vez disso, adolescente ingrata, deverias gastar dinheiro - aquele adquirido por papai e mamãe, já que não podes trabalhar - com charmosos cartões de crédito. Temos uma linha especial de produtos para começares tua vida de inadimplência com o pé direito.

Enquanto descansas de tua principal atividade produtiva - sonhar com o futuro que só será desbloqueado quando completares 18 anos -, tens à disposição ao menos algumas opções de entretenimento. Sexo, por exemplo. Incapaz de julgar se estás apta a abrir uma conta poupança? Sim, mas perfeitamente apta a consentir sexo com adultos muito mais experientes. Neste ponto, a legislação brasileira é progressista: pega este bilhete e vá ser feliz!

Mas toma cuidado, mocinha! Podes rodar teu carretel por todas as freguesias deste Brasil varonil, mas não estás pronta para assumir o compromisso de ser mãe pelo resto da vida. Ou de assumir o compromisso de não ser mãe pelo resto da vida. Se fores tomar decisões para toda a vida, escolha trocar de sexo, esta sim uma decisão apropriada para tua idade. 

Sei que te verei em uma semana, mas morro de saudades de ti. Pois que te conheci menina, quando falavas como menina, sentias como menina, pensavas como menina; mas, logo que chegares a ser mulher, acabarás com as coisas de menina: deixar-te que decidam o próprio futuro. 

Tags: brazil newspeak sarah 

 

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