The Mechanism that received far more attention than it should have

O seriado O Mecanismo, produção exclusiva do Netflix com direção de José Padilha (de Tropa de Elite e Narcos), conquistou os holofotes e as manchetes desta semana por todo o País. Para ser sincero, não estava muito animado com este lançamento, não. O trabalho de Padilha nunca me impressionou: foram os roteiros, do qual ele se orgulha de não ter participado, que fizeram de Tropa de Elite e Narcos o sucesso que foram. A Operação Lava-Jato, porém, não tem o mesmo impacto. Por maior que seja a sua proporção, suas características são muito mais burocráticas ou pitorescas do que propriamente interessantes, o que dificulta a produção de um bom roteiro. Mas a repercussão chamou-me a atenção. O Netflix tem somente a agradecer ao necrogovernismo (agora necro-oposicionismo) pela publicidade gratuita. 

A polêmica

Não sei exatamente qual foi a fonte inicial. Mas é inegável que a polêmica ganhou tração com as críticas da ex-presidente Dilma Roussef, que acusa o diretor de promover "fake news como parte de uma narrativa pró-Golpe":

O termo "fake news" não costuma ser usado de forma tão liberal a ponto de ser usado para uma obra de ficção, de forma que chamou minha atenção. Leia a versão dela, se quiser. Não vou comentar ponto a ponto porque esta não é uma crítica política. Vou apenas declarar que o escândalo do Banestado não ocorreu em 1996, como a ex-presidente alega, mas sim em 2003, como representado no seriado. Os envolvidos faziam parte do governo FHC, logicamente, mas também faziam parte do governo petista que se seguiu, porque a especialidade desta gente é fazer parte do governo sempre. De resto, tratarei o seriado como o que ele é: uma obra de ficção. Afinal, uma meia realidade ainda é ficção, assim como uma meia verdade ainda é uma mentira

A propaganda

Para alardear o seriado, o Netflix alugou duas Lojas da Corrupção nos aeroportos de Congonhas (SP) e Brasília (DF). O vídeo publicitário ficou excelente:

Provavelmente porque, ao contrário dos roteiristas, a equipe publicitária do Netflix foi autorizada a empregar humor. Não fui conferir porque não veio à minha cidade, e provavelmente não iria mesmo que tivesse vindo, mas reconheço que foi uma boa campanha. 

O seriado

OBS: a partir deste trecho, o texto contém revelações sobre o enredo (spoilers). 

Vou começar pela parte fácil, que são os elogios. A equipe técnica escalada para o seriado é simplesmente fantástica, portadora de um talento fora do comum até mesmo para produções norte-americanas. Todo o vídeo está sob o efeito de um lindo filtro de sépia que dá um efeito cinematográfico bastante aprazível enquanto mantém a altíssima resolução da gravação. Se você não tem Netflix, recomendo buscar na Baía dos Piratas assinar o pacote HD, porque vale a pena. Mesmo cenas cotidianas que deveriam ser prosaicas, como a cena de um bueiro vazando, tornam-se impressionantes debaixo da fotografia do seriado.

Cores, em particular, são um desafio no meio de personagens que estão constantemente de terno, gravata e calça social. Dar personalidade ao visual de um personagem nestas condições é particularmente difícil e, neste ponto, as equipes de maquiagem e figurino acertam em cheio. Uma personagem que realmente me chamou a atenção foi uma das protagonistas, Verena Cardoni (representada por Caroline Abras), que tem a difícil missão de não apenas liderar a Seção de Crimes Financeiros da Polícia Federal, mas também proteger seu papel como majoritariamente feminino num ambiente tido como predominantemente machista. 

Mesmo com o blazer de couro sobre a blusa discreta, a personagem permanece indiscutivelmente feminina por conta dos cabelos escovados, do batom suave e das sobrancelhas desenhadas.

O mesmo não pode ser dito, infelizmente, da direção de elenco. Os atores não parecem enturmados. Aliás, este seriado sequer parece ter sido filmado em Curitiba, como promete o próprio Netflix. Eu já estive na cidade durante uma gloriosa semana para o congresso da Sociedade Brasileira de Computação em 2012, e a escolha insistente da Ópera de Arame como símbolo da cidade é preguiçosa e injusta com as belezas da cidade. Os personagens falam sem sotaque sulista e o tempo nunca está chuvoso. Estes detalhes são os que mais me incomodam porque são justamente função primordial do diretor principal, o tão famoso José Padilha. O baiano Wagner Moura tinha sotaque carioca em Tropa de Elite, então por que o mineiro Selton Mello não tem sotaque paranaense em O Mecanismo?

A Ópera de Arame fica em meio ao Jardim Botânico de Curitiba, que é absolutamente lindo (e gelado) durante o inverno.

Aliás, falando em Selton Mello, é aqui que vai minha principal crítica a toda a produção: a atuação de Selton Mello é intragável. Para começo de conversa, que voz rouca é essa? Insuportável e artificial, é até preocupante (sob o ponto de vista da saúde do ator) que ele tenha mantido esta atuação até o fim. O personagem é mal construído, sem sombra de dúvidas, mas havia, ainda assim, oportunidades para o fazer agradável: um homem em busca de justiça, enquanto luta para manter o casamento com uma mulher infeliz e uma filha portadora de necessidades especiais, deveria ser familiar a qualquer espectador. Todavia, Selton Mello transforma o personagem em nada mais do que um demente, um pária social que é evitado até mesmo por familiares e amigos. O personagem principal, Marco Ruffo, possui o espectro emocional menor que o de um cachorro, que pode, ao menos, abanar o rabo quando está excitado, facilidade que não lhe é facultada. Ele está sempre irritado, com ódio ou entediado, numa atuação análoga à de Kristen Stewart (a Bella Swan de Crepúsculo), que ficou famosa por se tornar uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood sem ter que expressar emoções distintas em suas atuações. 

O seriado torna-se mais palatável quando Ruffo dá um tiro na própria cabeça e Verena Cardoni assume a narração. Abras é uma boa atriz e segura o rojão com robustez: sua personagem é forte, independente e confiante, mas sem deixar de ser vulnerável. A atuação de Abras consegue algo que Selton Mello fracassa em obter: empatia. É razoavelmente fácil entender e se colocar no lugar da protagonista quando ela sofre pelo relacionamento com o promotor Claudio Amadeu (Lee Taylor) ou quando ela sofre cólicas. Verena Cardoni, enquanto personagem, atinge o êxito em parecer humanamente verossímil.

Os demais personagens são completamente esquecíveis, desinteressantes ou medíocres. De todos eles, o único que se salva é o doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Díaz), que se sai bem no papel de vilão, mas só porque não lhe é exigido nada mais do que meia dúzia de atuações sarcásticas e condescendentes. Coloque qualquer um que assistiu ao seriado para responder o nome das esposas de Ibrahim ou Ruffo e observe o fracasso: as personagens estão simplesmente desconexas do elenco e da trama. O que me leva ao último ponto desta resenha: o roteiro.

A maior crítica do Partido dos Trabalhadores é compartilhada por mim, ainda que por motivos distintos. O roteiro de O Mecanismo é seu calcanhar de aquiles e também o que o previne de ser um panfleto partidário. O roteiro do seriado é tão ruim que é difícil acreditar que foi baseado em fatos reais. Os nomes dos personagens são risíveis, na melhor das hipóteses, com nomes que muito se assemelham e remetem aos indivíduos em quem deveriam se basear. Por exemplo, a ideia de manter um nome eslavo para a presidente que, na vida real, é de origem búlgara é uma piada que perde a graça em questão de minutos. Uma das frases do ex-presidente é "essa casa cheia de livros parece de coxinha".

O que realmente me impressionou, especialmente diante dos comentários da mídia petista, é que o seriado é mais ofensivo à Polícia Federal que ao governo da época. Os policiais federais são descritos como incompetentes, imaturos, inexperientes, impacientes, e seriamente propensos a abusos de autoridade. O protagonista deliberadamente ameaça um médico com uma pistola para conseguir um laudo médico que lhe conceda o benefício do INSS. Aliás, o mesmo roteiro aponta que a raiz da Operação Lava-Jato está numa pendenga adolescente entre o protagonista e o doleiro, que se conheciam desde o ensino médio e levaram a contenda às manchetes de todo o país. 

A maioria esmagadora dos personagens é fácil de esquecer. Há imensa confusão em termos de datas e locais que deixa a dúvida se foram propositais ou não. Eu, honestamente, teria vergonha de assinar este roteiro.

Para completar, o seriado encerra sem uma finalização digna, o que indica que haverá uma próxima temporada que eu, pelo menos, não terei paciência de assistir. Se eu pudesse, pediria de volta as 6 horas e a garrafa de vinho desperdiçadas no assistir deste seriado, mas, infelizmente, não posso exigir nada do Netflix porque pirateei tudo adquiri o seriado por meios alternativos. Só o que me resta é lhe alertar de que não vale a pena. Gaste seu tempo com coisa melhor. 


 

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