The astrology of the Knights of the Zodiac (part IV)

Os signos dos Cavaleiros do Zodíaco

Parte 1: Mu de Áries, Aldebaran de Touro e Saga de Gêmeos
Parte 2: Máscara da Morte de CâncerAiolia de LeãoShaka de Virgem
Parte 3: Dohko de LibraMilo de Escorpião e Aiolos de Sagitário
Parte 4: Shura de CapricórnioCamus de AquárioAfrodite de Peixes (abaixo)
OBS: o texto abaixo contém spoilers. Se você não assistiu aos Cavaleiros do Zodíaco ainda, o que está esperando?

Continuando a aventura: quais Cavaleiros de Ouro equivalem ao estereótipo do próprio signo?

Vou seguir a ordem das casas do Zodíaco no arco original. Também vou desconsiderar os traços de personalidade exibidos fora do arco principal, mesmo que os demais sejam considerados canônicos. Vamos a elas.

Shura de Capricórnio

Para ser sincero, Shura de Capricórnio é um personagem que sempre me despertou o maior ranço. A voz de charlatão (buffoon) com sotaque paulistano destoa demais da personalidade de Shura, que deveria fazer o tipo calado, determinado e obediente. Além disso, para alguém que vivia dizendo que odeia "homens fracos que falam mais do que deveriam", Shura falava demais e parecia um disco arranhado.

Ainda assim, a participação de Shura na Saga de Santuário não é completamente inútil, como foi a de Aiolos de Sagitário, uma vez que ele revela detalhes à turma de Seiya que eram até então desconhecidos até mesmo aos espectadores. Por exemplo, é na Casa de Capricórnio que descobrimos que Shura foi o carrasco de Aiolos, treze anos antes da Batalha das Doze Casas. Como se não bastasse a decepção, descobrimos também que Shura é o estereótipo do idiota útil, determinado em obedecer cegamente qualquer ordem que lhe é dada sem dar nenhuma atenção à razão ou ao próprio instinto.

Por exemplo, Shura não estava na Grécia quando Saga de Gêmeos assassinou o Grande Mestre, usurpou seu trono, tentou matar o bebê Atena e excomungou Aiolos. Para piorar, Shura também admitiu ser o melhor amigo de Aiolos. Ainda assim, qual foi sua primeira ação ao retornar ao Santuário, senão caçar seu companheiro mais fiel e lhe assassinar covardemente? A tão aclamada lealdade de Shura é apenas uma máscara conveniente para sua traição. Assim como Aiolia de Leão, Shura não hesitou em lutar contra um adversário em desvantagem - já que Aiolos de Sagitário estava sem sua Armadura -, mas abandonou a missão prontamente na hora de executar o bebê Atena. O pretexto do "cosmo de Atena" protegendo sua hospedeira humana é um artifício falho em si mesmo: como que Shura ignora que um cosmo forte o suficiente para lhe impedir de cumprir sua missão até o fim possa pertencer realmente ao da Deusa a quem jurou fidelidade eterna? Mesmo se Shura precisasse adivinhar que estava sendo usado como ferramenta dos inimigos do Santuário (não precisa, porque a função do cosmo é justamente esta!), um pouco de racionalidade teria impedido os ataques à vida de Saori, uma vez que o Cavaleiro de Ouro mais respeitado de toda a Grécia, e também seu melhor amigo, estava ali, na sua frente, disposto não só a lhe explicar o que fosse necessário mas também dar a própria vida pela causa. 

Com isto, deixo claro que Shura derrotou Aiolos somente pelas condições desleais da batalha. Mesmo lutando contra adversários claramente extenuados por estarem lutando contra o tempo e só agora terem chegado à décima Casa do Zodíaco, Shura não foi sequer capaz de impedir o avanço dos Cavaleiros de Bronze. Shiryu é o único retido na Casa de Capricórnio, e basicamente porque alguém tinha que ficar ali para providenciar uma luta aos espectadores. Fico feliz que tenha sido Shiryu, porque era o guerreiro mais descartável a esta altura da Saga. Não digo isto como um demérito, muito pelo contrário. Shiryu já provou seu valor e sua determinação em se sacrificar pelos próprios aliados e ideais repetidamente, particularmente na batalha contra Máscara da Morte de Câncer. Por outro lado, Seiya, como o grande líder do grupo, precisa ser o salvador de Saori no topo do Santuário; Hyoga, apesar da valentia demonstrada contra Milo de Escorpião, ainda não despertou o sétimo sentido, e tem pendências a serem resolvidas com Camus de Aquário; e Shun, cujo papel no Santuário até o momento tem sido somente o de donzela em perigo, tem muito a provar aos espectadores. 

Shura em batalha é um falastrão insuportável. Sua técnica secreta é a Espada Excalibur, um golpe desferido com sua mão direita que fatia através do terreno, de estruturas e de seres vivos como faca quente através da manteiga. Shura é tão prepotente que julga que sua força é capaz de "transformar o mal em justiça", uma posição deveras conveniente de se ter enquanto luta contra um Cavaleiro de Bronze enfraquecido por ter enfrentado literalmente uma dezena de Cavaleiros de Ouro em sequência. O Cavaleiro de Capricórnio, inclusive, reedita as condições da batalha contra Aiolos e despedaça a Armadura de Dragão que protegia Shiryu. O que Shura não contava, porém, é com a fibra moral inflexível de Shiryu, como eu havia dissecado na análise de Máscara da Morte, que não hesita em dar a própria vida pela sobrevivência de seus companheiros e de Saori e usa o próprio coração (o órgão mesmo) como isca para imobilizá-lo, quebrar-lhe o braço da Espada Excalibur, e aplicar-lhe a técnica suicida do Último Dragão. A potência do golpe de Shiryu arremessa os corpos de ambos os Cavaleiros até muito além da órbita terrestre e, só neste momento, muito depois de sua derrota ser visivelmente inevitável, Shura reconhece o senso de justiça de Shiryu.

Sua lógica é torpe e mesquinha, por mais que ele tente travesti-la de epifaniaShura só admite que pode estar errado porque perdeu a luta. Num último gesto de redenção, o Cavaleiro de Capricórnio reconhece a própria inutilidade e sacrifica-se para enviar Shiryu e a Armadura de Capricórnio de volta ao planeta. Não fica exatamente claro qual dos dois Shura estava mais interessado em salvar, para ser sincero. Materialista e fútil como ninguém, é bastante provável que o corpo desacordado de Shiryu tenha sido usado somente como mula para impedir a destruição da Armadura de Ouro à qual possuía tanto apego. 

Quando comparado ao signo de Capricórnio, Shura é tão fraco quanto sua lealdade a Atena. Como um dos signos de terra, capricornianos devem ser decididos, persistentes e silenciosos. Shura, porém, está muito distante da serenidade e da objetividade dos signos de terra, uma vez que vive no mundo da lua. Sua impulsividade e obediência tornam-lhe útil somente aos seus inimigos, visto que está sempre disposto a agir antes de pensar. Embora o estereótipo de Capricórnio compreenda a persistência de enfrentar seus desafios até o fim, Shura desvia-se dele por fazer somente o mínimo suficiente para que tenha direito a se gabar por isso. Uma vez que seu orgulho seja satisfeito, o Cavaleiro de Capricórnio não se importa mais com a missão, tendo cometido ao menos duas violações graves às ordens recebidas: ter abandonado o bebê Atena à própria sorte, em vez de assassiná-la em nome da autoridade do Grande Mestre, e ter permitido que os demais Cavaleiros de Bronze atravessassem sua Casa e prosseguissem com a aventura. Além de revelar detalhes cruciais do sacrifício de Aiolos, Shura é um personagem desnecessário à Saga e que poderia ser facilmente apagado com uma edição competente. 

Camus de Aquário

Se Shura desperta nojo em mim, Camus é um dos meus Cavaleiros favoritos, tendo recebido este nome em homenagem ao filósofo Albert Camus, um dos principais expoentes do existencialismo niilista ao mesmo tempo em que não era nem existencialista e nem niilista (tem como ser mais existencialista e niilista que isso?). É claro que eu era uma criança quando assisti o desenho pela primeira vez e, portanto, não sabia de nada disso. Àquela época, eu ainda acreditava em construções sociais bobas como a cegonha, o Papai Noel ou o futuro do Brasil. Minha fascinação por Camus era porque, dos Doze Cavaleiros de Ouro, era na Casa de Aquário que estava o mais imparcial de todos.

Camus é poderoso, mas não orgulhoso; frio, mas não insensível; decisivo, mas não impulsivo; justo, mas não egocêntrico. De muitas formas distintas, Camus representa o ideal da justiça democrática ocidental, o que frequentemente esperamos de autoridades que receberam a fé pública inerente ao julgamento. Seu treinamento na Sibéria moldou não somente seus poderes, baseados no frio e no gelo, mas também sua personalidade, que se tornou distante, calculista e serena. Foi também o mestre do Cavaleiro de Cristal, que mais tarde treinou Hyoga pessoalmente na mesma inóspita Sibéria. Este detalhe é exclusivo da animação, e considero uma escolha acertada dos roteiristas, visto que Camus é um Cavaleiro marcado pela autoridade e pela experiência, características tradicionalmente associadas ao envelhecimento mas aí a gente entra na faculdade e vê que é tudo mentira. No mangá, que é considerado mais canônico que o desenho, Camus treinou Hyoga diretamente, o que causaria dois problemas mais à frente: a baixa diferença de idade entre os personagens (não parece, mas Camus tem só 20 anos) e a ruína do suspense do combate entre Milo de Escorpião e Hyoga, porque seria óbvio demais que Hyoga enfrentaria seu antigo mestre. 

O Cavaleiro de Aquário aparece pela primeira vez um pouco antes, porém, ainda na Casa de Libra, numa situação que precisa ser cuidadosamente analisada, portanto abra sua mente para a interpretação que vem a seguir. Hyoga, que é aluno querido do aluno querido do Cavaleiro de Ouro, é arremessado à Outra Dimensão pela marionete de Saga de Gêmeos, onde está efetivamente aprisionado e eliminado da Saga do Santuário. Camus utiliza suas habilidades para resgatá-lo até a Casa de Libra, uma escolha que não é por acaso, mas sim uma decisão cuidadosa do Cavaleiro. É fato conhecido que o Cavaleiro de Libra (não necessariamente Dohko, que se acredita estar morto há centenas de anos) não retornou à Grécia para defender seu posto contra a trupe de Seiya, portanto ele sabe que estará vazia. Mas Camus não precisava deste artifício, uma vez que tem à disposição sua própria Casa de Aquário e, pois, não precisava utilizar o terreno quatro Casas abaixo da que deveria defender. Por que, então, ele optaria por ressuscitar (na prática) Hyoga tão longe do local onde deveria estar? A resposta lógica é que Camus sabia que o Grande Mestre era um farsante e que Saori era a verdadeira reencarnação da Deusa Atena. O objetivo ali não era atormentar Hyoga e congelá-lo para sempre no Esquife de Gelo, mas sim prepará-lo para as duras batalhas que terá pela frente. Muito inteligente, Camus encontra uma forma elaborada de se manter, ao mesmo tempo, leal ao Grande Mestre usurpador e à Deusa Atena, como se esperaria do mais imparcial de todos os Cavaleiros de Ouro.

É por isso, então, que Camus tenta convencer seu pupilo a desistir e sobreviver: é um teste de coragem e determinação, em que Hyoga é aprovado quando recusa a oferta. É também por isso que Camus não dá atenção às revelações de Hyoga sobre a manipulação do líder supremo do Santuário, já que não lhe eram nenhuma novidade. O Cavaleiro de Aquário sabe que o tempo é curto e que precisa ajudar o jovem Cavaleiro de Cisne a despertar o sétimo sentido com urgência, utilizando-se da força e da crueldade, se for preciso. Quando percebe que nem mesmo afundando o sarcófago de sua mãe até as profundezas do oceano Hyoga é capaz de elevar seu cosmo ao nível de um Cavaleiro de Ouro, Camus decide proteger o aluno de seu aluno, congelando-o no Esquife de Gelo, onde nem mesmo outro Cavaleiro de Ouro poderia alcançá-lo. O gesto não é só poético, mas também bastante prático: no momento, o objetivo dos Cavaleiros de Ouro é apenas destruir Hyoga, de forma que o congelamento é um esconderijo eficaz para lhe garantir a sobrevivência.

Além disso, Camus também se dá conta de que Atena está no Santuário e, como Deusa, será capaz de descongelá-lo. A escolha da Casa de Libra, novamente, mostra-se crucial, porque os Cavaleiros de Bronze estão apenas algumas Casas do Zodíaco abaixo e haverão de alcançá-lo em poucas horas. Por estar desocupada, os protagonistas conseguem tempo e foco suficientes para pensar numa solução, que acaba sendo o uso da Espada de Libra por Shiryu para quebrar a técnica congelante e o uso do cosmo de Shun para descongelar o Cavaleiro de Cisne.

Esta interpretação pode parecer mirabolante, mas está perfeitamente alinhada com o mangá. O roteiro dos quadrinhos não é ambíguo e deixa claro que Camus estava ciente de tudo o que ocorria no Santuário. De fato, o mangá revela que Milo de Escorpião era o melhor amigo de Camus e é o próprio que, com a língua maior que a própria boca, conta a Hyoga que o embate na Casa de Libra era apenas mais uma etapa de seu treinamento (lembre-se: Camus foi mestre de Hyoga no mangá) e até lhe deixa ir embora por amizade ao Cavaleiro de Aquário. 

Quando os dois Cavaleiros da Sibéria encontram-se novamente, já na Casa de Aquário, não há mais espaço para concessões. Como defensor da penúltima Casa do Santuário, Camus precisa provar sua lealdade e cumprir seu dever (embora tenha deixado Seiya e Shun avançarem). Por outro lado, Hyoga ainda precisa despertar o sétimo sentido e sabe que, como líder do grupo, Seiya deverá ser o responsável por alcançar o topo do Santuário e salvar Saori. 

Não fica claro se o sempre frio e rígido Camus deixa-se afetar pelo amor ao seu pupilo. É inegável que Hyoga evolui rapidamente e explode seu cosmo a níveis compatíveis com um Cavaleiro de Ouro, mas Camus está um nível acima, sendo frequentemente considerado um dos mais fortes do Santuário. Ter empatia com Hyoga é praticamente inevitável, especialmente quando o jovem Cavaleiro desvencilha-se do apego à própria mãe e sacrifica a própria vida para salvar Atena. Não é absurdo que mesmo o calculista e imparcial Camus tenha se rendido ao ímpeto imprudente e visceral de Hyoga, especialmente quando o último demonstra finalmente ter dominado a técnica secreta de Camus, a Execução Aurora, um poderoso raio congelante que alcança o zero absoluto e remove qualquer semblante de atividade vital de seu adversário. Apesar da batalha ter terminado com ambos permanentemente congelados, Hyoga é tecnicamente vitorioso, visto que é ressuscitado pelo cosmo de Saori, enquanto Camus segue para o Mundo dos Mortos, como confirmado por sua aparição na Saga de Hades. 

Camus de Aquário é o Cavaleiro de Ouro que todos os Cavaleiros de Ouro deveriam ser. Obstinado, obediente, perspicaz, destemido, frio, humilde, misericordioso e justo na medida certa. Mesmo de cima do muro, Camus encontrou uma forma de desempenhar seu dever sem comprometer sua lealdade à Deusa Atena. Embora tenha assumido o papel de peão negro no xadrez do Santuário, suas ações demonstram que estava ciente da tomada do trono do Grande Mestre e do que seria necessário para que os Cavaleiros de Bronze fossem bem-sucedidos em sua aventura.

Quando comparado ao signo de Aquário, Camus brilha como o cristal de seu Esquife de Gelo. Como um dos signos de ar (sim, aquário é um signo de ar e não de água), aquarianos devem ser perspicazes, frios e comprometidos, uma definição concisa e precisa da personalidade do Cavaleiro. Camus apresenta soluções inovadoras para problemas aparentemente sem solução, utilizando-se com frequência de lógica que é obscura aos demais, mas transparente a si mesmo, um traço comumente aos exemplares mais inteligentes e criativos do signo de Aquário. O mentor de Hyoga também é hábil em esconder seus próprios sentimentos e intenções, o que lhe permite agir de forma calculada e cirúrgica sempre que necessário. Uma das minhas grandes curiosidades sobre o mundo de Saint-Seiya é justamente o que ocorreria se Camus fosse enviado, no lugar de Shura de Capricórnio, Aiolia de Leão e/ou Máscara da Morte de Câncer, para executar o trabalho sujo do Grande Mestre farsante. Seria o Cavaleiro francês capaz de elaborar soluções tão cuidadosas para evitar a tomada do Santuário?

Afrodite de Peixes

Afrodite é outro dos meus Cavaleiros de Ouro favoritos (ao lado de Camus e Mu de Áries), não só porque é o representante do meu signo solar no Santuário (meu aniversário está chegando e aceito presentes), mas porque traz ao desenho um elemento que até então nenhum dos outros Cavaleiros do Zodíaco havia sido capaz: o humor

É uma pena, portanto, que o Cavaleiro de Peixes tenha uma participação tão pequena na animação, confinado somente à sua Casa. A liberdade dramatúrgica de inserir humor num shonen infelizmente é um efeito colateral de Afrodite ser o representante da última Casa do Santuário, quando todos os mistérios da trama já foram desvendados e não há mais o que destrinchar da história. Nem mesmo o combate será uma surpresa, porque Shun é o único dos protagonistas que ainda não atingiu o sétimo sentido, e também é o único que está disponível para lutar, visto que Shiryu e Hyoga estão lutando nas casas de Capricórnio e Aquário, respectivamente, e já não é mais segredo nenhum que Seiya será o responsável por prosseguir e salvar Saori. A única dúvida que ainda persiste é se Ikki aparecerá novamente para salvar seu irmão mais novo, ou se finalmente conheceremos a verdadeira força de Shun.

Estou decepcionado com a internet brasileira por não ter feito este meme antes.

Afrodite é uma personalidade peculiar no Santuário, a começar pela própria escolha do nome, que é feminino e identifica a deusa grecorromana da beleza. Isto indica que este personagem sempre foi planejado para ser homem, porque as mulheres que lutavam por Atena eram condenadas a usarem uma máscara sobre o próprio rosto e, portanto, não poderiam ser julgadas pela própria beleza. O próprio significado de beleza para o Cavaleiro de Peixes é fora do convencional, com extensões nos cílios e lábios anormalmente rosados. Tanto o desenho quanto o mangá são claros que estas características eram naturais e não resultantes de maquiagem, mas a intenção de criar um personagem afeminado como vilão é visível desde o princípio.

A constituição de Afrodite desta forma também reforça que Shun deverá ser seu adversário, embora este último seja afeminado por sua personalidade e não por sua linguagem visual (com exceção da armadura rosa). O Cavaleiro de Andrômeda consegue aprisionar o adversário em suas correntes por tempo suficiente para que Seiya corra até o topo do Santuário, o que não preocupa Afrodite, que mantém um jardim de rosas envenenadas para impedir este que deveria ser um dos artifícios mais óbvios da história da Grécia. 

Falando em rosas, sua escolha para a temática de Afrodite é uma metáfora poderosa para o Cavaleiro de Ouro: apreciador da beleza e da natureza, esconde uma personalidade vil e espinhosa por trás de sua beleza aparentemente inofensiva. O Cavaleiro de Peixes é rápido em revelar que não somente sabe que Saga de Gêmeos está se fazendo passar pelo Grande Mestre, como decidiu segui-lo, por acreditar que a seleção natural, reforçando o poder dos mais fortes sobre os mais fracos, é um mecanismo legítimo de justiça. Ele ainda confessa que assassinou o mestre de Shun, Daidalos de Cefeu, por ter descoberto a trama de Saga e ter se recusado a defender o Santuário. O problema é que não conhecemos Daidalos e, portanto, não conseguimos ter empatia com Shun quando ele se enfurece e jura vingança.

O combate entre os dois é monótono e cansativo, porque o tom choroso da voz de Shun infelizmente interrompe as frases brilhantes e divertidas de Afrodite, que me arrancou dezenas de gargalhadas com a técnica mais genial de toda a Saga: as Rosas Piranhas

Em tempos de Que Tiro Foi Esse e Rabiola, Afrodite teria dado origem a alguns dos melhores funks do país. O Cavaleiro de Peixes, no entanto, é convencido demais da própria superioridade e suas técnicas de dano sobre tempo prolongam o combate e favorecem o estilo de luta de Shun. O Cavaleiro de Andrômeda, afinal, tem no próprio sacrifício o símbolo máximo de sua constelação, já que Andrômeda ofereceu-se a vida para aplacar a fúria de Poseidon na lenda grecorromana. 

Afrodite repete, portanto, o erro de Shaka de Virgem ao lutar contra Ikki, ao torturar seu adversário por tempo suficiente para que ele encontre uma estratégia de contra-ataque. Shaka, no entanto, é um dos Cavaleiros de Ouro mais fortes do Santuário, lutando contra adversários de força desconhecida, enquanto o defensor da Casa de Peixes é facilmente um dos mais fracos, diante de inimigos que já provaram seu valor ao longo de nada menos que onze Casas do Zodíaco. A prepotência custa caro a Afrodite, que é assassinado e despachado para o Mundo dos Mortos por Shun

Aqui, portanto, revela-se que ele é particular de muitas formas distintas. É um dos quatro Cavaleiros de Ouro que sabem que o Grande Mestre havia sido assassinado e substituído (incluindo Camus na lista), optando por permanecer ao seu lado, como também o fez Máscara da Morte de Câncer. É também um dos três Cavaleiros de Ouro que causam dano sobre tempo (DPS) em vez de dano em rajada (burst), como Shaka e Milo de Escorpião. E, por fim, é também um dos quatro Cavaleiros de Ouro assassinados na Saga do Santuário, ao lado de Máscara da Morte, Shura de Capricórnio e Camus (Aiolos também morreu, mas treze anos antes), retornando como Espectros na Saga de Hades. 

Quando comparado ao signo de Peixes, Afrodite é mais ou menos compatível. Como um dos signos de água, piscianos são sonhadores, sensíveis e volúveis. Fica claro que Afrodite vive numa terra da fantasia, cultivando rosas enquanto os demais Cavaleiros defendem a santidade do Santuário, e sob normas morais que claramente destoam dos demais (exceto por Máscara da Morte, que amava a violência). A paixão pela arte e pela beleza deste que é considerado o signo da criatividade também faz parte de sua identidade. O Cavaleiro de Peixes, porém, só é sensível e solidário com o próprio ego, e esta é a sua ruína. A inteligência emocional que é apurada o suficiente para perceber a farsa do Grande Mestre também é cega demais para enxergar sua inferioridade em combate. Afrodite, em sua estupidez, é persistente e não volúvel, uma vez que poderia mudar de ideia e posicionar-se ao lado dos Cavaleiros de Bronze a qualquer momento, algo que mesmo Cavaleiros egocêntricos e prepotentes como Shaka e Shura foram capazes ao se verem derrotados no campo de batalha. Aliás, é uma tremenda burrice saber que Saori é a reencarnação da Deusa Atena e ainda assim se posicionar contra ela depois de seus liberadores derrotarem quase uma dezena de Cavaleiros de Ouro. 


Já que este texto ficou longo demais para um blog, resolvi dividi-lo em quatro partes. Na última, falei de Dohko de Libra, Milo de Escorpião e Aiolos de Sagitário. Espero que tenham gostado deste crossover de ficção e mais ficção astrologia. De um modo geral, ficou claro que a astrologia ocidental não foi uma grande inspiração para os Cavaleiros de Ouro do desenho, o que era de se esperar.

Para ser sincero, não há muita amplitude de personalidade entre os Cavaleiros para permitir cobrir todo o espectro zodiacal de influências astrais. Isto é proposital e um ponto positivo, já que Atena deseja como Cavaleiros de Ouro somente os mais capazes, leais e valentes guerreiros da Terra. Quem sabe, num desenho futuro...

Tags: astrology 

 

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