The astrology of the Knights of the Zodiac (part III)

Os signos dos Cavaleiros do Zodíaco

Parte 1: Mu de Áries, Aldebaran de Touro e Saga de Gêmeos
Parte 2: Máscara da Morte de CâncerAiolia de LeãoShaka de Virgem
Parte 3: Dohko de LibraMilo de Escorpião e Aiolos de Sagitário (abaixo)
Parte 4: Shura de CapricórnioCamus de AquárioAfrodite de Peixes
OBS: o texto abaixo contém spoilers. Se você não assistiu aos Cavaleiros do Zodíaco ainda, o que está esperando?

Continuando a aventura: quais Cavaleiros de Ouro equivalem ao estereótipo do próprio signo?

Vou seguir a ordem das casas do Zodíaco no arco original. Também vou desconsiderar os traços de personalidade exibidos fora do arco principal, mesmo que os demais sejam considerados canônicos. Vamos a elas.

Mestre Ancião Dohko de Libra

Falar de Dohko usando somente a Saga do Santuário como base tem tudo para ser desafiador, considerando que ele não só não lutou durante todo o arco, mas também ficou escondido como o Mestre Ancião o tempo todo. Para ser sincero, lembro que há um episódio em que há a revelação de que o Cavaleiro de Libra ainda era Dohko, mas não lembro se foi antes das Doze Casas. Pelo contrário, tenho quase certeza que foi na Saga de Hades, já que o objetivo dele se esconder era justamente se preparar para a próxima Guerra Santa entre o Deus do Inferno e a Deusa da Terra. A foto acima é de lá, aliás.

Dohko aparece no desenho desde o começo, sendo o treinador de Shiryu nos Cinco Picos de Rozan. Disfarçado como Mestre Ancião, seu papel é vigiar o selo que aprisiona os Espectros de Hades enquanto mantém suas funções fisiológicas em ritmo quase congelado por 200 anos até que a próxima reencarnação de Atena apareça. Apesar disso, seu papel na trama está muito longe de ser coadjuvante, visto que coordena esforços com a turma de Seiya e com vários dos outros Cavaleiros de Ouro (como Mu) com frequência. De posse da única Armadura de Ouro autorizada a usar armas, Dohko manobra-a com eficácia para salvar os Cavaleiros de Bronze.

Se o Cavaleiro de Libra não tem poder físico a contribuir para a batalha, sua perspicácia e experiência são contribuições valiosíssimas para salvar Saori. Por conhecer o Grande Mestre da época em que estava no Santuário, Dohko é um dos primeiros a perceber que o homem que se diz Grande Mestre é um usurpador. Aliás, Dohko não sabia só da farsa, mas possuía pleno conhecimento de todos os acontecimentos paralelos ao ataque de Saga de Gêmeos, incluindo o assassinato de Aiolos. Em vez de tentar tirar satisfações, como o fez Aiolia de Leão, Dohko manteve a calma e esperou pacientemente por anos até que a hora certa chegasse.

Dohko é pacífico e introvertido, mas está longe de ser um personagem frio. Mesmo ensinando uma técnica suicida a Shiryu e então lhe proibindo de usá-la, o Mestre Ancião chora de felicidade e tristeza, ao mesmo tempo, quando percebe que Shiryu lhe desrespeita ao usá-la contra Shura de Capricórnio. Em sua imensa sabedoria, sabia que Shiryu um dia precisaria usá-la e emociona-se ao reconhecer que Shiryu soube empregá-la no momento adequado e pelas motivações certas. Mesmo enfurnado às margens de uma cachoeira no fim do mundo, Dohko ainda construiu sólidas relações com diversos personagens, como Shunrei e Mu de Áries. Não é por acaso, portanto, que é ele que revela os segredos de Saga aos demais Cavaleiros de Ouro, e também é ele que assume o posto de Grande Mestre após o suicídio do Cavaleiro de Gêmeos.

Quando comparado ao signo de Libra, Dohko é um exemplo seguro. Como um dos signos de ar, librianos devem ser indecisos, íntegros e reservados. É verdade que Dohko é o extremo oposto de indeciso, sendo capaz de executar interferências cirúrgicas ao longo de dezenas de episódios, mas aqui ofereço uma explicação canônica e racional para tamanha autoconfiança: o Cavaleiro de Libra tem quase 300 anos de vida. Um homem não se torna o Mestre Ancião sem cometer muitos erros e ponderar muitas decisões, sem dúvida, mas é de se esperar que os mistérios do Santuário não mais lhe despertem hesitação. Quando esta característica é tirada da equação, Dohko é um Cavaleiro com grande paixão pela justiça e pelos valores humanos, mas uma paixão tipicamente libriana, que é manifestada mais em palavras do que ações, mais em calma constância do que em impulsos fulminantes. O Mestre Ancião, com seu olhar experiente, enxerga força e coragem onde outros Cavaleiros enxergariam fraqueza e covardia. É típico de Libra que um dos personagens mais poderosos do universo apresente-se sob o semblante de um vovô de 1,40m de altura. 

Milo de Escorpião

Milo é um dos Cavaleiros que, como Aldebaran de Touro, teve pouco tempo de tela fora de sua própria Casa. Ainda assim, sua batalha contra Hyoga é suficiente para permitir a observação de duas personalidades bem distintas que, ao contrário da bipolaridade de Saga de Gêmeos, compõem um indivíduo mentalmente saudável e dinâmico. Para a sociedade, Milo é frio, calmo e confiante. Milo escolhe suas palavras com cuidado e deferência, e demonstra tanto respeito por seus adversários quanto por seus aliados. Em combate, no entanto, ele se autoriza a libertar as próprias emoções. Sua experiência em observar e analisar os outros vem à tona neste momento, visto que, sádico, utiliza esta inteligência emocional como uma arma em batalha. Embora pareça um golpe baixo, é importante lembrar que os combates em Cavaleiros do Zodíaco raramente são clínicos, já que a principal fonte de energia dos mesmos - o cosmo - é diretamente afetada por emoções viscerais como fúria, lealdade e senso de justiça. Milo compreende bem esta dicotomia e utiliza-a para maximizar seus esforços no Santuário.

A primeira aparição de Milo no desenho é na Casa de Escorpião, onde, logo após atravessarem a casa de Libra - que deveria ter sido guardada por Dohko -, Seiya e Shiryu são facilmente sobrepujados e torturados pelo Cavaleiro de Ouro. Parece inacreditável que, depois de vencer adversários formidáveis como Aiolia de Leão e Máscara da Morte de Câncer, os principais protagonistas sejam prontamente derrubados por um Cavaleiro de Ouro que dificilmente se destacaria entre os demais. Mas, bem, Cavaleiros do Zodíaco não seria tão popular se não tivesse um roteiro tão brilhante. Os líderes da tropa de Bronze são poderosos e obstinados, não há dúvidas disso, mas sua inabilidade em controlar as próprias emoções é um ponto fraco que Milo explora com maestria. A desenvoltura do Cavaleiro de Escorpião em manejar palavras e o clima do combate requer um adversário mais frio. É Hyoga, portanto, que aparece para satisfazer este requisito (literalmente). Além disso, 2/3 das Casas do Santuário já foram percorridas e Hyoga ainda não teve a oportunidade de provar seu valor no campo de batalha, então agora é o momento dele.

Hyoga chega fresco da Casa de Libra, onde foi congelado no Esquife de Gelo por Camus de Aquário, libertado pela Armadura de Sagitário manuseada por Shiryu, e então aquecido de volta à vida com calor do corpo e do cosmo de Shun. Portanto, ao contrário dos demais, que tiveram que superar seus limites repetidamente e arriscar as próprias vidas em técnicas suicidas, Hyoga aparece na Casa de Escorpião descansado e revigorado após sua noite caliente com Shun. 

Hyoga interrompe a tortura de Milo ao aprisioná-lo no Círculo de Gelo, o que permite que o restante da turma prossiga para a Casa de Sagitário. Esta vitória é momentânea, porém. O Cavaleiro de Escorpião reconhece a própria superioridade e concede a Hyoga misericórdia ao lhe dar a oportunidade de fugir, que é prontamente recusada. Hyoga, afinal, possui algo a provar para si mesmo, seus colegas e a audiência. A batalha que se sucede é longa por causa do monólogo interminável de Milo, que desenha versos com o mesmo talento com que perfura Hyoga com suas Agulhas Escarlates, mas fracas em termos de técnica de combate. Hyoga serve apenas de saco de pancadas de luxo para Milo, que, incapaz de matá-lo, reconhece sua resiliência e encerra a luta unilateralmente. Ao invés de matar o Cavaleiro de Cisne, Milo enxerga virtude no sacrifício de Hyoga e resolve curá-lo. Não sei dizer ao certo se ele teve uma revelação neste momento. É evidente que não estava ciente de que Saga estava se passando pelo Grande Mestre, e certamente não parecia ter compreendido que esta guerra tinha como objetivo a dominação do planeta. A dúvida que fica é se Milo, um manipulador emocional habilidoso, percebeu-se peão de um rei oculto e decidiu se retirar do tabuleiro, ou se o gesto de deixar seu adversário sobreviver e prosseguir é apenas um reconhecimento do potencial e do senso de justiça de Hyoga. 

Ainda assim, o defensor da Casa de Escorpião aproveita bem o pouco tempo que a animação lhe dedica. Seus diálogos são inteligentes e criativos, ainda que pouco dinâmicos, e suas intenções são objetivas e claras, ainda que suas emoções não o sejam. Sua técnica secreta, as Agulhas Escarlates, é uma metáfora bastante ilustrativa para sua própria personalidade: os 14 disparos precisos e violentos adaptam-se perfeitamente ao seu jeito metódico e verborrágico de agir. O apreço pela tortura é contido dentro do campo de batalha, porém, visto que Milo é uma pessoa reservada fora dele e demonstra não ter dificuldades em mudar de opinião ao reconhecer que poderia estar errado. Milo é poderoso e autoconfiante, mas ainda assim se mantém como um dos Cavaleiros de Ouro mais humildes, mesmo quando liberta suas emoções mais primitivas. 

Quando comparado ao signo de Escorpião, Milo sai-se melhor do que o esperado. Como um dos signos de água, leoninos devem ser explosivos, observadores e obsessivos, características que Milo apresenta em parte. É inegável que sua habilidade em observar pessoas e manejar suas emoções coloca-o ao lado dos melhores do Santuário, mas Milo não é explosivo fora de combate, muito pelo contrário. Apesar disso, esta capacidade de fluir facilmente de uma personalidade à outra seja uma característica razoavelmente comum em signos de água. Milo vai do gelo ao vapor em questão de minutos, mas não por submissão às circunstâncias e sim por vontade própria. Outra característica típica do estereótipo de Escorpião, a sede insaciável por poder, também aparece escondida sob a falação interminável a cada aplicação das Agulhas Escarlates. Comparando ponto a ponto, a avaliação do Cavaleiro é razoavelmente compatível com o que se espera do seu signo, mas Milo frustra as expectativas ao deixar de lado as características mais marcantes, como a obsessividade e o espírito vingativo, ao simplesmente desistir de matar Hyoga e curá-lo para que prossiga em sua aventura. 

Aiolos de Sagitário

Aiolos é outro que não luta na Batalha das Doze Casas. Ao contrário de Dohko de Libra, porém, sua desculpa é mais fácil de compreender: ele estava morto. A relação de Aiolos com a Saga, portanto, começa de muito, muito antes.

Quando o verdadeiro Grande Mestre ainda era vivo, ele havia decidido que Aiolos seria seu sucessor, por incorporar a "bondade, inteligência e coragem" necessárias ao papel de guardião supremo do Santuário. Quem não é muito inteligente é o próprio Grande Mestre, que diz isto na frente de Saga de Gêmeos e acaba sendo assassinado logo depois. A parte seguinte do plano de Saga - assassinar a bebê Saori - foi frustrada por Aiolos, que se adianta e resgata a criança a tempo. É neste momento, portanto, que Aiolos torna-se o primeiro Cavaleiro de Ouro a perceber que o cargo de Grande Mestre havia sido usurpado. Infelizmente, Saga utiliza-se do poder roubado e marca-o como traidor, incriminando-o pela própria tentativa de infanticídio divino. Aiolos encontra o milionário japonês Mitsumasa Kido, que passava férias na Grécia Olímpica, e confia-lhe a guarda de Atena junto com sua Armadura de Sagitário. É assim que o núcleo da saga é desviado para o Japão, longe do alcance do restante dos Cavaleiros de Ouro.

A primeira interação de Aiolos com os Cavaleiros de Bronze é duvidosa: sua alma penada ordena que a Armadura de Sagitário proteja Seiya do ataque covarde de seu irmão, Aiolia de Leão, ao mesmo tempo em que convence o Cavaleiro de Ouro a se voltar contra o Grande Mestre. Do ponto de vista do espectador, não fica claro se é uma aparição divina ou apenas esquizofrenia, já que Aiolia está longe de ser um exemplo de sanidade mental, e não é exatamente surpreendente que Armaduras de Ouro tomem decisões complexas e atitudes inesperadas em pleno campo de batalha (lembra da Armadura de Câncer abandonando Máscara da Morte?). Ainda assim, a presença espiritual de Aiolos é figurinha carimbada no desenho, fazendo aparições eventuais em locais tão distintos quanto sua própria Casa de Sagitário e no Templo Submarino (na Saga de Poseidon). 

Falando na Casa de Sagitário, o espírito confuso de Aiolos achou que seria interessante fazer os Cavaleiros de Bronze, exaustos após lutarem seguidamente contra adversários muito mais poderosos que eles e apressados por um relógio que determina o tempo restante de vida de Atena, darem um rolê por alguns enigmas e provas de (fé? força? paciência?) enquanto torram as poucas horas que ainda têm até chegarem ao Santuário. O prêmio é uma espécie de testamento em que é revelado aos companheiros de Seiya que o trono do Grande Mestre foi usurpado, que Saori é realmente a reencarnação de Atena, e que Aiolos foi o responsável por salvá-la. O gesto falha miseravelmente tanto em ser nobre quanto em ser útil. O tempo desperdiçado não retornará mais e não há nenhuma informação que mude realmente alguma coisa na Saga. Os protagonistas, depois de derrubarem 8 Cavaleiros de Ouro, obviamente já sabem que estão do lado dos mocinhos e que há uma força oculta agindo do topo do Santuário para lhes impedir. O fato é que eles lutam pelo sentimento de virtude e afeto por Saori, que já lhes basta como razão para permanecer lutando e prosseguindo na aventura. E, mesmo que não soubessem, os Cavaleiros de Ouro das últimas Casas estavam cientes e poderiam lhes contar o que fosse preciso.

Fora que, a esta altura do campeonato, os espectadores já estão cientes de tudo o que está acontecendo. Não há mais ninguém assistindo pelo suspense. Os que chegaram até aqui e permanecem assistindo estão interessados somente nas batalhas, como seria de se esperar do público tradicional de um shonen. A única utilidade para esta encenação, portanto, seria redimir Aiolos aos olhos dos protagonistas, o que é inútil para esta Saga, mas importante para as seguintes, já que Seiya passará a ser o Cavaleiro de Sagitário nas séries Saint-Seiya do século XXI. Curiosamente, no mangá, Aiolos não faz esta embromação toda. Muito pelo contrário, o testamento é prontamente entregue aos Cavaleiros de Bronze e a trama avança imediatamente para a próxima Casa. 

Como se pôde ver, o desenho animado não me deu muito com o que trabalhar para avaliar a personalidade de Aiolos. Sabemos que era um Cavaleiro poderoso, valente, inteligente e humilde, por ter interposto sua própria vida entre Saga de Gêmeos e o bebê Atena confiando apenas no próprio instinto cosmo. Não é o suficiente para lhe julgar como imprudente, porque foi sua capacidade de agir por impulso na hora certa que garantiu a sobrevivência de Saori e a posterior retomada do Santuário. Se Aiolos é mero coadjuvante na Saga do Santuário, é óbvio a qualquer um que tenha assistido a série que não haveria uma Saga do Santuário sem o sacrifício altruísta de Aiolos. Porém, em termos de defeitos, não se conhece muito sobre Aiolos, simplesmente porque a capacidade de cometer erros é exclusiva dos seres vivos. 

Quando comparado ao signo de Sagitário, Aiolos curiosamente encaixa-se muito bem. Como um dos signos de fogo, sagitarianos são idealistas, místicos e aventureiros. Se havia algum signo para ser representado por um Cavaleiro de Ouro morto cujo espírito vaga pelo mundos dos vivos, certamente é Sagitário. Apesar disso, Aiolos é obstinado em seu objetivo de proteger Atena, dando não apenas sua própria vida, como também impedindo seu irmão de desfazer os ganhos de seu próprio sacrifício. A determinação é a marca registrada tanto de sagitarianos, quanto dos Cavaleiros de Sagitário, ambos simbolizados pelo disparo certeiro do arco-e-flecha que ilustra o signo.


Já que este texto ficou longo demais para um blog, resolvi dividi-lo em quatro partes. Na última, falei de Máscara da Morte de Câncer, Aiolia de Leão e Shaka de Virgem. Na próxima, falarei de Shura de Capricórnio, Camus de Aquário e Afrodite de Peixes. Até lá!

Tags: astrology 

 

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