The astrology of the Knights of the Zodiac (part II)

Os signos dos Cavaleiros do Zodíaco

Parte 1: Mu de Áries, Aldebaran de Touro e Saga de Gêmeos
Parte 2: Máscara da Morte de CâncerAiolia de LeãoShaka de Virgem (abaixo)
Parte 3: Dohko de LibraMilo de Escorpião e Aiolos de Sagitário
Parte 4: Shura de CapricórnioCamus de AquárioAfrodite de Peixes
OBS: o texto abaixo contém spoilers. Se você não assistiu aos Cavaleiros do Zodíaco ainda, o que está esperando?

Continuando a aventura: quais Cavaleiros de Ouro equivalem ao estereótipo do próprio signo?

Vou seguir a ordem das casas do Zodíaco no arco original. Também vou desconsiderar os traços de personalidade exibidos fora do arco principal, mesmo que os demais sejam considerados canônicos. Vamos a elas.

Máscara da Morte de Câncer

Assim como Mu, Máscara da Morte também é um dos primeiros Cavaleiros de Ouro a aparecerem em Saint-Seiya, mas com um propósito bem distinto. Se Mu age como um NPC (personagem não-jogável de RPG) providencial à turma de Seiya, intrometendo-se apenas e nada mais que o suficiente para que consiga prosseguir na aventura, Máscara da Morte é direto e persistente em sua rota de colisão com o eixo da história. Sua primeira aparição tem um objetivo bem claro: assassinar o Cavaleiro de Libra a qualquer custo. O contraste com Mu é simplesmente inevitável: enquanto as motivações de Mu permanecem ocultas até que os Cavaleiros de Bronze cheguem ao Santuário, Máscara da Morte aceita o papel de vilão coadjuvante sem nenhuma graciosidade e espalha aos quatro ventos o que (e por que) fará a seguir. Quando Shiryu interpõe-se entre Máscara da Morte e o Mestre Ancião, é imediatamente vencido e quase destruído em resposta. Mu alcança a cachoeira de Rozan a tempo de impedir o massacre e espanta ameaça através do medo. O Cavaleiro de Câncer é arrogante e agressivo, sim, mas não imprudente: reconhece sua inferioridade na batalha contra dois Cavaleiros de Ouro e retira-se sem ferir o próprio orgulho.

Vemos o orgulho escalar ao narcisismo psicótico quando Seiya e Shiryu chegam à Casa de Câncer, bizarramente decorada com máscaras feitas dos rostos dos inimigos que ele diz ter derrotado. Shiryu é o adversário natural de Máscara da Morte a esta altura do arco, já que sua derrota em Rozan precisa ser vingada no palco do Santuário. A batalha é largamente unilateral: o Cavaleiro de Ouro é muito mais forte e não há dúvidas disso. Shiryu detém a vantagem apenas no espectro moral(ista) da disputa e, curiosamente, é o que lhe termina salvando a vida. O Cavaleiro de Dragão é prontamente enviado para os portões do mundo dos mortos, de onde sua alma seria aprisionada pela eternidade senão pela sua forte conexão com Shunrei, seu par romântico, que pressente o perigo e imediatamente lança orações ao socorro de Shiryu. Máscara da Morte é prepotente mas não estúpido: embora despreze os seres humanos e os vínculos afetivos que constroem, reconhece a relevância de Shunrei - mesmo a quilômetros de distância - para o futuro do Santuário. Confiante em sua própria superioridade, resolve ir até os portos do mundo dos mortos e enviar Shiryu pessoalmente ao submundo. 

Os valores morais de Shiryu permitem ao autor se safar com um nada discreto deus ex machina. Na hora decisiva, o desapego de Máscara da Morte à vida humana é recompensado com o abandono de sua própria armadura, que se recusa a permanecer sob o comando de um indivíduo tão detestável, e com a interferência das almas inocentes que ele próprio havia enviado aos portões do mundo dos mortos. O contraste com Shiryu é evidente e um artefato dramático fantástico: Shiryu não é apenas um dos heróis lutando pela justiça, mas justamente o personagem que o faz através do próprio sacrifício. Seja cortando os próprios pulsos para ressuscitar as armaduras de bronze, seja arrancando os próprios olhos para lutar contra Algol de Perseu, seja dando a própria vida para defender um Cavaleiro de Ouro que sequer precisava de seu apoio em combate, é Shiryu quem determina a personalidade de Máscara da Morte através de seus extremos opostos: Shiryu é ético, altruísta, humilde e respeitoso; por isso, Máscara da Morte, como seu nêmesis, é indigno, egocêntrico, arrogante e desprezível. Shiryu, portanto, despe-se da própria armadura (numa metáfora para o próprio orgulho) em nome do combate justo, alcança o sétimo sentido e despacha Máscara da Morte para o inferno.

É largamente aceito que Máscara da Morte sabia que o Grande Mestre era Saga de Gêmeos em disfarce. Não sei dizer, porém, se ele acreditava estar fazendo a coisa certa. O que é óbvio é que ele não se importava: sádico como era, a violência sanguinária era o objetivo em si mesma. Como um dos principais personagens nas etapas iniciais da saga do Santuário, houve bastante cuidado em descrever sua personalidade em detalhes bem específicos: as máscaras espalhadas pela Casa de Câncer como símbolo de sua crueldade; a insistência em manter o capacete da armadura como demonstração do próprio narcisismo; o constante sorriso nos lábios como evidência de seu desprezo pela vida humana e amor pela violência. Sua técnica secreta são as Ondas do Inferno, que arremessa a alma de seus adversário para Curitiba os portões do mundo dos mortos, de onde não costumam retornar. 

Quando comparado ao signo de Câncer, Máscara da Morte é um retumbante fracasso. Como um dos signos de água, cancerianos devem ser delicados, sentimentais e manipuladores. O Cavaleiro de Câncer é o exato oposto. Máscara da Morte é violento, cruel, direto e arrogante, acho que isso está claro, mas manipulação não é um dos seus traços negativos. Ao invés disso, ele acredita que deve ser agente dos próprios desejos e não tem nenhum receio de sujar as próprias mãos. Até o apego aos rostos de seus adversários é um mero requinte de narcisismo e não sentimentalismo. Máscara da Morte coleciona vitórias e não lembranças de suas batalhas. Se existisse no mundo real, não seria reconhecido como canceriano de jeito nenhum

Aiolia de Leão

Essa análise vai ser bem divertida. Aiolia não tem uma personalidade própria bem definida na Saga do Santuário. Suas decisões e atitudes são determinadas pela relação com o seu irmão, o Cavaleiro de Leão anterior, ou pelas ordens do Grande Mestre usurpador. Aiolia não tem a oportunidade de ser agente porque está sempre sendo forçado a reagir. A própria adaptação do desenho animado deixa isto claro ao efetivamente clonar as características físicas de Seiya, numa tentativa (bem-sucedida, devo dizer) de aproveitar a empatia que os espectadores sentem pelo protagonista. O mangá e as sagas subsequentes são mais incisivas em relação a ele, mas pretendo manter a promessa de ignorar tudo o que está fora da primeira saga da animação.

Aiolia é um Cavaleiro de Ouro bem diferente dos anteriores. Saem os grandes egos e as fortes personalidades, e entra um personagem confuso, psicologicamente frágil e volúvel. Aiolia não muda de ideia com segurança e agilidade, como fazia Mu de Áries, mas sim com dúvida e hesitação. Sua decisão de se tornar Cavaleiro de Atena vem de seu irmão mais velho, Aiolos de Sagitário, que decide treiná-lo após conquistar o título de defensor da nona Casa do Santuário. Aiolos, porém, é assassinado ao salvar Saori do ataque de Saga de Gêmeos, e declarado traidor por este último. Aiolia deixa de ser "o irmão mais novo de Aiolos" e passa a ser "o irmão do traidor". Para provar o próprio valor, decide se esconder enquanto completa, sozinho, o treinamento para se tornar cavaleiro.

A partir daí, temos um buraco na história do personagem, visto que ele reaparece treze anos mais tarde já como o respeitado Cavaleiro de Leão, conquistando a confiança até mesmo dos carrascos de seu irmão. É ele que o Grande Mestre decide enviar ao Japão após uma dezena inteira de Cavaleiros de Prata serem derrotados pela trupe de Seiya. O resultado é francamente desastroso, mas divertido de assistir. Aiolia muda de opinião como se estivesse mudando de roupa. Após chegar ao Japão, dirige-se diretamente ao hospital onde Seiya era tratado. Não é a covardia contra um adversário praticamente abatido que o faz reconsiderar o ataque, mas a coragem de Shaina de Ofiúco que usou o próprio corpo para bloqueá-lo. Mesmo quando está atacando, Aiolia não passa de mero instrumento dramatúrgico a personagens mais importantes.

Aiolia desiste de desistir quando Seiya utiliza a Armadura de Sagitário (pertencente ao seu irmão) para derrotar mais três inimigos. É outra menina (não há muitas no desenho), desta vez Saori, que decide se colocar no caminho. Visto que matá-la já era mesmo parte da missão que lhe foi dada, o Cavaleiro de Leão desfere o mesmo golpe novamente só para ser bloqueado mais uma vez, agora pelo próprio Seiya. Aiolia é, então, visitado pelo espírito de seu irmão (ou uma alucinação mesmo) e convencido a tomar o avião de volta para a Grécia. 

Ao contrário de Máscara da Morte, que é arrogante sem ser imprudente, Aiolia marcha diretamente para a sala do Grande Mestre e exige satisfações diante da presença atenta de Shaka de Virgem. Como era de se esperar, Aiolia é derrotado pela dupla de Cavaleiros de Ouro e passa a ser controlado por uma técnica psíquica. Se já não era capaz de controlar a própria história, agora não é mais capaz nem de controlar o próprio corpo.

É como marionete que ele reencontra Seiya na Casa de Leão. Como já era de se esperar, o Cavaleiro de Pégaso conta com o apoio de mais uma mulher, dessa vez Marin de Águia, que o auxilia a combater o Cavaleiro de Ouro de igual para igual. A técnica psíquica, porém, evolui para transformá-lo num guerreiro cruel e sanguinário. É Shaina novamente que, através de seu discípulo, Cassius, age para impedir que Aiolia mate Seiya. O sacrifício do guerreiro enfurece Seiya, que eleva seu cosmo para derrubar o Cavaleiro de Leão e anular o controle mental do Grande Mestre. De posse dos próprios instintos, Aiolia conta aos protagonistas o que sabe sobre a trama de dominação mundial e sobre Shaka, que será o próximo adversário logo a seguir, e permite-lhes a passagem sem maiores problemas. 

A despeito de orbitar os principais acontecimentos de toda a saga, Aiolia é sempre jogado para escanteio. A adaptação para o desenho é preguiçosa e pouco criativa até mesmo na hora de compor sua técnica secreta, a Cápsula de Poder, que é um golpe tão genérico quanto a personalidade de seu detentor. A única característica decisiva de Aiolia é ser morno. Impulsivo sem ser decisivo, rebelde mas obediente, poderoso mas manipulável. No xadrez do Santuário, Aiolia é descartável como um peão e incerto como um cavalo. 

Quando comparado ao signo de Leão, Aiolia tem um resultado deprimente. Como um dos signos de fogo, leoninos devem ser confiantes, exibidos e vibrantes, descrição que passa longe da personalidade do irmão de Aiolos. Em vez de Rei Leão, Aiolia é uma edição pouco carismática do Pumba. Mesmo levando em consideração que perdeu seu irmão aos 7 anos de idade e passou os 13 seguintes tentando superar o trauma de perder o ídolo de forma trágica (e taxado de traidor), o Cavaleiro de Leão não procura os holofotes e não inspira o respeito que os demais Cavaleiros obtêm. Aiolia vive consumido pela culpa, pela dúvida e pela hesitação em fazer o que julga ser o mais correto em tempo hábil. Mesmo o idealismo marcante do estereótipo leonino é uma chama cambaleante no jovem cavaleiro, cuja ética é flexível o suficiente para se permitir atacar um adversário em recuperação hospitalar e mudar de opinião logo em seguida apesar de saber ser uma violação das ordens recebidas pelo Grande Mestre

Shaka de Virgem

Shaka de Virgem é o grande prodígio do Santuário, tendo recebido a posse da Armadura de Virgem aos 7 anos de idade e sendo considerado a reencarnação de Buda (há espaço para muitos deuses em Cavaleiros do Zodíaco) e também o homem mais próximo de Deus. Aqui, é preciso se desvencilhar da preconcepção cristã (e budista) de santidade, que é tradicionalmente baseada na fé e na humildade, porque Shaka é um Cavaleiro pragmático e arrogante. Ele não se reconhece como um instrumento da divindade, mas como uma representação dela própria, interferindo manipulativamente nas histórias de indivíduos que não deveriam ser suas responsabilidades e exigindo que seus adversários ajoelhem-se e adorem-no como moeda de troca por sua misericórdia. 

Apesar de tamanho narcisismo e de ser um dos Cavaleiros mais poderosos do Santuário (de longe, o mais forte até o momento), Shaka não percebe que Saga de Gêmeos havia usurpado o trono do Grande Mestre. Esse fato é particularmente estranho porque ele demonstra ao longo de todo o arco que é bastante sensitivo e possui instintos afiados, e também presencia o Grande Mestre controlar o corpo de Aiolia com a técnica Satã Imperial. Dotado de poderosas técnicas psíquicas, Shaka deveria ser capaz de reconhecer e identificar um similar como Saga, e tudo parece apontar para isso quando se coloca no caminho de Aiolia em favor do Grande Mestre. Veja bem, é bastante claro que Shaka conhecia as intenções e partilhava dos mesmos objetivos que o Grande Mestre, mas, sem saber que se tratava de um impostor, não posso considerar que ele era algo além de uma ferramenta nas mãos do farsante.

O Cavaleiro de Virgem faz sua existência valer a pena mesmo quando entra em campo para defender sua Casa no Santuário, uma vez que protagoniza uma das mais intensas batalhas contra um adversário até então inesperado. Ikki, irmão mais velho de Shun, não viajou com a turma, mas se une ao grupo para proteger seu maninho enquanto enfrenta um adversário à altura não apenas em termos de poder bruto, mas também em sofisticação, já que ambos são usuários avançados de técnicas psíquicas. É então que Ikki descobre que teve a memória apagada quando lutou contra Shaka na Ilha da Rainha da Morte. 

Se Ikki é um Cavaleiro direto e agressivo, Shaka é paciente e parece ter prazer em fazer rodeios. Enquanto alega que, ao contrário de Deus, não possui compaixão pelos fracos, o Cavaleiro de Ouro força-o a um longo passeio pelos mundos dos mortos, seguido de diversas técnicas metafóricas de aprisionamento que incluem constantes mudanças de cenário. Ainda bem que é um desenho animado, porque filmar um seriado em tantas locações diferentes definitivamente teria tornado esta batalha uma obra bastante cara. 

A escolha pelo duelo estendido favorece Ikki: sua Armadura de Fênix é habilidosa em se recuperar de falhas e se reconstruir para permanecer em combate. Além disso, Ikki é astuto e observador, e sabe que a verborragia de Shaka oferece o tempo necessário para que ele considere opções e tome decisões baseadas na inteligência que está obtendo diretamente do próprio Buda. Em especial, o ponto alto da batalha é quando Ikki percebe que Shaka mantém seus olhos fechados para elevar o próprio cosmo, e manipula o orgulho de seu inimigo para que elimine seus sentidos e seja capaz de inflamar a própria energia a níveis semelhantes. O Cavaleiro de Virgem tropeça na própria arrogância e cai na armadilha, permitindo que Ikki o envolva e exploda ambos numa espécie de autodestruição voltorbiana que faz com que ambos desapareçam do planeta.

No entanto, nenhum dos dois efetivamente morre, visto que Shaka é capaz de contatar Mu para que ambos sejam resgatados do buraco em que se meteram a tempo de trazer o auxílio de Ikki na batalha contra o Grande Mestre. É só neste momento, portanto, que Shaka entretém a possibilidade de estar errado. Ao dizer que Ikki plantou-lhe uma dúvida, Shaka deixa subentendido que o Cavaleiro de Fênix rachou-lhe não somente os ossos, mas também a autoconfiança, forçando-o a duvidar de si mesmo pela primeira vez em muito tempo. Este não é um momento de revelação, porém. Ele teve de ser manipulado, sobrepujado e encarcerado em outra dimensão para considerar que talvez não estivesse certo sobre Saori. Para um homem acostumado a estar sempre certo, entretanto, admitir a possibilidade de que estava errado exige uma humildade que Shaka não possui.

Shaka de Virgem é um personagem que dá gosto de ver sendo derrotado porque é do tipo que fala demais e age de menos. Embora seja largamente respeitado por sua sabedoria e seu poder que são simplesmente inegáveis, é seu desprezo e falta de compaixão pelos adversários que se coloca como obstáculo para enxergar que havia algo de errado ocorrendo bem debaixo de seu nariz. Embora frequentemente fale em justiça e destino, suas frequentes interferências contra os defensores dos desejos de Saori são a maior ameaça ao Santuário de toda a saga. Em especial, suas técnicas psíquicas são poderosas mas muito ineficientemente usadas, mesmo com poderes tão roubados quanto o Ciclo das Seis Existências (em que remove a existência física de seus adversários do planeta) e o Tesouro do Céu (o ataque que remove os seis sentidos do alvo). 

Quando comparado ao signo de Virgem, Shaka sai-se com muito mais desenvoltura que em batalha. Como um dos signos de terra, virginianos são perfeccionistas, metódicos e apaixonados pelo conhecimento. Embora já se considere tão próximo da divindade quanto possível (incomum ao signo), seu perfeccionismo existe como um pedestal em que sobe para julgar e punir seus inimigos. Outra característica típica do estereótipo, a obsessão é facilmente observada com o escalamento interminável de suas técnicas divididas em seis etapas. Para completar, Shaka manifesta sua frieza com tamanha calma que chega a ser monótono, demonstrando mesmo seus sentimentos mais viscerais com a mesma voz arrastada em que passa lições de moral aos Cavaleiros de Bronze. Um autêntico virginiano.


Já que este texto ficou longo demais para um blog, resolvi dividi-lo em quatro partes. Na próxima, falarei de Dohko de Libra, Milo de Escorpião e Aiolos de Sagitário. Até lá!

Tags: astrology 

 

Comments

Ewerton Saavedra  5 months, 2 weeks ago Reply

Que bacana, cara. Parabéns pelo post. Muito legal mesmo.

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