Sobre Maiara e Maraisa em 2008 e ouvir sertanejo na encolha

Quando tinha 17 anos, eu ficava com uma menina que tinha muito em comum comigo: ela era indie (eu também era), curtia sertanejo na encolha (eu também) e assistia àquele canal Rede Vida (onde passa a Copa São Paulo de Futebol Júnior). Não lembro exatamente do que eu gostava neste canal, porque a programação dele é basicamente religiosa ou copiada na cara dura retransmitida de outros canais com muito tempo de atraso (por vezes, vários anos). Era comum minha TV ficar com as laterais apagadas porque a transmissão ainda era feita no formato anterior ao widescreen (4:3).

Lembrei disso agora porque, em parte, minha memória, embora péssima, parece estar recuperando o fôlego e resgatando lembranças de um passado que eu já dava como perdido, e, em outra parte, porque estava na rua e alguma loja - daquelas que colocam o alto-falante do lado de fora para poderem gritar promoções que absolutamente ninguém pouco público está realmente interessado em ficar sabendo - estava tocando 10%, música de Maiara e Maraísa, especificamente a versão do DVD Ao Vivo Em Goiânia:

Sim, eu ainda escuto sertanejo na encolha. É por isso que não estou no Last.fm ou Spotify.

Uma escolha um tanto inusitada para uma loja de cama, mesa e banho, mas imagino que, quanto mais gente chorar, mais clientes decidem entrar na loja para comprarem toalhas e fronhas?

Enfim, este episódio me fez lembrar que Maiara e Maraísa apareceram numa entrevista à Rede Vida em 2008, numa rara aparição de programação original na grade da emissora. Elas eram muito diferentes do que são agora e, talvez por isso, tenha sido tão difícil de recordar disso. Não só por serem mais jovens - e elas pareciam ser muito mais jovens, adolescentes mesmo, embora já tivessem 19 anos à época -, mas, principalmente, porque o estilo musical delas lembrava mais um sertanejo tradicional, como o de Leandro e Leonardo, do que o pop travestido de sertanejo que elas cantam atualmente.

O curioso é que tanto eu quanto a namorada assistimos este programa mesmo sem combinarmos, e gostamos das músicas que elas apresentaram por lá (não consigo recordar os nomes). As letras eram bem ingênuas e até pitorescas, mas, honestamente, eu já não sou um adulto muito sério e, quando adolescente, era ainda mais propenso a achar graça de qualquer coisa do que hoje.

A dupla em 2005, quando gravaram o primeiro disco.

Lembro que disse a ela e a quem mais estivesse no caminho que Maiara e Maraísa ainda seriam grandes nomes da música sertaneja. Claro que eu não imaginava que tomariam de assalto as paradas de sucesso e alcançariam este sucesso todo que possuem agora, mas elas também são pessoas muito diferentes do que eram há doze anos. O fato é que ela concordava comigo somente para me agradar, e os demais achavam absurdo que alguém com o nome de Maiara e Maraísa pudesse sequer ter a cara-de-pau de pisar num programa de TV (obs: são os nomes de batismo delas). Na época, eu não conseguia entender o motivo disso. Hoje em dia, continuo não conseguindo entender, mas ignoro porque, afinal, a maioria era de adolescentes como eu, que não sabem nada da vida mesmo.

Imagina só eles crescendo e descobrindo que dá para ser famoso se chamando Phabullo.

Até tentei, na época, procurar os discos em lojas ou torrents eMule Kazaa canais alternativos de distribuição de conteúdo. Mas elas não tinham nenhuma tração ainda como artistas para conseguir que uma gravadora distribuísse os discos até o Rio de Janeiro (elas são sul-mato-grossenses). A loja brasileira do iTunes não existia ainda e os artistas brasileiros, especialmente os da Som Livre, eram extremamente resistentes à ideia de canções digitais. Então, acabei me conformando com o fato de que não poderia escutá-la em casa e, na faculdade, não poderia ouvir mesmo porque, afinal, eu tinha uma imagem de indie a zelar. Somentes macacos do Ártico eram bem-vindos na playlist. O único momento que eu me permitia ouvir algo diferente em público era no trabalho, porque metalcore e screamo ajudavam na minha concentração (tem até uma pesquisa sobre isso), e também porque ninguém lá perceberia a fraude.

Acabei de procurar e descobri que, sim, elas já tinham uma carreira de vários anos na música em 2008, o que justificaria uma entrevista curta em cadeia nacional numa emissora de grande porte, já que o tema do programa era mesmo música popular do interior. 

O problema é que não consigo encontrar nenhuma evidência de que tudo isso aconteceu de verdade. A Wikipédia e a página oficial das cantoras são os únicos registros de que elas, de fato, já estavam cantando e tocando profissionalmente muitos anos antes de 2008, o que nega a fantasia toda de que elas surgiram em 2016. Mas nenhuma das fontes aponta quais eram as músicas que elas utilizavam nas apresentações e de quando é a aparição na Rede Vida.

A questão é: como posso descobrir isso? Onde uma informação dessas ficaria registrada em 2008? Éramos tão antiquados assim na década passada, a ponto de não haver sequer um registro de um evento que foi transmitido a milhares de brasileiros?

A conferir. Aceito assistência nesse sentido. Se descobrir alguma coisa, volto aqui para compartilhar o que encontrei. Se não, volto para escancarar o fracasso.

Tags: art brazil 

 

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