Slowpoke Review #6.1: Naruto (1st Season, 2002-2003)

OBS: o texto abaixo contém spoilers.

2020 foi um ano tão nostálgico e ao mesmo tempo cheio de surpresas: quem diria que veríamos Felipe Neto cancelado novamente, como nos velhos tempos de 2010? Decidi relembrar minha adolescência e dar uma nova chance ao desenho anime mais amado e odiado de todos os tempos! Ikuzo!

Esse review faz juz ao título de Slowpoke: metade dos meus leitores não era nem nascida quando esta temporada foi ao ar!

Desenhos animados japoneses, ao contrário de seriados, são transmitidos durante um ano inteiro. Além disso, houve episódios duplos especiais para certas ocasiões, especialmente porque, como anime, Naruto foi um sucesso desde o princípio. Portanto, a primeira temporada coberta aqui tem 57 episódios e termina logo antes das partidas decisivas do Chuunin Shiken (o exame que promove os ninjas mirins). As próximas temporadas serão mais curtas, em boa parte porque o anime avança muito mais rápido que o mangá e começa a colocar fillers (episódios que nada agregam à história).

Coletânea da primeira temporada de Naruto lançada em VHS. Zoomers podem apenas sonhar com tal tecnologia!

Apesar de ser um desenho japonês, Naruto ocorre num planeta fictício, onde as nações ainda estão presas no feudalismo e parecem bastante próximas fisicamente umas das outras. O tempo também é difícil de apurar: tecnologias sofisticadas tais quais comunicadores por radiofrequência já estão disponíveis, mas a comunicação ainda é realizada através de pergaminhos enviados por mensageiros. O nível intelectual, sobretudo dos ninjas, é sofisticado: muitos são eruditos, mesmo ainda jovens, e o exame escrito do Chuunin Shiken exige cálculos parabólicos não-determinísticos de crianças de 12 anos.

"Que arrependimento! Eu devia ter estudado mais e postado menos memes de Bhaskara no Facebook!"

Há produtos do Iluminismo por toda parte: homens e mulheres podem ser igualmente ninjas (embora a sociedade ainda seja bastante patriarcal), todos os personagens são alfabetizados (mesmo os mais pobres), há papel-moeda corrente e contratos promissórios, vilarejos prósperos sustentam algum bem-estar social e o dinheiro tem poder significativo, especialmente nesta temporada. Mas o cenário permanece o de um feudalismo japonês balcanizado, com quase nenhuma autodeterminação popular, vários estados suseranos e onde as fronteiras são tão borradas que, num episódio específico, são decididas numa prova de corrida.

O poder hereditário ainda é primordial: quando a nobreza fala, a burguesia abaixa a cabeça.

Uzumaki Naruto (no Japão, o sobrenome vem antes) é um menino órfão cheio de problemas psicológicos por ter crescido num país que, apesar de ser o mais poderoso dentre as potências militares (o País do Fogo), não tinha SUS. Sua cidade natal, Konoha ("folha", em japonês), é o quartel secreto (embora, ao longo da trama, todo mundo consiga achar, entrar e sair numa boa) responsável por produzir a pólvora usada quando acaba a saliva dos lordes feudais. O anime é bem-sucedido desde o princípio porque finge esconder o que é óbvio a todos: Naruto é um bobalhão que vai se tornar um super-herói e provar a todos que estavam errados por julgá-lo precocemente.

Esta, aqui, é uma parte que considero importante na produção cultural infanto-juvenil dos anos 2000: há, na maior parte do tempo, bastante respeito pela inteligência do público infantil que está assistindo. Assim como na saga Harry Potter, onde todos sabíamos que o vilão seria derrotado pelas próprias mãos porque Harry é precioso demais para sujá-las tirando uma vida mas, ainda assim, tivemos um desenrolar cuidadoso e bem justificado da trama, em Naruto também vemos que, evidentemente, o personagem principal é filho do Yondaime (o quarto ninja a liderar Konoha) - especialmente por ter herdado o cabelo louro espetado único -, mas o roteiro faz questão de evitar o confronto direto. Em vez disso, prefere enfatizar a forma como isso acontecerá, que é, realmente, o mistério que prende a atenção do espectador. É um grande salto sobre os demais programas infantis da época, que não fizeram tanto sucesso, justamente por não esconder que o mocinho dará um jeito de ganhar. É claro que, aqui e ali, há uma indireta inevitável como alívio cômico.

Naruto cresce como um pária na própria vila, por ser a criança usada para selar o demônio da Kyubi ("Raposa de Nove Caudas") que destruiu a vila 12 anos atrás, e fracassa na prova da academia ninja, mas o arco da redenção vem logo no primeiro capítulo, quando protege seu professor de um ninja traidor. Os roteiristas aproveitam muito bem o arco: a técnica proibida (mas que depois todo mundo aprende sozinho) Kage Bunshin no Jutsu ("clone das sombras") não só vira a base do estilo único de batalha de Naruto, como passa a representar sua própria personalidade: teimosa, insistente, incansável, repetitiva e imprevisível.

Uma vez integrado ao Time 7, liderado pelo Jounin (ninja de altíssimo nível) Hatake Kakashi, ele rivaliza imediatamente com Uchiha Sasuke, o melhor aluno da turma recém-formada e herdeiro do antigo clã Uchiha, que possuía a Kekkei Genkai (habilidade única hereditária) do Sharingan antes de ser destruído por seu irmão mais velho, Uchiha Itachi. Sua crush, Haruno Sakura, também está no time, mas ela está sempre fazendo o papel enervante de "donzela em perigo". Conseguiria facilmente fechar este review sem falar nela novamente, se quisesse.

É no sexto episódio que começa um dos arcos favoritos de todo fã de Naruto (não estou me incluindo): ao pegar uma missão com detalhes incompletos, o Time 7 vê-se diante de uma batalha de vida ou morte contra Momochi Zabuza, lendário assassino exilado da vila de Kiriga ("névoa", é um dos 5 vilarejos com superpoderio militar) e conhecido como "Demônio da Névoa Oculta"), vencida após estratégia surpreendente de Naruto e colaboração inesperada de Sasuke. Seu fiel escudeiro, o adolescente andrógino Haku, salva-lhe da morte e prepara-lhe para a segunda parte da batalha, já na ponte do País do Chá.

Haku prova-se um oponente ao mesmo tempo feroz e acolhedor. Suas técnicas são cuidadosamente desferidas para lacerar, mas não matar os jovens Genins (ninja inexperiente) presos em sua Kekkei Genkai de espelhos de gelo. A batalha é exasperadoramente longa e dramática, mas reforça a trama da rivalidade entre os jovens ninjas e desperta neles seus poderes únicos: Sasuke aprende a usar o Sharingan para combater Haku e Naruto libera, pela primeira vez, o chakra (a energia espiritual dos ninjas) da Kyubi para derrotá-lo. Kakashi consegue derrotar Zabuza, mas não antes deste último revoltar-se contra seu cliente e assassiná-lo (mostrando, novamente, que dinheiro não tem tanto poder assim no universo de Naruto).

No episódio 20, começa o que muitos consideram o melhor arco da série original (antes do Shippuden, quando o Naruto vira adolescente): o Chunin Shiken. Infelizmente, os roteiristas decidem enfiar um batalhão de personagens nesta hora e o começo é bem enfadonho. O episódio 24, porém, compensa sendo o melhor de toda a temporada: ninjas de todas as vilas utilizando técnicas inéditas para colarem na prova escrita.

Naruto, idiota como sempre, entrega a prova em branco, mas passa mesmo assim. Seu time avança para a segunda fase, onde deve atravessar a Floresta da Morte, derrotar uma equipe inimiga com o pergaminho oposto e apresentar-se na torre central em cinco dias. O desempenho deles é patético, de forma que o único destaque cabe a Orochimaru, um dos três lendários Sannins, que emerge como grande vilão da temporada. Ele assassina um Genin e rouba-lhe a identidade para marcar Sasuke com o Selo Amaldiçoado do Paraíso. Pouco lembrado, mas Orochimaru também sabota o selo da Kyubi no abdômen de Naruto, o que lhe impõe uma deficiência imensa ocultada sob sua personalidade paspalhona. Em seguida, ordena seu fiel escudeiro (ainda disfarçado), Yakushi Kabuto, escoltar o Time 7 até a torre, porque são tão fracos e estúpidos que não conseguiriam sozinhos.

Esta lenga-lenga estende-se até o episódio 39, quando é anunciado que um número anormalmente alto de Genins finalizaram a segunda fase e, portanto, haveria disputas preliminares e aleatórias ocorrendo ali, imediatamente. O que é realmente espantoso é que as batalhas são sorteadas por um computador e anunciadas num telão. No mundo real, gerar sorteios verdadeiramente aleatórios é um dos problemas computacionais mais sofisticados que existem, mas eles são ninjas: usam computadores só para o essencial, pelo visto.

Telão de LED, ainda por cima, numa sociedade que luta contra o escuro à luz de velas.

Sasuke e Naruto vencem suas disputas. Dos personagens recém-introduzidos relevantes: Rock Lee - garoto esquisito cuja única habilidade é o taijutsu (combate físico direto) - é derrotado e desmembrado por Gaara, menino da vila de Suna ("areia") que possui o demônio Shukakku selado dentro de si e está ali em missão para destruir Konoha; Hyuga Neji - portador do kekkei genkai Byakugan (levemente similar ao Sharingan) -, Nara Shikamaru (o mais preguiçoso de todos os ninjas e ironicamente o único que será promovido) e Kankurou (controlador de fantoches da vila de Suna infiltrado com Gaara) também vencem suas batalhas e progridem para a terceira fase do Chunin Shiken.

Kakashi coloca o profissionalismo de lado e prefere treinar Sasuke a Naruto. Para a sorte do protagonista, ele encontra Jiraiya, outro lendário Sannin, que imediatamente reconhece a similaridade com Yondaime, percebe se tratar da criança com o poder da Kyubi e oferece-se para treiná-lo. Jiraiya não somente desfaz a sabotagem de Orochimaru, como lhe ensina a identificar e controlar seus chakras conflitantes, apresenta-lhe o contrato para invocar sapos ninjas e ainda descobre como fazê-lo receber poder da Kyubi para usar em batalha. A temporada termina com Naruto acidentalmente invocando Gamabunta, o sapo ninja supremo e mal-humorado, que lhe acaba tentando assassinar antes de mudar de ideia e deixá-lo carinhosamente ao lado do hospital da vila.

Cena tão importante quanto triste: Naruto era tão solitário que não houve quem lhe apontasse uma tatuagem imensa na barriga.

No final das contas, a primeira temporada de Naruto poderia ter oferecido mais ação e menos drama, mas constrói uma boa fundação para as temporadas futuras. Na minha época de criança, o arco de Zabuza/Haku e o do Chunin Shiken marcaram o tom do que viria a ser o sucessor ideológico de Dragon Ball. Agora, adulto, jamais teria paciência de atravessar tanto tempo de masturbação emocional para ver tão pouca luta realmente acontecendo.

Mas o mundo de 2002, onde lançamentos em VHS ainda eram a norma, é muito diferente do de 2020, com mídias digitais e o maravilhoso VLC Media Player que acelera a reprodução em até 300% sem distorcer o áudio. Eu provavelmente levei mais tempo escrevendo este review que efetivamente assistindo a temporada e, ainda assim, absorvi mais detalhes do que quando criança. A despeito de um roteiro infantil e previsível, já estou assistindo a terceira temporada (sim, vem mais Slowpoke Reviews por aí). A primeira temporada de Naruto, portanto, envelhece como whiskey: ao completar 18 anos, encontra-se paradoxalmente em seu momento mais maduro e também mais tenro.


 

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