Slowpoke Review #4: What Happened to Monday?, 2017

OBS: o texto abaixo contém spoilers.

Este é um filme que aparentemente é a minha cara, considerando que tantas pessoas me indicaram para ver isso. Não sei exatamente o que viram ali que fosse minha cara. Mas vamos adiante!

A única similaridade com a minha cara é a falta de rinoplastia.

O filme é uma ficção científica tradicional (pense em Admirável Mundo Novo e 1984, em vez de 2001: Uma Odisseia No Espaço e Star Trek) em que a superpopulação induziu a adoção da política de filho único no Reino Unido. Os roteiristas tomaram cuidado de colocarem a narrativa no final do século XXI, o que permite todo tipo de liberalidade com traquitanas tecnológicas, mas ainda resguardando a familiaridade com os tempos atuais.

Aliás, para quem se esforçar, tem uma intertextualidade interessante entre O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) e o filme. Em ambos os casos, a protagonista feminina tem como missão principal proteger e resgatar a própria família contra a intrusão de entidades governamentais que tomaram para si a responsabilidade de regularem os direitos reprodutivos alheios em nome do meio ambiente.

A primeira metade do filme é dedicada a explicar como os britânicos viviam em 2073, e também como as múltiplas Karens conseguiram sobreviver ao longo dos anos. Em minha experiência, gêmeos - ainda mais os idênticos - terminam com gostos e valores muito similares, mas aparentemente Daddy conseguiu extrair leite de pedra e criou mais diversidade intelectual que todos os cursos da UFRJ, somados. Pelo visto, o segredo é colocar nomes de dias da semana em cada uma delas.

Nem a Rainha aguenta mais essas irmãs problemáticas.
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O engraçado é que, mesmo depois de 30 anos confinadas debaixo do mesmo teto, as irmãs ainda discutem por bobagens. Imagina só se eu e meus irmãos fôssemos perder as estribeiras toda vez que minha mãe fizesse strogonoff e esquecesse do ketchup, ou do creme de leite, ou da batata frita, ou de cortar a carne em pedaços???

Quando Segunda não retorna do trabalho, as irmãs ficam genuinamente preocupadas e começam a investigar o que está acontecendo. Acaba que descobrimos que o trabalho da Karen é o mais genérico possível, num escritório que sequer descreve a atividade-fim da corporação. Mais à frente, é falado que ela trabalha num banco, mas estou para conhecer um banco em que os funcionários saem de tardinha para tomarem um goró relaxarem.

Rapidamente, o roteiro descortina-se para mostrar Glenn Close numa vilã tão picaresca que me deixou desejando que ela ao menos tenha recebido um gordo cachê pela aparição. Fiquei esperando o filme todo por alguém que tornasse a trama mais instigante, somente para descobrir que escolheram o final mais brega possível: Segunda, a irmã desnaturada em busca do direito a uma identidade para chamar de sua, entregou as irmãs e uma quantia vultosa de dinheiro desviado do tal banco (Silvio Santos deve ser o dono, não é possível) em troca de imunidade à barbárie sentenciada a elas.

Eu também já quis me livrar dos meus irmãos mas sempre fui pão-duro demais para isso. O máximo que já fiz foi copiar o Garfield e tentar despachar meu irmão mais novo para Abu Dhabi.

Não sou um especialista em microeconomia, Karen, mas parece que você entregou sua família inteira e uma poupança maior que a da Kim Kardashian em troca de nada. Nada garante que os futuros governos honrarão este contrato e, assim que os federais rolarem a próxima fase da Carwash Operation, você será a primeira a rodar.

Claro que uma das irmãs consegue adentrar no escritório da agência, gravar toda a armação e hackear remotamente o sistema para divulgar a tal da atrocidade que é queimar crianças a sangue frio. Muito mais humano teria sido congelar crianças a sangue quente, ao que parece. Os personagens ficaram em choque, mas, pelo visto, sou do tipo pedra/terra.

Não há, aqui, uma lição a ser extraída. Parecia que haveria uma mensagem política ali, mas é difícil de encontrar qual, ou então eu que estou me recusando a farejá-la por ser tão superficial. Como entretenimento, é legal para quem estiver lavando a louça e sem internet, mas, como obra de cinema, deve ter feito muita gente incomodada de não dividir a conta do Netflix.

Nessa disputa, a múmia ficou só no cheirinho.

O filme encerra-se com mais uma pilha de clichês e eu me perguntando o que diabos alguém viu naquilo que é a minha cara.

Tags: art review 

 

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