Slowpoke Review #2: Split (2016)

OBS: o texto abaixo contém spoilers.

As pessoas gostam de dizer que lembram de mim ao assistirem este filme, mas sempre fico na dúvida se é pelo ator ou pelo(s) personagem(ns) principal(is). Depois deste review, passei a concordar.

Fragmentado é um filme original disfarçado de sequência. O roteiro é completamente desacoplado da primeira película da série Corpo Fechado, e aposto que muita gente entrou e saiu do cinema sem perceber que estavam conectadas de alguma forma. Bruce Willis aparece ao final, para amarrar ambos os filmes bastante preguiçosamente com algum vulto de intertextualidade, mas, sejamos honestos, os únicos a notarem foram os editores da Wikipédia que precisam manter a filmografia dele atualizada. A cena, como um todo, poderia ter sido deslocada para o derradeiro episódio da trilogia, Glass (2019). Mas isso fica para a próxima (literalmente). Por ora, foco somente em Fragmentado.

Por incrível que pareça, este é o tipo de filme que eu mais abomino: de suspense (não dá para chamar de terror, francamente) com roteiro girando completamente em torno de um único ator. Essa fórmula funciona para filmes dramáticos, como as biografias, e mesmo eles evitam abusar do recurso. O motivo é que todo filme depende do trabalho conjunto e coordenado de centenas de profissionais (diretores [sim, são vários], atores, cenografistas, maquiadores, figurinistas, músicos, etc) para ficar pronto, mas passa a depender somente daquele ator para conseguir sucesso de público e de crítica.

Fez uma montagem fantástica e está esperando o Oscar? Seria uma pena se a atriz principal estragasse tudo...

O caso de Fragmentado conseguia me incomodar ainda mais porque o ator principal não terá que desempenhar somente um personagem, mas o imenso total de quinze (embora 24 personalidades habitem o corpo de Kevin Wendell Crumb, nem todas elas recebem tempo de tela ou sobreviveram à edição). É claro que a direção deu uma colher de chá e permitiu uma ou outra costura entre as cenas, mas muitos dos takes foram feitos continuamente e, aliás, usando apenas uma câmera.

Um outro ponto de incômodo é que, embora tenham personalidades e experiências de vida vastamente diferentes, os personagens não apenas compartilham o mesmo corpo, como também não dispõem de nenhum protocolo para passarem o bastão. Em algumas das cenas, não há sequer troca de roupa durante a transição.

Quando li a sinopse, já no token do cinema, minhas palavras foram “este é o tipo de filme fadado ao fracasso, a não ser que o ator principal seja espetacular”. O problema - sim, problema mesmo - é que se concretizou. James McAvoy mostrou que aprendeu bem com a Bruna Surfistinha e aparece na telona para distribuir uma performance que é dinâmica mas surpreendentemente profunda.

Bastam dez minutos de filme para saber que a primeira das personalidades a aparecer, o Dennis, é um pedófilo em remissão com transtorno obsessivo-compulsivo que é mais forte e mais obstinado que as demais. Já li livros completos em que os personagens não conseguiam ter tamanha profundidade e a autora precisa ficar liberando remendos no Twitter.

E isso tudo sem que a palavra “pedófilo” apareça no script: a violência em foco no filme é outra. Dennis também precisa ser minimamente carismático, já que é ele que virá a liderar a revolução dos puros. O restante do filme ajuda a construir a imagem do homem diligente que faz o que precisa ser feito, mas ela já está pronta antes da primeira ida ao banheiro dos limitados em bexiga.

Toma um litro inteiro de refrigerante, sim! Não vai atrapalhar o filme, não, pode confiar!

A transformação de uma personalidade para a outra é brusca apenas para parecer impactante, porque, na prática, McAvoy não tem dificuldades de fazer o espectador perceber quem está no comando do corpo do Kevin. Dennis fala com firmeza, num tom grave e sempre na companhia da testa franzida. Patricia é suave e educada, exceto quando é contrariada e exibe uma raiva explosiva. Hedwig tem a língua presa e fala num tom que imediatamente remete a uma criança: é comum quem está assistindo perguntar-se se é uma criança antes que Casey Cooke (personagem de Anya Taylor-Joy) pergunte-lhe a idade. Kevin estranhamente é a personalidade que exibe lucidez, autocontrole e algum semblante de satisfação de habitar aquele corpo. Alternar entre elas não requer nenhum efeito especial, e, por vezes, isto acontece somente para que McAvoy esfregue o próprio talento na cara de quem estiver de plateia.

Assista com o áudio original. Nenhuma dublagem consegue reproduzir a genialidade interpretativa dos diálogos.

Enquanto tudo isso acontece, umas personagens irrelevantes para dar tempo do McAvoy trocar de figurino. Fica claro o tempo todo que Casey será a única a sobreviver disso tudo, e o mecanismo não é muito imprevisível. Taylor-Joy tem uma performance no limite inferior do aceitável e, talvez por isso, foi a única a reaparecer no último filme, além do trio de protagonistas. Sua personagem também encabeça os diálogos que tornam Hedwig um personagem da mais alta relevância ao script, impedindo que ele se tornasse somente combustível de alívio cômico.

A conclusão do filme é atada de um jeito um tanto quanto mambembe, mas preste atenção quando assistir, visto que vários destes detalhes serão resgatados em Glass e sem flashbacks para ajudar.

Ainda assim, este é um filme inesquecível cujo encerramento apenas reforça o que todos já sabiam depois dos primeiros 20 minutos de luzes apagadas: Fragmentado é o show solo de James McAvoy. E que show.

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