Slowking Review #5.3: Mad Men, 2007-2015

OBS: o texto abaixo contém spoilers.

Pouca gente sabe disso, mas Comunicação Social era minha primeira opção de vestibular no ensino médio. Mad Men: Inventando Verdades (no original em inglês, apenas Mad Men) foi um divisor de águas. É mais que um seriado sobre publicidade, é uma narrativa poderosa sobre a busca da felicidade: ninguém em Mad Men é feliz. É por isso que este review será um pouco diferente dos anteriores: entendê-la exige muito do contexto histórico do período (é, afinal, uma peça de propaganda fidedigna dos anos 60), da época em que foi gravada e da fase da vida que eu estava vivendo. Por conta disso, este review terá três partes:

  1. Contexto

  2. Narrativa

  3. Conclusão (você está aqui)

Parabéns e meus agradecimentos a quem chegou até aqui! Foi um jornada longa, e provavelmente a sequência de textos mais longa que já produzi para a internet. O colírio para os olhos cansados está logo adiante, com a belíssima fotografia de Mad Men no centro da moldura.

Conclusão

Nas seções anteriores, espero ter despertado seu interesse por Mad Men através da fidelidade histórica com que uma narrativa elaborada, verossímil e cativante é construída na cidade de Nova Iorque durante os "anos dourados". Mas, talvez, você não tenha sentido ainda o desejo de assisti-la, e eu não lhe culpo por isso: o fato de Mad Men ser uma estória que vale a pena ser contada não significa que ela deva ser contada através de um seriado com 7 (haters dirão que 8) temporadas de episódios com uma hora de duração. Talvez, como eu, você prefira que este tipo de produção cultural escrito em páginas de livros, ou talvez prefira esperar a adaptação para o cinema. Um amigo, certa feita, fez-me uma citação (provavelmente roubada de alguém famoso, mas nunca descobri o verdadeiro autor) que guardo com carinho desde então:

A arte é o que faz a vida valer a pena.

É por isso que, nesta conclusão, vou direcionar minha atenção não só às conclusões pessoais, mas especialmente ao que torna Mad Men uma obra de arte.

Don, após comprar um Cadillac novinho à vista e levar sua família para uma tarde ensolarada no parque local, faz um piquenique e larga os detritos para trás. Mas respire fundo e deixe seus olhos vagarem pela fotografia enquanto o sentimento de revolta aquiesce-se. Observe a harmonia tão perfeita quanto silenciosa entre a toalha, a canga e o vestido de Betty: não parecem até feitos do mesmo tecido? É como se fossem feitos um para o outro: a mulher, a família e o cuidado doméstico. Repare o gramado, cuja aparação é tão eficiente que suscita a noção de "ordem", e como ele se contrasta com as folhas caídas e ressecadas sobre o solo, que denotam "desapego". Concentre-se, ainda, em como os pedaços visíveis do céu e o reflexo intenso da luz solar no gramado formam a impressão de um dia bastante ensolarado - que muitos chamariam de "um dia lindo lá fora" -, mas não há superfícies super-expostas ou com reflexos incômodos, embora haja superfícies metálicas, vidros e até espelhos expostos na cena. De fato, é uma cena tão perfeita e relaxante que, mesmo com o erro flagrante e absurdo de emporcalhar o patrimônio público, somos tentados a perdoar, a justificar, a normalizar. Em outras palavras, um resumo perfeito dos anos 60: só parecem lindos quando examinados à distância.

Como diria o ditado famoso (pelo menos na língua inglesa), o diabo está nos detalhes, e é particularmente neles que Mad Men brilha com mais exuberância. Se o roteiro e o elenco mantêm sua atenção presa, certamente não é pela discrição da direção de arte, pela qual o programa recebeu tantos ou até mais prêmios que os demais setores da produção. Há um filtro dourado que concede ao vídeo o tom equilibradamente nostálgico e tradicional que o seriado busca criticar o tempo todo. Em tomadas externas, o filtro facilita o ajuste fino do contraste dinâmico (façam valer os R$45,90 da assinatura da Netflix e liguem o HDR+), mas e no escritório, onde se passa a maior parte do seriado? Sem problemas também: os móveis de madeira, os aparelhos em tons cinza-metálicos e os matizes pastéis nas paredes e cortinas evitam o esmaecimento das cenas. Pelo contrário: o uso de uma paleta de cores surpreendentemente variada promovem familiaridade e aproximam o espectador do contexto. Personagens vestem-se com as mesmas cores quando formam um coletivo - especialmente no figurino da figuração -, mas suas personalidades são marcadas com cores distintas e bem-definidas.

É um hotel? É um escritório? É uma sala de espera? Quem se importa? O conforto serviria a qualquer uma das opções. A imagem mostra uma legenda e três personagens de boca fechada - foi propositado -, mas não há dúvidas de quem está falando. Observe com paciência as cores das paredes, dos enfeites e do carpete, e olhe novamente para os personagens: o dono do espaço deve ser fácil de reconhecer mesmo sem saber do que se trata. A direção de arte constrói uma moldura sólida para o elenco brilhar: Don é assertivo, Ken é simpático e o cliente é exigente, e sabemos disso sem que precisem mover um só músculo.
Pau que dá em Chico dá com mais força em Francisca: a harmonia estética é mantida entre os ambientes, e deve permanecer assim a todo custo. Para quebrá-la, a personagem precisa demonstrar apetite pela destruição: de tabus, de estereótipos, de tradições e de obstáculos. Don escuta atrás da porta porque enxerga os mesmos detalhes que nós: do alto do salto, Peggy toma o foco para si, coloca as asinhas (e as penas) de fora e flexiona a polissemia de "sobretudo". A apresentação ainda nem começou, mas tanto nós, espectadores, como eles, clientes, já estão sentados: pode começar, Peggy, estamos prontos para sermos tombados.

Minha escolha preferencial por quadros panorâmicos é majoritariamente pessoal: Mad Men é uma produção multicameral e, frequentemente, utiliza mais câmeras que personagens nas tomadas. A escolha entre câmera única e múltipla geralmente depende somente do orçamento, já que a adição de câmeras facilita a construção dos personagens. Na seção anterior do review, mostrei diversas tomadas em sequência onde close-ins são rapidamente sincronizados com a enfatização do personagem para a cena. Eu poderia adicionar mais dezenas de exemplos aqui, mas, se as variações chamaram-lhe a atenção, talvez esse seja o principal motivo para colocar Mad Men na sua lista de reprodução imediatamente: esta é uma produção que explora o que há de melhor nos recursos televisivos que o cinema e a literatura não serão capazes de lhe oferecer.

Por exemplo, provavelmente quem chegou até aqui deve ter se perguntado, em algum momento, onde estão a profusão de cores que marcou a estética lisérgica dos anos 60. De fato, há um episódio inteiro dedicado à exploração de sinestesias e experiências policromáticas pelo LSD, quando Roger Sterling e sua segunda esposa decidem fazer terapia de casal (sim: LSD e outros alucinógenos eram prescrições frequentes para este fim). Mas Mad Men não a deixa de lado em seu enredo principal. O que acontece é que este movimento surge primeiro do outro lado do Atlântico, que, apesar de ter alcançado Madison Avenue ainda nas primeiras temporadas, desembarca somente seus representantes mais conservadores. Nova Iorque, ao longo de todo o programa, é muito bem estabelecida como uma cidade de oportunidades de negócios e não de experiências culturais e/ou espirituais.

Os móveis e as paredes estão cobertos de madeira, papéis de parede padronizados e tintas pastelizadas. O público atende ao evento noturno com tons escuros, que se mesclam facilmente na figuração e são difíceis de distinguir sob a luz fraca do ambiente. No entanto, tudo nesta cena projeta suntuosidade, ostentação, riqueza, exuberância. Os "anos dourados" em Nova Iorque são descontados em espécie.

Somente no outro lado do continente, em Los Angeles, quando a Sterling Cooper SCDP SCDPCGC SC&P estabelece uma filial para lidar com os clientes da costa oeste (em especial, a Sunkist), é que Mad Men exibe um leque mais amplo de colorações, embora o filtro dourado permaneça presente e fique mais visível do que nunca.

"You could travel the world but nothing comes close to the golden coast."

A transformação geográfica não muda só a decoração dos ambientes: a transformação do espaço e principalmente do tempo é bem marcada em Mad Men, que não comete os erros típicos de "Chaves" ("El Chavo del Ocho", Televisa/1973-1980). Os personagens envelhecem de forma notável e compatível com as escolhas de vida e os sucessos (ou infortúnios) que fizeram ao longo da produção.

Meu exemplo favorito é, sem sombra de dúvidas, o de Pete Campbell: filho único de uma família rica tradicional, encontra sucesso dramático na publicidade, onde seu charme para com homens mais velhos e suas conexões interpessoais revelam-se indispensáveis para o crescimento da firma. No início de Mad Men, sua juventude exuberante é atraente para a maioria das mulheres do escritório, bem como para sua esposa, também filha única de uma família rica. Apesar disso, Pete nunca está satisfeito com as próprias conquistas, e cada êxito deixa-lhe apenas um gosto amargo de não ter obtido ainda tudo o que deseja. A decadência de seus valores morais é imediatamente refletida na aparência de seu personagem, cuja coluna torna-se progressivamente mais curvada; seus ombros, cada vez caídos; sua voz, sutilmente mais rouca; e, provavelmente o mais óbvio, sua calvície tornando-se rapidamente mais pronunciada.

Pete em três momentos: analista comercial na Sterling Cooper (1959); sócio-júnior na SCDP (c. 1967); e diretor comercial na SC&P (subsidiária da McCann-Erickson, c. 1970).

Mad Men, portanto, atinge a excelência em basicamente todos os critérios conhecidos pela humanidade por mim. Assisti-lo durante a pandemia faz os anos 2020 parecerem um pouco menos doentes em comparação, e deixou-me paradoxalmente saudosista da época em que vivemos, onde críticas políticas ácidas podem ser amarradas concisamente num seriado dramático e tecnicamente impecável para pronta distribuição.

O público e a crítica foram ágeis em lhe darem o devido reconhecimento: foram, ao todo, 8 premiações do Emmy (4 delas por "Melhor Série Dramática", um recorde à época) e outras 56 nomeações, além de 5 Globos de Ouro (3 delas por "Melhor Série Televisiva Dramática"). A direção de arte foi indicada todos os anos, o que deu a Mad Men o recorde de maior número de indicações no mesmo ano sem vencer em nenhuma categoria (2012).

Nos anos seguintes, a AMC (emissora do programa) reorganizou sua estratégia em torno de seriados dramáticos scriptados. Em particular, The Walking Dead (2010-presente) tornou-se tão popular que forçou canais de TV aberta a trocarem horários de suas programações originais, para evitar a competição.

A reorganização envolveu até mudanças na logomarca. O novo slogan ("Aqui o Roteiro Importa") é uma cutucada na concorrência que produz reality shows.

A esta altura do campeonato, o resultado do review é uma mera tecnicalidade. Mad Men acerta o equilíbrio perfeito entre arte e realidade, entre fantasia e verossimilhança, e entre rigor e entretenimento. Ao contrário de Fragmentado ("Split", 2016), onde James McAvoy carrega a trama nas costas, Mad Men combina bem os esforços do elenco, da produção, do roteiro e da direção para construir uma obra sem arestas a serem aparadas.

Mad Men: Inventando Verdades (Mad Men, 2007-2015)

  1. Contexto

  2. Narrativa

  3. Conclusão (você está aqui)


 

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