Reposições de aula no Pré-Universitário (parte 1: contexto e aquisição)

Ao longo das duas últimas semanas, tenho recuperado, aos poucos, meu amor pela estatística e pela ciência da informação. Em especial, o dinamismo dos dados só se rivaliza com o da web, mas com a vantagem de cada análise bem-sucedida ser acompanhada pelo prazer da descoberta. Desta vez, surgiu a oportunidade de aplicar estatística computacional a um problema real e de grande complexidade (mas com baixo risco, tornando-o ideal para a experimentação). Esta será uma série bastante detalhada e, por isso, será dividida em várias postagens.

Parte 1: Contexto & Aquisição

Parte 2: Execução

Parte 3: Análise das perguntas objetivas

Parte 4: Análise docente e perguntas subjetivas

Parte 5: Conclusões

Contexto

Há alguns meses, uma sequência improvável de eventualidades obrigou-nos a cancelar aulas do Pré-Universitário Comunitário Rubem Alves em cima da hora. Embora o planejamento da coordenação já previsse esta possibilidade, as equipes de algumas disciplinas conseguiram ser pegas de surpresa e imediatamente consultaram a possibilidade de reposição. Como Coordenador Pedagógico, a decisão de marcar ou negar aulas de reposição cai sobre meu colo.

Como as aulas ocorrem regularmente aos sábados, de 08:00 às 18:00, os horários disponíveis à reposição são os domingos não-letivos (cada vez mais concorridos) e o horário do almoço, que requer uma logística cansativa e prejudicial ao ambiente de ensino. A maioria dos estudantes é adolescente e/ou trabalha durante a semana, de forma que sua energia, concentração e paciência - necessárias ao aprendizado - são recursos preciosos justamente por sua escassez. As aulas de domingo também têm frequência reduzida (cerca de 50% menor que a das aulas de sábado) e causam um custo adicional ao Projeto de R$150 (auxílio-alimentação).

Em busca da informação necessária à tomada de decisão, o primeiro passo foi, naturalmente, perguntar aos professores o que achavam da proposta. Com exceção das equipes que solicitaram reposição, o corpo docente foi esmagadoramente contra ou indiferente à sugestão. A análise do retorno dos voluntários será revelada na próxima postagem.

Aquisição

Em seguida, fui perguntar aos alunos o que achavam. Porém, o corpo discente conta com diversas peculiaridades em relação ao docente:

  1. Os alunos frequentemente são incapazes de avaliar se necessitam ou não de reposição de aula por não conhecerem a extensão da carga de conteúdo;
  2. O aluno, particularmente o adolescente, tende a generalizar experiências pessoais, de forma a achar que o grupo também necessita de reposição por ele necessitar;
  3. A heterogeneidade do corpo discente promove distorções típicas da democracia representativa, onde a retórica, a eloquência, a insistência e a pressão coletiva sobrepujam a racionalidade, a discussão, a análise e o direito à individualidade.

Portanto, mês passado, pedi a meus alunos que respondessem a um questionário curto, simples, feito através do Google Formulários. Todas as respostas foram completamente anônimas. A pesquisa foi projetada para ser respondida em menos de dez minutos e continha estas perguntas:

  1. Este ano, tivemos duas aulas de sábado canceladas por problemas externos. Do seu ponto de vista, o quanto estes cancelamentos estão prejudicando o andamento das disciplinas de sábado?
    1. Esta pergunta visa entender se o aluno sente-se a par com as próprias expectativas em relação aos estudos.
    2. As disciplinas de sábado são Biologia, Física, Geografia, História, Língua Portuguesa, Literatura, Matemática, Redação e Química.
    3. As respostas eram numeradas de zero ("em nada") a seis ("em tudo").
  2. Quais disciplinas você acredita estarem mais afetadas, e por quê?
  3. Também tivemos dois cancelamentos de aulas de domingo, sendo uma delas reposta no horário que seria destinado às monitorias. Do seu ponto de vista, o quanto estes cancelamentos estão prejudicando o andamento das disciplinas de domingo?
    1. Esta pergunta visa entender se o aluno sente-se a par com as próprias expectativas em relação aos estudos.
    2. As disciplinas de domingo são Filosofia, Sociologia, Língua Inglesa e Língua Espanhola.
    3. As respostas eram numeradas de zero ("em nada") a seis ("em tudo").
  4. Quais disciplinas você acredita estarem mais afetadas, e por quê?
  5. O que você achou das aulas de domingo serem repostas aos sábados, no horário que seria destinado às monitorias?
  6. Se as aulas tiverem de ser repostas aos domingos, qual a probabilidade de você comparecer?
    1. Esta pergunta foi concebida com dois objetivos em mente: primeiro, compreender a mentalidade do aluno que comparece às aulas de domingo; segundo, verificar a viabilidade de atividades de grande porte aos domingos, mesmo que não haja reposição.
    2. As respostas eram numeradas de zero ("nenhuma") a seis ("100%").
  7. Obrigado pela participação. Utilize este espaço para dúvidas, reclamações, elogios, sugestões e/ou críticas.

As perguntas em negrito são as questões objetivas, cuja análise pode ser realizada com métodos estatísticos tradicionais, como a regressão linear e a k-clusterização. Por hoje, entretanto, paro por aqui. O problema é extenso e complexo e descrever todas as suas soluções num único dia seria impraticável. O experimento prossegue com a Execução, que estará online amanhã à noite já está no ar. Até a próxima!

Tags: reposições 

 

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