Pack Your Shit and Leave: Ghosts from the past

O texto de hoje é uma reflexão sobre esta pergunta feita no The Workplace. Vou fazer um resumo em português abaixo. Há considerações técnicas que farei conforme a necessidade, mas este não é um texto técnico

Contexto

Sou uma formanda de Engenharia de Software e, há um ano, trabalho como voluntária nesta organização. De imediato, percebi que havia muitos problemas de TI¹ e ofereci-me para ajudá-los, o que eles prontamente aceitaram. Um dos problemas, porém, permaneceu: a administração girava em torno de uma planilha do Excel compartilhada por email várias vezes ao dia. Ofereci-me para substitui-la por um aplicativo web², explicando que ainda sou uma estudante e trabalhadora em tempo integral, e que o aplicativo poderia demorar anos para ficar pronto.

Ao longo do último ano, aprendi várias tecnologias e habilidades construindo este aplicativo e configurando o servidor. O coordenador agora quer também um site institucional³ e, para isso, chamou seu amigo, Steve, para me ajudar a integrar os dois serviços.

O problema

O coordenador concedeu a Steve acesso ao servidor - desnecessário, na minha opinião - e, aparentemente, ele cancelou a assinatura, redirecionando o domínio4 para seu próprio servidor. Todo o meu trabalho foi por água abaixo. Ele não se comunica comigo e não consigo marcar reuniões com a direção.

O aplicativo web está bastante avançado, mas não possui uma visualização5. Enquanto isso, o coordenador está em êxtase com o site de Steve e sugeriu-me que tenho muito a aprender com ele. 

O que fazer?

Eu gostaria de convencer o coordenador ou o restante dos voluntários de que Steve está sabotando meu trabalho, mas nenhum deles têm conhecimento técnico suficiente. A maioria julga Steve um profissional muito mais competente do que eu. Não quero abandoná-los pois precisam da minha ajuda, mas eu gostaria de deixar esta fonte permanente de estresse para trás. Como posso recuperar minha credibilidade e convencê-los de que Steve está ativamente sabotando meu trabalho?6

Notas

¹Infraestrutura de tecnologia (computadores, monitores, teclados, etc).
²Programa de computador que roda através de um site, como o Google Docs.
³Site que possui apenas informações e não oferece serviços.
4Endereço do site usado por navegadores e seres humanos, como ramonmelo.me.
5Interface por onde usuários enxergam e utilizam um programa de computador. Alguns programas são utilizados somente por outros programas, por isso não precisam de uma visualização.
6Esta frase foi traduzida literalmente do original. O negrito foi opção da própria autora. 

 Sou eu novamente. As respostas que ela recebeu dividem-se entre:

  1. "ninguém mandou fazer um aplicativo sem visualização": um argumento claramente leigo, já que muitos programas de computador não possuem visualização e não deixam de ser populares por causa disso. Por exemplo, de três em três meses eu preciso renovar o certificado SSL do site via Let's Encrypt, que tem milhões de usuários, e uso um script automatizado para isso. O programa não precisa de visualização porque o script que o opera não tem olhos para enxergar a resposta. 
  2. "engole o orgulho e aprende com a situação": parece haver um incômodo com o tom empregado pela jovem engenheira na pergunta, mas este argumento é falacioso. O tom que ela usou não afeta a qualidade do trabalho dela, que deveria ser o único critério de avaliação de sua competência profissional.
  3. "você tem um problema de gerenciamento de projeto": esta resposta é tão verdadeira quanto inútil. É evidente que o projeto fracassou por mau gerenciamento, porque boa administração é aquela que entrega resultados, e a moça simplesmente não entregou nada.

Eu não respondi, porque não tenho nenhuma informação útil a oferecer a ela. Infelizmente, a jovem estudante foi vítima de pragas que tristemente afligem muitos ambientes profissionais, particularmente os de cunho social: a Mediocridade, Impunidade e Negligência

Por se tratar de uma organização onde todos os funcionários eram voluntários, não há a expectativa de que nenhum deles realmente ofereça o que há de melhor de si mesmo ao trabalho. No vocabulário das ONGs, trabalho voluntário é aquele que a pessoa sente disposição em fazer, independentemente de existir a necessidade daquele trabalho. É por isso, portanto, que a deixaram trabalhar por um ano inteiro sem nenhuma assistência. Produtividade, neste contexto, cede lugar para o passatempo de estar ocupado: enquanto ela está distraída e satisfeita, o coordenador sente que está desempenhando um bom trabalho como administrador. 

Ela reclama de sabotagem, e com razão, mas se engana sobre a autoria. A jovem engenheira, dedicada, estava fadada a fracassar desde o início. A planilha do Excel que ela julgava uma abominação (e é mesmo) servia a um propósito bastante claro na instituição. Ao tornar o trabalho complicado, irrastreável e pouco produtivo, a administração consegue manter dezenas de colaboradores ocupados com pouca quantidade de trabalho, ao mesmo tempo em que impede que erros e decisões ruins sejam identificados e traçados de volta aos responsáveis. O trabalho da moça é uma ameaça direta ao funcionamento da organização, porque qualquer base de dados minimamente planejada grava horários, nomes de usuários e senhas. Tarefas de baixa complexidade poderiam ser automatizadas e completamente eliminadas, o que provocaria a mudança de função de muitos dos envolvidos no processo, que talvez não se adaptassem à mudança e decidissem simplesmente sair.

A automação, portanto, é inimiga e não ferramenta da administração. Como escreveu George Orwell em um dos meus livros favoritos, 1984 (tradução minha):

Do momento em que a máquina realizou sua primeira aparição, ficou claro para todos os seres humanos pensantes que a necessidade do trabalho maçante, e portanto a desigualdade humana, havia desaparecido. (...) E de fato, sem ser usada por qualquer propósito, mas por algum tipo de processo automático - produzindo riqueza que às vezes é impossível de impedir a distribuição -, a máquina realmente aumentou intensamente o padrão de vida do ser humano médio (...). Porém, também ficou claro que um aumento generalizado da riqueza ameaçava a destruição - aliás, de certa forma era a própria destruição - de uma sociedade hierárquica. 

Não quero, com isso, livrá-la da responsabilidade sobre os próprios erros. Como engenheira de software, certamente deve ter sido apresentada ao conceito de design centrado no usuário, que claramente define que programas de computador precisam ser produzidos com a ajuda direta do usuário final. Desenvolver um software começa pelo usuário e não pelo engenheiro. A abordagem de esconder o aplicativo dos demais voluntários por um ano inteiro foi um erro grosseiro, porque o trabalho que não é visto é considerado inexistente.

Contudo, este relacionamento deveria ser uma via de mão dupla e o fato de que o coordenador não se preocupou em lhe cobrar uma visualização mostra apenas o total desinteresse dele em ver o projeto concluído. Quando ele desejou ver um projeto de tecnologia concluído com sucesso rapidamente, foi ao amigo de longa data que recorreu, a despeito de ter uma engenheira de software já integrada à equipe há um ano inteiro. 

É uma pena que ela tenha descoberto desta forma, mas os voluntários ali não estão dispostos a mudar o próprio trabalho, mesmo que seja para o tornar mais produtivo. O único propósito deles é manter o status quo exatamente do jeito que está, completamente imerso na Mediocridade, Impunidade e Negligência. É nobre que ela se identifique com uma causa a ponto de lhe dedicar tempo que lhe parece bastante precioso - afinal, a moça trabalha e termina a faculdade ao mesmo tempo em que se voluntaria na organização e ainda desenvolve um aplicativo para ela -, e ainda mais nobre que esteja interessada em estudar e colocar em prática novas tecnologias, mas a instituição não está interessada nos talentos dela. Infelizmente, a forma como esta situação desenvolveu-se demonstra que, ali, não há espaço para ela florescer, e chegou o momento de sair. Não há o que adiar: a porta da rua é a serventia da casa


 

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