Monday Cancel Culture (episode XXXIV)

2020 passou mais devagar que o Ramal Deodoro da Supervia. Parece que foi há vinte anos que "cultura do cancelamento" foi escolhida como a "palavra do ano", mas na verdade foi só em 2019. Não tem dia melhor para cancelar que segunda-feira, então aperta os cintos e sobe a tag porque #segundou

Já faz dois meses desde que escrevi minha última coluna de segunda, mas, na selva de pedra, o lema da sobrevivência é cancelar ou ser cancelado. Se esse blog ainda está de pé, é porque estou fora do alcance do Zuckerberg comportei-me direitinho neste fim de ano. Até obedeci ao que as pessoas decidiram chamar de "isolamento social" (eu chamo de "minha vida normal"). Mas, fora da minha bolha, os cancelamentos foram disparados a torto e a direito. Na maior parte das vezes, tive até que perguntar aos transeuntes digitais o que ou por que estavam cancelando aquilo, mas, muitas vezes, nem eles sabiam direito.

"Eu posso não saber por que estou cancelando, mas ele sabe por que está sendo cancelado!"

Fiz um resumo curto para quem estiver se sentindo nostálgico. Está em ordem cronológica porque sou boomer desantenado com essas traquitanas e não sei nem diferenciar um anônimo de um ex-BBB. Fiquei até espantado em descobrir que tem diferença! Lá vamos nós!

O cancelamento do cancelamento do (ex-MC) Biel

Esse personagem não é inédito neste blog: já havia sido cancelado em 2017. O que me pegou de surpresa mesmo é ele ter sido o primeiro da lista dos recomeços a conseguir, efetivamente, recomeçar. Principalmente porque não parece nem ter tentado muito.

Para quem não assiste TV, como eu, a breve história é que ele foi convidado a um reality show na TV Record que, promovendo um catártico confinamento social dentro do país que está em confinamento social, conseguiu a maior audiência em dez anos e assumiu a liderança no mercado televisivo

O programa começou em setembro e durou três meses. Biel venceu todas as votações que disputou, mesmo tendo até sua esposa como detratora, e terminou em segundo lugar. Pode não ter levado o prêmio máximo de um milhão e meio de reais, mas saiu com um carro 0km e R$10 mil adicionais ao cachê que todos os participantes recebem, que começa em R$70 mil. Valeu a pena o #FiqueEmCasa!

Nubank (e sua fundadora, Cristina Junqueira)

Este foi um dos meus cancelamentos favoritos! O Nubank foi meu quarto cartão de crédito, lá pelos idos de 2014, e o segundo que não cobrava anuidade. Para mim, o diferencial era ser o único MasterCard Platinum gratuito, que incluía benefícios como seguro automático contra fraudes e descontos em passagens aéreas. Durou pouco: logo, o Nubank passou a emitir somente cartões Gold e o diferencial passou a ser o aplicativo, a análise leniente de crédito (quem mais daria R$5 mil de limite a universitários?) e, logicamente, o marketing.

Foi justamente neste último que sua fundadora escorregou. Em entrevista claramente patrocinada ao vivo, na TV aberta, em 21 de outubro, Cristina abusou da autoconfiança e afirmou que "não dá para nivelar por baixo" para justificar a baixa diversidade étnica nos cargos de liderança do banco. Os tweets de roxinhos picados vieram rapidamente, mas tenho minhas dúvidas se eram mesmo reais.

A empresa, contudo, pareceu levar a sério: os usuários foram bombardeados de e-mails de desculpas e instituiu até uma diretoria de diversidade e inclusão. Teve gente descontente com isto a ponto de cancelar o cartão também. Não dá para agradar a gregos e troianos, mas dá para irritar ambos.

Instituto IBOPE de Pesquisas

Novembro foi um mês conturbado por eleições presidenciais nos EUA e municipais no Brasil. A memória do brasileiro, infelizmente, é curta e você que está lendo isso provavelmente já nem se recorda de quem recebeu seu voto para vereador. No fim das contas, todos os partidos declaram-se "o grande vencedor" das urnas e não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.

Mas houve, sim, um cancelamento que doeu no bolso. Os erros constantes e tendenciosos dos levantamentos de intenção de voto afetaram o outrora mais importante instituto de pesquisas do País: todas as bocas-de-urna do segundo turno foram suspensas por "motivos indeterminados" (todo mundo sabe que isso significa falta de dinheiro) e o CEO teve de vir a público desculpar-se pessoalmente pelos erros anteriores. A companhia provavelmente precisará de uma limpeza de imagem, já que o meme jocoso da "margem de erro do IBOPE" já está entranhada na cultura popular brasileira. 

Felipe Neto

Este provavelmente foi o acontecimento mais inesperado do ano que parecia prestes a acabar. Felipe Neto teve um ano bastante prolífico por conta da pandemia. Com mais pessoas em casa, o YouTube foi uma das marcas de maior valorização em 2020, dobrando o número de visualizações, e certamente beneficiou ainda mais os criadores de conteúdo para jovens em idade escolar, após o fechamento dos colégios. Felipe Neto teve até o insight de investir mais em outros segmentos, como transmissão de videogames ao vivo, futebol profissional e, eventualmente, política.

Com a polarização em torno da política de isolamento social, Felipe saiu em defesa ferrenha da campanha #FiqueEmCasa e criou inúmeros desafetos por conta disto. Mas foi no apagar das luzes de 2020, mais exatamente no dia 28 de dezembro, que viralizou nas redes o vídeo dele jogando futebol com os amigos num campo gramado.

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Felipe Neto foi ágil em tecer desculpas e até mesmo em costurar uma defesa tangível, mas o delator já havia preparado o contragolpe: Felipe Neto saía para jogar futebol com os amigos frequentemente, inclusive em meio às eleições, quando promoveu eventos virtuais justamente sob o pretexto de evitar aglomerações. A mentira estava inexoravelmente exposta.

A liberação gradual das provas sugere premeditação. O fotógrafo parece ter tentado evitar efeitos eleitorais.

Num movimento paradoxal, visto o grande entendimento do goleiro amador sobre as dinâmicas das redes sociais, Felipe Neto começou a derrubar os vídeos sob alegação de direitos autorais, o que provocou o fenômeno conhecido como "efeito Barbra Streisand". Eventualmente, até jornais, revistas e emissoras de TV viram-se na oportunidade de levantar tochas e fechar o ano com chave de ouro. 

Conclusão

Andy Warhol, o famoso artista plástico do século XX, costumava dizer que, no futuro, "todos teriam seus quinze minutos de fama". Faltou avisar que eles seriam interrompidos com o grosso calibre do cancelamento.

O uso excessivo do ardil, no entanto, está desgastando sua efetividade. Há um excesso de informação sendo bombardeado sobre todos nós a todo instante. É impossível acompanhar os cancelamentos e os descancelamentos e, sem efeitos duradouros, servem apenas como entretenimento. A pandemia substituiu o "espetáculo do crescimento" pelo "espetáculo do cancelamento" e, veja só: no Circo Brasil, nem sempre são os espectadores que dão as risadas. Até a próxima!


 

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