Just finished Black Mirror

Chegou o dia em que finalmente terminei de assistir a última temporada de Black Mirror. Provavelmente ninguém mais se importa, para ser sincero. Eu também, não. Mas agora já assisti, então vamos que vamos.

Para quem não conhece, Black Mirror surgiu como uma minissérie britânica que examinava possibilidades tenebrosamente satíricas da realidade face a algum avanço tecnológico. Não é um tema inédito. Muito pelo contrário, talvez seja mais antigo que a própria Humanidade: os animais também temiam o fogo, afinal. O temor ficou mais intenso com a Revolução Industrial, que ameaçava a sociedade com o desemprego, a alta velocidade (sim, os ingleses achavam que morreriam por estarem a 60km/h), e a iluminação noturna; acalmou no século XIX, com o positivismo, mas depois retornou novamente, com a invenção dos aviões militares e das bombas atômicas. 

O enredo tem um formato enlatado, onde uma realidade similar à nossa é alterada por alguma traquitana que transforma os relacionamentos interpessoais e forçam os personagens a tomarem decisões inesperadas. É uma fórmula que dá certo quando a traquitana é coadjuvante e permite aos personagens tempo de tela suficiente para o espectador formar vínculos, e quando as decisões e consequências são realmente inesperadas. E creio que é aqui que esta temporada fracassa

ATENÇÃO: daqui em diante, o texto conterá spoilers.

Para começo de conversa, todos os episódios são sangrentos. Os personagens desperdiçam minutos preciosos de todos os episódios cortando, perfurando, rasgando uns aos outros, e a si mesmos, também. Aliás, a quantidade de personagens depressivos e autodestrutivos dá a impressão de que os roteiristas de 13 Reasons Why foram reciclados para esta temporada. O recurso é apelativo e fica cansativo muito, muito rápido.

Outro ponto que me incomodou foi a insignificância de certas tramas. O destino de programas de computador modelados como personalidades de pessoas reais não me interessa, por exemplo, porque são apenas programas de computador. Eu mato processos no gerenciador de tarefas do Windows todos os dias! Também não me interessam brigas domésticas causadas pela tecnologia. Famílias brigam desde que o conceito de família passou a existir. Nada de novo sob o sol. 

São com estes dois pontos em mente que começo a visão geral dos seis episódios. A maioria deles será curta porque não há muito o que se comentar.

USS Calister

O primeiro episódio, USS Callister, é sobre um nerd estereotipado, subserviente aos demais seres humanos mas arrogante no âmbito pessoal, que construiu um mundo virtual para poder exercer seu próprio culto à personalidade. É um clichê cansado desde a década de 90, quando o Mandark disputava com o Dexter o título de nerd da escola em O Laboratório de Dexter

 

 

Eventualmente, chega uma nova Dee Dee engenheira na companhia que manifesta interesse no trabalho dele, e instantaneamente vira objeto sexual (avisei que era um clichê cansado) do personagem, que então clona a moça dentro de um servidor privado de um videogame. Desafiando a premissa da clonagem, o DNA da moça também guarda as lembranças, a personalidade e as habilidades da protagonista, que lidera uma rebelião contra o nerdão e liberta os clones dos computadores para a Internet. O episódio é sem graça, e é só isso mesmo. Próximo.

 

Este meme é a única coisa que prestou do episódio. Perde a graça rápido, porém.

 

Arkangel

O segundo chama-se Arkangel e é basicamente o sonho molhado de todo pai incompetente: colocar uma câmera no lugar dos olhos da própria filha. A menina se perde de mãe por algumas horas e ela já decide que tem que implantar um chip no cérebro da criança. Parece verídico. Além de GPS e de filmar e transmitir tudo o que a menina faz, o chip também aplica um filtro de áudio e vídeo contra "conteúdos impróprios". Como toda criança saudável, a menina então decide se furar com um lápis... é, acho que forçou demais a barra. A mãe desliga o treco até que a filha se torne aborrescente adolescente e resolva tomar decisões impróprias como consentir sexo e usar drogas recreativas. Uma hora, elas brigam e a menina agride a mãe até ela sangrar (novamente!) no chão, fugindo de casa, em seguida. Aparentemente, isto é culpa do chip na cabeça dela (e não de uma criação desempoderadora, misturada ao abuso de drogas). 

Crocodile

Tenho certeza de que este episódio foi escrito para outro seriado e teve algum gadget inserido só para poder ser usado em Black Mirror. Um casal embriagado atropela um ciclista e some com o corpo. Quinze anos depois, o homem arrepende-se e a moça, insatisfeita, assassina o amigo no quarto do hotel. Uma investigadora, enquanto buscava informações sobre um acidente que ocorreu próximo ao hotel, descobre que ela é uma testemunha e resolve interrogá-la. No processo, descobre também que ela é uma homicida, mas acaba sendo suprimida e morta também. A assassina ainda descobre onde o endereço da investigadora e vai até a casa dela para matar o restante da família.

Viu? Resumi o episódio inteiro e não precisei nem citar qual é o brinquedinho da vez.

Hang the DJ

Depois do último episódio, minha má vontade com o seriado cresceu tanto que este episódio demorou uns 3 dias para ser terminado. Veja bem, os primeiros cinco minutos já deixam claro que o primeiro casal viverá um drama shakesperiano mas terminará junto. E, lá pelos 20 minutos, até os próprios personagens já sugerem ao público que estão vivendo uma simulação de computador em que nada é real. Não há nenhum espaço para a imaginação. 

Por outro lado, sobra espaço para o reforço de conceitos que já ficaram claros. Por exemplo, não leva mais que um par de minutos para perceber que o personagem principal e sua nova parceira simplesmente não se suportam, mas o seriado insiste em mostrar a incompatibilidade deles em diversos cenários: transando (várias vezes), comendo, dormindo, indo em festas. 

Apesar disso, este episódio é melhor que o anterior pelo simples fato de ter um final feliz, deixando de lado o clima de terror psicológico que todos haviam tido até o momento. Ao menos para mim. Os memes parecem contar uma história diferente, porém:

 

 

Metalhead

O fato deste ser o mais curto episódio da história de Black Mirror e também um dos mais populares talvez seja sintomático do quão esticados estão os roteiros desta temporada. É fácil entender o motivo: não há contexto para os personagens. Na verdade, quase todos eles morrem nos dez primeiros minutos, mas, mesmo antes, eles não tinham gostos, interesses, personalidades ou sequer sobrenomes. Não passam de anônimos. Apesar disso, o verdadeiro motivo pelo qual este episódio vale a pena ser assistido tem nome e sobrenome: Maxine Peake.

 

 

Há um número fantástico de referências escondidas em Metalhead. A mais óbvia é a gravação em preto e branco. Para quem não viveu a transição do cinema monocromático para o colorido (também não vivi, mas já fui indie, então dá no mesmo), o resumo é que filmes de ação, violência e terror eram gravados em preto e branco por serem mais caros, enquanto filmes de comédia, romance e drama eram filmados a cores para valorizar a atuação dos personagens. Com o tempo, os cineastas aperfeiçoaram a técnica dos filmes preto e branco para torná-los mais emocionantes e viscerais. É importante para este episódio trazer esta experiência porque, ao contrário dos anteriores, Metalhead não tem uma muleta para se apoiar. E é aí que entra Maxine

A personagem dela e outros dois homens chegam de carro a um imóvel aparentemente abandonado, em busca de um objeto não mencionado para um certo Jack que é o amor da vida dela. Ao entrarem, percebem que havia um um robô vigilante quadrúpede (que ela chama de "cachorro") dotado de metralhadoras, granadas e rastreadores, entre outros brinquedos. O totó assassina os dois coadjuvantes imediatamente e inicia uma perseguição implacável a ela, que escapa mas é reencontrada enquanto tenta se comunicar com os humanos do outro lado do walkie-talkie.

Só aí descobrimos que o cenário é marcado pela trágica aniquilação da espécie humana pelo que parece ser algum exército robô fortemente armado. Os poucos humanos que sobreviveram estão escondidos em alguma caverna, à espera da redenção. Como em The Walking Dead, mas com Lassies e Beethovens de metal em vez de zumbis. 

Ela acaba encontrando uma casa, onde toma um confortável banho até ser encontrada pelo robô e ter de lutar para sobreviver. Ela até consegue destruí-lo, mas não antes dele liberar uma granada lotada de rastreadores por todo o rosto dela. Ao tentar removê-los, percebe que um deles está preso no pescoço e provavelmente não sairá sem levar uma artéria consigo. A moça liga seu comunicador e pede desculpas pelo fracasso, mas avisa que não irá mais voltar. Em mais um desnecessário banho de sangue, ela comete suicídio, enquanto a câmera sobrevoa dezenas de robôs à caça dela (mostrando que não havia escapatória) e aterrissa sobre o porão abandonado do início do episódio. O objeto não mencionado revela ser um ursinho de pelúcia, o que insinua que Jack era o filho pequeno dela.

Apesar do tom distópico que domina o capítulo, a atriz faz o tempo gasto valer a pena ao mostrar um espectro surpreendentemente vasto de emoções ao longo da jornada: condescendência, deboche, terror, autoconfiança, compaixão, náusea, dúvida, fúria e até mesmo alegria. Sua execução ao final do episódio não simboliza apenas a derrocada da sua missão, mas também o fim de todos os resquícios de humanidade ainda presentes naquele universo.

Black Museum

Este sim é o episódio que todos esperávamos. 

 

 

Black Museum conta a história de um circo dos horrores futurístico. O episódio é subdividido em três microcontos e são um sopro de frescor sobre a série. Chega de episódios esticados e tempo de exibição desperdiçado com traquitanas bobas. As histórias agora têm ritmo e vão direto ao ponto, nunca sustentando mais do que um par de personagens ao mesmo tempo. 

A primeira história é do médico Peter Dawson, que aceitou receber um implante capaz de sentir a dor dos pacientes sem sofrer os danos físicos que a causam. O roteiro progride num modelo previsível: o médico dedicado a sentir a dor de pacientes transforma sua paixão pela profissão em masoquismo. Mas há um componente a mais que torna a trama bastante deliciosa. Dawson não sente prazer em sentir dor, como qualquer submisso num clube de fetiche. Ele somente sente prazer na dor infligida à força e, viciado no êxtase causado pela nova droga, torna-se sádico e masoquista ao mesmo tempo quando decide assassinar um morador de rua de forma cruel somente para experimentar seu terror, numa demonstração bizarra de empatia

O curador do museu migra para o próximo aparelho, que, na verdade, é um macaquinho de pelúcia. A história por trás dele é a de um jovem casal apaixonado que tem um filho, mas vê sua mãe sendo transformada num vegetal. O primeiro gadget aparece, então, para permitir à moça expressar suas opiniões, porém somente de forma positiva (lâmpada verde) ou negativa (lâmpada vermelha). Felizmente, o marido dela não era daltônico e pôde, com isso, relacionar-se com ela. Porém, quando apresentado à possibilidade de alugar um espaço da sua mente a ela, ele comete o erro bastante previsível de aceitar. Todo ser humano adulto deveria saber que, mesmo entre um casal, há a necessidade da privacidade, o espaço em que a individualidade pode esticar suas pernas. O jovem rapidamente se torna esquizofrênico, tendo que discutir com a voz dentro da cabeça a todo instante.

O plot twist, porém, é bastante interessante. É evidente que a situação havia se tornado simplesmente insustentável, e que os roteiristas agora buscam uma forma de retorná-la ao estado inicial, numa espécie de karma cíclico. Primeiro, o rapaz ganha o privilégio de desligar a voz na cabeça dele, mas mesmo assim não é suficiente. O próximo passo é sugerir que a mulher seja apagada da mente dele, algo que ele jamais concordará porque, num previsível arroubo de consciência, inventa que isto seria assassinato. Chegaram a colocar a palavra "eticamente" no script dele. É curioso que o verdadeiro assassinato ocorreu quando ele decidiu descartar o corpo dela para manter sua mente em cativeiro, mas nenhum dos personagens parece se importar com a dissonância cognitiva. Em vez disso, a solução adotada é tão irônica quanto cruel: a moça é transferida para o tal macaquinho de pelúcia, onde as únicas formas de expressar suas opiniões eram através de uma forma positiva e outra negativa, exatamente como estava durante o coma. Exceto que, desta vez, como um objeto completamente desumanizado, descartá-la é ainda mais fácil do que promover sua eutanásia. Basta jogá-la numa gaveta e esquecê-la. 

Bônus para o roteirista que teve a ideia de substituir as lâmpadas verde e vermelha pelas frases "Macaquinho te ama" e "Macaquinho precisa de um abraço", respectivamente. 

 

 

Por fim, a obra-prima do museu revela ser um condenado à cadeira elétrica que foi transformado num fantasma para ser eternamente torturado a fim de produzir entretenimento. Confesso que estou decepcionado com a construção desta história. A protagonista, uma moça negra e jovem, diz logo no início do episódio que está indo visitar o pai, e que fez uma viagem tortuosa e desnecessária para chegar ali. Quando é revelado que o fantasma - que também é negro e tem uma geração a mais de vida que ela - foi ludibriado com promessas à família para concordar com o procedimento, fica claro que os dois são pai e filha.

 

 

Para piorar, o curador do museu frequentemente reclama de calor e mal-estar ao longo de todo o episódio, logo depois de revistar os pertences dela e abrir o museu para que ela entrasse. Conforme o terceiro conto se desenvolve e ela se afirma como protagonista, fica óbvio que ele foi envenenado, mas não entendi exatamente como. Ela menciona algo como "você deveria saber que não deve aceitar bebidas de estranhos", mas as únicas bebidas que aparecem são uma latinha de cerveja (descartada antes dela entrar) e uma garrafa fechada de água, que ele não aparece tomando. 

Mas, enfim, a filha está ali para conseguir vingança pelo que o pai sofreu, e levará o pacote completo: colocar o "vilão" na cadeira elétrica, eliminar o clone do pai, gravar um pedacinho do sofrimento como souvenir, e ainda leva o macaquinho de pelúcia consigo na saída, antes de tocar fogo no museu. 

Independentemente disso, este episódio retorna às raízes de Black Mirror: o avanço tecnológico no centro da trama, mas como coadjuvante para personagens sólidos e bem desenvolvidos produzirem relacionamentos conturbados e impossíveis sem a tecnologia. O médico seria incapaz de se tornar um sadomasoquista sem que fosse capaz de sentir a dor de seus pacientes. A moça jamais teria a consciência confinada em um macaquinho de pelúcia se a transferência de consciência fosse impossível. 

Ao mesmo tempo, é a falha na discussão ética que provoca estas situações. Em especial, o curador manipula Dawson a aceitar e a manter o implante ativo, após o identificar com um alvo fácil. Em seguida, convence o marido da moça a hospedá-la em seu próprio cérebro, e depois a transferir para o brinquedo. Por fim, o objetivo dele é claro ao não só clonar o presidiário no momento de sua execução, como construir um circo para o expor como atração principal. A tecnologia, sozinha, seria incapaz de gerar estes cenários sem a presença de um ator consciente e mal-intencionado

Conclusão

Esta é, sem dúvida, a pior temporada de todas. Se você deseja assistir Black Mirror (e eu recomendo), comece pela primeira, quando ainda não havia sido comprada pelo Netflix. Se já tiver assistido a todas, pule os quatro primeiros episódios e foque somente nos que realmente se alinham aos princípios do seriado. 

E não precisem se preocupar com os futuros avanços tecnológicos. Afinal, as tecnologias atuais já estão sendo exploradas para o mal. Se elas não lhe causam preocupação, não serão suas ramificações que vão tirar seu sono. 

Até a próxima!

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