IGNORE TEXTÕES SOBRE A FACULDADE EM 2018 🎓

O mês de novembro encerra-se com a abertura da temporada de textões em redes sociais sobre a faculdade em 2018. Aparentemente, perdi o memorando em que tornou socialmente aceitável dar conselhos genéricos sobre a carreira de adolescentes desconhecidos, e é por isso que este textão está saindo somente em dezembro. Perdoem-me pelo atraso.

O pontapé inicial foi dado por este jovem universitário gaúcho, solicitando ao leitor que NÃO ENTRE NA FACULDADE EM 2018 🎓. Sim, o emoji faz parte do título. Como imaginado, o título é apenas mais uma joia do clickbait, a tendência de colocar títulos sensacionalistas que pouco ou nada têm a ver com o conteúdo, que sofre de graves problemas de coerência textual. Aliás, o roteiro é tão volátil que o texto começa com "NÃO ENTRE NA FACULDADE EM 2018 🎓", passa por "Pega os primeiros seis meses de 2018. Só a primeira metade, não precisa ser todo ele" e termina com "Eu quero tu aprenda em 240 dias (8 meses) o que tu não aprendeu nos últimos 10 anos".

Enquanto propõe que os estudantes optem por trabalharem gratuitamente, o autor:

  • confunde trabalho gratuito com trabalho voluntário por diversas vezes;
  • generaliza experiências individuais (se aconteceu comigo, então acontece com todo mundo!);
  • critica a recomendação de antidepressivos por profissionais capacitados, ao mesmo tempo em que recomenda - sem demonstrar nada além de experiências individuais - rotinas de trabalho consideradas insalubres por qualquer profissional de saúde;
  • falha em demonstrar a necessidade da mão-de-obra ser cedida gratuitamente, bem como a necessidade de se abrir mão do curso superior. A opção de trabalhar 12 horas diárias é considerada com carinho, mas a de conciliar trabalho e faculdade não recebe a mesma cortesia. 

Não recomendo a leitura, mas, caso interesse, segue o texto na íntegra:

Não bastasse toda a atenção na rede social mais histriônica de todas, a mídia tradicional julgou relevante ressoar o texto em seus próprios domínios. O autor parece contente com a reportagem, a despeito dos jornalistas terem deliberadamente copiado e colado o texto em vez de usarem a função de embutir conteúdo (a mesma que usei acima).

Seguindo o roteiro que Aldous Huxley já havia previsto em 1932, as respostas ao texto são reproduções simétricas do original: utilizam as mesmas estratégias e repetem os mesmos erros. Escolhi o textão a seguir propositadamente, por ter sido o mais simétrico (até o emoji foi lembrado!). Curiosamente, o autor critica títulos no imperativo mas se vale da mesma técnica, mas é tudo em nome da intertextualidade, claro. 

Este texto adota um roteiro que soará familiar a quem está acostumado ao discurso dos movimentos identitários, mas igualmente volátil ao anterior: primeiro, "o problema nisso tudo não é o discurso", mas - apenas três parágrafos abaixo - o autor conclui que "o discurso de “tirar um tempo para se conhecer” é classista". 

Ao incitar os estudantes a entrarem na universidade em 2018, o autor:

  • ignora a distinção entre trabalho gratuito e trabalho voluntário, embora ambos fossem o eixo central da argumentação do texto original;
  • relaciona experiências individuais sem a preocupação de citar fontes;
  • atribui ao primeiro autor argumentos que não lhe pertencem: as menções a viagens são frequentes, embora não estejam no texto acima (e sejam o oposto do que havia sido proposto);
  • falha em demonstrar que o processo de autoconhecimento é desnecessário - a ponto de sugerir que, entre o autodescobrimento e a educação, a última deve ser escolhida - e não pode ser concomitante ao nível superior. A dicotomia entre "preciso saber qual é a minha" e "preciso adquirir uma educação" é reforçada sem que seja validada. 

Também não recomendo a leitura, mas segue o texto:

Como escrevi este textão, preciso agora concluí-lo com alguma frase de efeito no modo imperativo para que ele tenha utilidade pública. Talvez a mais coerente seja IGNORE TEXTÕES SOBRE A FACULDADE EM 2018 🎓. Inclusive este.


 

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