IFTTT: Inevitable Failure Today T.T

A partir de amanhã, o serviço de automação IFTTT ("If This, Then That", ou "Se Isto, Faça Aquilo" em português) passará a ser pago. O custo sugerido é de US$10 mensais. É a morte anunciada do serviço: nada como cobrar por ele para mostrar aos usuários como é inútil.

Não se deixe enganar: "Multi-steps" e "multiple actions" são a mesma coisa, e já eram possíveis antes, quando não havia limite de applets.

O que é?

Basicamente, é um software na nuvem que, quando notificado por algum gatilho (ou "ingrediente"), executa alguma outra tarefa através da web. Por exemplo, este blog usava o IFTTT para publicar novos textos automaticamente no Twitter e no Facebook. Nos últimos anos, ele foi expandido para celulares, sensores e "internet das coisas", permitindo automatizar, por exemplo, lâmpadas inteligentes e câmeras de vigilância.

O serviço é complicado de customizar. A graça dele era que, na maioria dos casos, alguém já tinha se dado o trabalho de criar o processo (ou "receita") e compartilhar com a comunidade. O atraso na execução também era bastante sensível: era comum que posts levassem horas para serem publicados nas minhas mídias sociais. "Faster Applet execution" nada mais é do que correção de uma falha histórica. Para completar, não é possível encadear tarefas no mesmo processo, o que causa o inexplicável comportamento de "receitas" com o mesmo "ingrediente" serem executadas fora de sincronia.

Por que usá-lo?

Esse tipo de serviço de automação, chamado "webhook", é difícil de configurar manualmente. A maioria das ferramentas do tipo é voltada para clientes corporativos e, por isso, são soluções pagas. O objetivo de cobrar pelo serviço agora, inclusive, advém do fracasso da versão corporativa do serviço (IFTTT Connect), que concorre com o Zapier no mercado de automação empresarial e com Google/Apple/Amazon no mercado de produtos domésticos inteligentes. O próprio CEO da empresa admite isso:

Until recently, our team of 35 was focused on building IFTTT Connect, our new enterprise product, which is now used by innovative companies like Husqvarna and iRobot. Frankly, this has meant a lack of focus on our user community which Pro will help us address.

Para quem sabe programar, plataformas de serviços (como o Heroku) e servidores domésticos (como o Raspberry Pi) são muito mais flexíveis. Como não uso - e nem pretendo usar - nenhuma dessas traquitanas domésticas inteligentes (minha lâmpada pode ser burra, mas custa só R$2 para ser substituída), provavelmente migrarei para o Heroku.

Mas o Heroku (ou qualquer serviço similar) não é pago também?

Bom, é. A diferença é que este é o primeiro serviço que eu vejo sendo colocado atrás de uma paywall sem nenhum aviso prévio, modo de demonstração ou funcionalidade adicional. Pelo contrário, é justamente o recurso mais central do serviço - a criação de "receitas" customizadas - que será removido do pacote gratuito, depois de dez anos como carro-chefe do produto. Os clientes optando por assinarem o serviço só o estão fazendo por terem se tornado reféns após caírem na armadilha.

O Heroku sempre foi um serviço pago. Mesmo assim, por um preço surpreendentemente inferior (considerando que é bem mais sofisticado), o Heroku oferece atrasos muito menores, suporta várias linguagens de programação que até um chimpanzé consegue aprender, tem banco de dados e histórico embutidos (e compartilháveis entre aplicações distintas!) e, apesar de não ter "receitas", oferece vários tutoriais que não são exatamente difíceis de serem seguidos.

Aliás, é isso que espanta a mim e ao restante da comunidade de futuros ex-usuários do IFTTT: o preço sugerido é muito alto até mesmo para os padrões dos softwares-como-serviço (ou "SaaS"). Serviços de streaming como Netflix e Spotify cobram menos do que isso para entregarem um catálogo extenso de mídia através de vários aplicativos em muitas plataformas distintas.

O custo inicial estava fixado em US$10, mas a própria empresa percebeu rapidamente que o serviço não vale nem 1/5 disso.

O marketing da empresa percebeu o perigo e mudou a estratégia para "pague o quanto quiser, para sempre", ao custo mínimo de US$2. Bola fora. A ameaça de cobrança repentina fez com que eu reavaliasse o serviço (e os concorrentes) e, agora, eu acho que ele não vale nem isso.

O que acontece com quem ficar na conta gratuita?

O IFTTT ainda funcionará, mas com um limite de três processos criados pelo próprio usuário. A princípio, isso seria OK, já que a maioria das "receitas" são de outras pessoas mesmo. Mas, como essas pessoas também não pagarão pelo serviço, os applets irão desaparecer. Como não dá para encadear tarefas, publicar um texto no Twitter, no Facebook e num canal do Telegram já consome todo o limite. O blog já tem integração com estes três serviços: basta apertar o botão de "Compartilhar" abaixo de cada publicação. Vou usar a conta gratuita para continuar enviando blogs ao meu e-reader, e só.

O Heroku também oferece uma conta gratuita. As limitações são o tamanho do banco de dados (só 10 mil linhas - é muito pouco), o total de horas ligado (até 1000 h/mês, o que é razoável) e o atraso de até 30 segundos se o robô estiver dormindo (mas o IFTTT atrasava horas...). Aliás, este é o primeiro teste usando-o: o post inteiro é só uma desculpa para usá-lo.

Um mês tem 672-744 horas, então 1000 são mais que suficientes. 10k linhas de PostgreSQL não sustentam um blog, mas já fiz muitos sites com menos do que isso. A combinação de publicação via git e times de até 5 usuários torna-o excelente para projetos colaborativos.

Conclusão

O serviço morrerá em breve. Espero que o criador (falarei dele amanhã) tenha aproveitado bastante a grana dos investidores transitando pelo mundo e postando no blog de viagens (quem é que ainda usa Tumblr?).

A parte realmente engraçada é que o maior investidor do IFTTT é justamente a Salesforce, gigante multibilionária de softwares de relacionamento com clientes na nuvem, que também é dona do Heroku. Claro que 24 milhões de dólares é troco de bala para a empresa que pagou 212 milhões pelo Heroku em 2010, então talvez fechar a empresa seja mesmo o objetivo. Só o tempo irá dizer.


 

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