Google Chrome Goes All In to Shove Ads Down Your Throat

escrevi este texto tantas vezes que parece dèja vu. Mas, dessa vez, o assunto é sério e urgente: a partir da versão 88, adblockers começarão a ser desabilitados.

Essa mudança já foi anunciada há muito tempo, mas, no meio da pandemia, parece que escolheram logo o mês de dezembro para colocá-la no ar.

Hoje em dia, há dois tipos de bloqueadores de anúncios:

  1. a iniciativa "Acceptable Ads" (Propagandas Aceitáveis), de propriedade da Google, que tenta ludibriar os usuários a aceitarem alguns anúncios (especialmente os oferecidos pela própria Google) de forma a "incentivar" uma "competição saudável" entre os anunciantes da Web. Não vou entrar em detalhes, mas é só conversa mole para boi dormir. Ao contrário das propagandas em outdoors e na televisão, que são veiculadas até você através de propriedade privada alheia - afinal, alguém teve que construir o painel de madeira ou a antena gigante que envia as ondas de TV -, os anúncios na Internet são pagos por você. Os anúncios em vídeo que interrompem aquele podcast a que você estava assistindo consomem sua franquia de dados, sua conexão à rede, sua energia elétrica, sua bateria, sua memória, seu disco rígido, seu processador, seu GPS e até seus dados pessoais. Os anúncios entregues a você sem usar seus recursos, como parte da própria página, não são afetados por adblockers e simplesmente não podem ser bloqueados. Não há, portanto, necessidade de adblockers para isso, afinal eles já furam os bloqueios naturalmente.
A Facebook Ads, plataforma da própria rede social, burla facilmente meu adblocker sem precisar suborná-lo com "iniciativas".
  1. Os bloqueadores de espectro amplo, que têm se tornado os mais crescentes em popularidade por bloquearem não apenas anúncios, mas também scripts, softwares maliciosos e usos não-autorizados de recursos do aparelho. A graça deles é que agem sobre os pacotes ANTES dos pacotes serem enviados (usando listas negras e filtros padronizados) e DEPOIS dos pacotes serem recebidos (bloqueando certos scripts e removendo elementos indesejáveis). O navegador só renderiza o site depois da filtragem completada. Isso deveria ser um processo lento, mas, com TANTOS ANÚNCIOS, as páginas acabam carregando mais rápido.

O gráfico do Google tenta sugerir que extensões são lentas neste processo...

...mas os vídeos mostram o contrário.

Bom, isso é um problema para o Google, que depende pesadamente de vender anúncios irritantes que ninguém quer assistir sendo veiculados em meios inapropriados. Ter comprado os principais adblockers do mercado mostrou-se inefetivo, porque outros foram criados e simplesmente os substituíram. A iniciativa "Acceptable Ads" foi rapidamente desmascarada e a maioria dos adblockers não a respeita. Restou ao Google, portanto, encarnar o personagem do gordinho dono da bola e simplesmente remover a ferramenta que permitia o funcionamento destes bloqueadores. A chamada para bloquear requisições da Web Request API foi oficialmente removida do Projeto Chromium e de todos os navegadores baseados nele, especialmente o Google Chrome, no último dia 9 de dezembro.

Em seu lugar, foi colocada a Declarative Net Request API, que, como o próprio nome diz, é declarativa (nome nerd para "precisa ser anunciada antes"). Ou seja, um site (normalmente composto de milhares de "requests", ou requisições) não precisa mais atravessar a extensão para ser renderizado. Em vez disso, é a extensão que deve interceptar cada requisição uma a uma e fazer as modificações conforme declaradas. O processo em si já seria bastante mais lento, mas o Google colocou uma barreira adicional: há um limite global de declarações. Mesmo se uma extensão fosse dividida entre várias, para agilizar o processamento e permitir burlar o limite imposto a cada extensão, ela esbarraria no valor arbitrário que a Google impôs por questões de "$egurança e priva¢idade". Para piorar, essa mudança não será feita para todo mundo: os clientes pagantes do Google Chrome (sim, existe uma versão paga do navegador para clientes corporativos) continuarão com a Web Request API, como sempre foi. Isso porque as empresas não querem seus funcionários perdendo produtividade para anúncios, não importando o quão "aceitáveis" eles sejam.

E agora, o que fazer?

Obviamente, a resposta é trocar de navegador. Não precisa ser da noite para o dia, mas o primeiro passo é instalar outra aplicação e defini-la como padrão.

A opção mais evidente é o Mozilla Firefox, único dos grandes navegadores atuais que está presente em todos os sistemas operacionais e não depende do Projeto Chromium para nada, já que utilizam outro motor. Ao instalá-lo pela primeira vez, ele já oferecerá um assistente para migrar senhas, favoritos, histórico e outras preferências. É a opção que estou usando, inclusive, mas isso não é novidade para ninguém. Para completar, a empresa não tem a menor intenção de implementar esta modificação.

Fizeram até uma tabelinha para você. Dá uma chance!

Os que estiverem usando o Apple Safari em computadores macOS não precisam se preocupar: esta mudança não vai afetá-los. Para quem não está pronto ainda para abandonar o motor do Chrome, as alternativas são, infelizmente, bastante escassas. A Microsoft pretende implementar a mudança nas versões futuras do Edge. Sem um motor próprio, navegadores de terceiros podem até resistir enquanto puderem, mas terão de ceder um dia por falta de recursos (manter um navegador "gratuito" é muito caro).

No apagar das luzes, o navegador Brave é o único com o compromisso público de manter os atuais bloqueadores de espectro amplo em funcionamento. Isso é particularmente importante para os usuários do uBlock Origin, em minha opinião o melhor dos adblockers disponíveis no mercado. O fato de ser o único navegador aqui que possui fontes de financiamento independentes da Google pesa bastante: não se faz política e nem tecnologia sem dinheiro.

Um bom navegador e aposta segura no futuro, apesar de não ter versão em português ainda.

Meu navegador favorito da lista, o Vivaldi, tem um posicionamento muito em cima do muro para um assunto tão preocupante. Para a equipe, "há muitos e muitos cenários possíveis (...) talvez a gente crie nossa própria loja limitada de extensões". Esta declaração é ingênua, na melhor das hipóteses. Quem usa adblocker já tem suas próprias preferências e não está a fim de se enfiar em outra "loja de extensões".

A imagem leva ao simpático tutorial gentilmente traduzido pelo voluntário. O download da versão mais recente fica neste link aqui.

A resposta mais jocosamente inocente vem do último navegador recomendado nesta lista, o Opera, que acredita que "todos os navegadores Opera vêm com um adblocker, por isso nossos usuários não estão expostos a esta mudança". A mudança está vindo de uma camada muito mais profunda do motor do navegador, e eu não ficaria espantado se o próprio adblocker nativo parasse subitamente de funcionar.

Apesar das páginas de ajuda em inglês, o navegador e o assistente de migração estão em português, vai na fé.

Expectativas

O que está acontecendo é o resultado natural da formação de um monopólio e não é novidade nem mesmo entre os navegadores. Com 70% de participação e tendo mais de 90% da receita comprometida com a venda de publicidade patrocinada, era apenas questão de tempo até a Google combiná-las numa única estratégia monopolista. Seria um cenário bem distópico: imagina sites bancários, podcasts, jornais, streamings, redes sociais e até fóruns obscuros exigindo que você use o Chrome para acessá-lo? Quem lembra dos malditos sites que exigiam ActiveX Controls exclusivos do Microsoft Internet Explorer? Prepare-se para a versão moderna e prafrentex daquele pesadelo.

Seus pais não confiam em bancos digitais? Eis o culpado!

A boa notícia é que, no passado, estas estratégias geralmente foram fracassos virulentos. Vide o Internet Explorer abandonado pela própria Microsoft. O mercado de tecnologia é muito dinâmico e, a qualquer momento, pode surgir uma novidade que jogue todo o esforço cuidadoso da Google na lixeira. Até lá, torço para que este seja apenas o primeiro passo em falso para sangrar o monopólio. Até lá, só nos resta resperar!

PS: "Google" é usado neste texto como masculino quando se trata do buscador, e como feminino quando se trata da empresa.

 

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