Art Corner (episode VI)

A origem desta publicação é inusitada.

Uma das coisas que mais gosto no final do ano é o dilema Feliz Natal vs Boas Festas. Curiosamente, ambas as expressões são equivalentes quando ditas em boa fé. Apesar disso, o desejo de encher o saco com pregações cristãos e/ou anticristãs justamente no principal feriado do ano transforma a comemoração numa disputa afiada de indiretas.

Numa destas, um comentarista de inclinação neonazista, sentindo-se particularmente paranoico, decidiu mencionar que "'boas festas' é um termo que permite que Sarah Jessica Parkers sejam atrizes de sucesso".  Fico sempre impressionado com o conhecimento de neonazis sobre cultura popular. Eu sequer sabia quem é Sarah Jessica Parker. Tive que recorrer a mais uma invenção maquiavélica judia, o Google, para descobrir de quem se tratava.

By MiamiFilmFestival - http://www.flickr.com/photos/55155430@N03/17790154348/, CC BY-SA 2.0, Link

Aparentemente, é a atriz principal da franquia Sex and the City, que fez algum sucesso por aqui nos anos 2000, mas foi estrondosamente bem-sucedida nos EUA. Não sei nem do que se trata, mas corri atrás dos seriados e rapidamente desisti. São seis temporadas e 94 episódios de quase 30 minutos cada! Um investimento de tempo insuportável para meu TDAH e certamente um desperdício imenso só para entender uma piadinha antissemita. Desisti.

Encontrei, porém, um par de filmes datados de 2008 e 2010 que, unidos, terminam logo abaixo de cinco horas seguidas.

Pareceu razoável.

O primeiro filme é contado pela personagem da tal Sarah Jessica Parker, uma mulher de meia-idade que decide se casar depois de dez anos de relacionamento. O elenco principal contra com outras três mulheres, similarmente de meia-idade e casadas, que passarão por problemas em seus casamentos enquanto a protagonista navega a montanha-russa de se tornar a noiva do ano e depois ser largada no altar. A esta altura do campeonato, eu deveria ter avisado de que haveria spoilers, mas, acredite, estou lhe prestando um favor.

As personagens são tão similarmente fúteis e plastificadas que distinguir entre elas é tarefa hercúlea. Felizmente, cada uma delas tem um corte de cabelo distinto para facilitar o trabalho. Quando reunidas, estas amigas com décadas de amizade são incapazes de falar de qualquer outro assunto senão homem e moda. Os diálogos parecem uma versão conservadora e monótona de RuPaul's Drag Race. Quando contracenando com seus pares românticos, porém, cada personagem atua por dois: interpreta a si mesma e ao parceiro, atribuindo a ele frases emocionalmente perturbadas que curiosamente nunca foram ditas:

  • Uma das personagens cobre-se o corpo inteiramente de sushi (isto mesmo que você leu) à espera do amado no Dia dos Namorados. Ao constatar o atraso dele, decide que o foco de sua atenção deveria ser o vizinho praticando sexo com duas jovens moças em vez do próprio celular, que recebia ligações insistentes do atrasildo. Quando ele finalmente chega, ela decide culpá-lo por estragar a surpresa (como sabotar o que não se tem conhecimento?).
  • A advogada é uma versão mais jovem e insegura de Donald Trump: sempre com versões alternativas para os fatos. Seis meses sem sexo no casamento? É só uma seca. O marido avisou que o lábio dela está sujo de leite? Você está sempre me criticando!
  • Parece surreal, mas a terceira amiga vai ao México e passa a viagem inteira comendo chocolate simplesmente porque tem nojo do país. Eventualmente, a paranoia volta-se contra ela sob a forma de uma sonora diarreia.
  • A personagem principal é uma fonte inesgotável de micos. Apesar de trabalhar para uma revista de moda, escolhe um blazer branco esmaecido como vestido de noiva. Transforma uma cerimônia de 75 pessoas num circo para 200 sem comunicar ao noivo. Pinta o cabelo de castanho e age como se estivesse disfarçada. Age como se 40 anos fosse o fim da derradeira existência feminina. Para alguém que trabalha na economia criativa, mostra um desinteresse imenso pela integridade física dos aparelhos celulares. Apesar disso, dá chilique quando não consegue recuperar o número após jogar o aparelho no oceano.

O enredo é previsível do início ao fim. Como comédia, Sex and the City é vulgar sem ser sexy. Só é possível rir do filme, nunca com o filme.

E é claro que fiquei animado para a continuação.

Infelizmente, tive que assisti-lo duas vezes porque dormi de primeira.

Os vinte primeiros minutos são do casamento gay mais cafona do século, com direito a Liza Minelli pagando o mico de dublar Single Ladies após a cerimônia:

Na sequência, o filme iniciou um desfile de estereótipos mais batidos que nazistas depois da Segunda Guerra. A dona de casa com ciúmes da babá. A mulher que trabalha demais e perde os eventos escolares dos filhos. O marido que assiste esporte na cama em vez de dar atenção à esposa. A cinquentona que luta contra a menopausa à base de hormônios. São tantos e tão frequentes que nenhum deles recebe o tempo de tela suficiente para ser relevante ao enredo.

Felizmente, os roteiristas param de lutar entre si e decidem que o tema dos estereótipos, de agora em diante, será o Oriente Médio, onde as protagonistas reeditarão a viagem ao México do primeiro filme. A moça que tinha nojo do México, aliás, parece ter encontrado uma boa terapia e agora não se sente mais obcecada com os germes do Terceiro Mundo. Entre piadas sobre niqab que não conseguem ser sequer engraçadas ou ofensivas e referências feministas num dos filmes mais fúteis do século, vamos apenas dizer que o filme fez por merecer as quatro estatuetas ganhas no Troféu Framboesa de Ouro em 2011.

Com uma certeza, portanto, despeço-me de vocês:

Era melhor ter ido ver o filme do Pelé.

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