A quem servem os conselhos profissionais

Tive mais uma recordação. Minha memória parece mesmo estar voltando a todo vapor, mas, dessa vez, as lembranças são tristes. Não dá para ganhar todas. A tristeza tem lá seu papel.

Nesta ocasião, recordei que não dei muita sorte com meus avôs. Minhas avós, sim, estão vivendo longa e prosperamente até mesmo hoje, quando se aproximam da centena de anos. Mas meus avôs faleceram antes de que eu chegasse à idade adulta. O paterno já era catatônico desde que eu me recordo pela primeira vez, por isso não lembro o som de sua voz. Mas o materno foi um homem dinâmico e forte durante boa parte da minha vida.

Foi durante minha adolescência que ele recebeu o diagnóstico de câncer no estômago. Não teria que passar pela quimioterapia, que ele já havia dito que não faria de jeito nenhum (“prefiro morrer como um homem a viver como um vegetal”, dizia), mas a cirurgia era necessária com urgência. A família inteira despencou-se até o Instituto Nacional do Câncer (INCA), no centro do Rio de Janeiro, onde ele foi operado "com sucesso", disseram os médicos.

À noite, horas depois de retornar da cirurgia, minha mãe - que é enfermeira e também obsessivo-compulsiva - observou que a cavidade abdominal inteira estava inchada e estufada, "como se fosse um balão de gás". Quando o cirurgião reapareceu para conferir o pós-operatório, ela alertou que havia líquidos vazando no abdômen, mas ele se desvencilhou dizendo que era "só inchaço normal". Esta cena ainda ocorreu uma segunda vez, quando ela falou que deve ter havido uma raspagem no intestino durante a cirurgia e as fezes estavam escorrendo para o restante dos órgãos, recebendo como resposta um "você é médica, por acaso?".

No segundo dia após a cirurgia, meu avô teve de retornar à sala de operações por conta do vazamento de fluidos no abdômen. A equipe conseguiu drenar os líquidos a tempo, mas as suturas no estômago já estavam infeccionadas. Ele faleceu durante a madrugada, tendo como última companhia minha mãe e seus gritos, entre prantos, de "eles mataram meu pai".

O cirurgião apareceu na manhã seguinte para informar, com pesar, de que toda cirurgia traz consigo um certo risco mesmo, e de que fizeram tudo o que podia ter sido feito, mas um "vazamento inesperado de fluidos" havia causado complicações na cirurgia. Ele não soube explicar como um órgão que não foi operado havia sido danificado, mas "certamente" não havia sido erro médico. Minha mãe foi removida pela segurança do hospital por "comportamento antissocial".

Este erro saiu impune. O cirurgião em questão continua a serviço do INCA e da faculdade de medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde provavelmente leciona até hoje (nem todos os docentes de universidades federais têm a obrigação de interagirem com os alunos). O conselho de ética e a polícia não se importam com casos assim.

Para que serve, então, a ética profissional? Para coibir casos como esse, em que um médico decidiu distribuir atestados médicos verdadeiros (todo atestado emitido por um médico é verdadeiro) para permitir que pacientes faltassem ao trabalho sem serem descontados. Danos à vida alheia podem até ser relativizados como "um certo risco mesmo", mas danos à propriedade são levados a sério. Cadeia nele!

Não é um problema exclusivo da prática médica, lógico. Na verdade, é uma cultura generalizada para qualquer trabalho regulado por um conselho profissional, pelo menos neste país. O que, inevitavelmente, suscita a questão: de que servem os conselhos profissionais?

Talvez a pergunta certa a se fazer fosse: a quem servem os conselhos profissionais?

Tags: brazil family ufrj 

 

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