5 thing I hate about traveling

Acabei de chegar do trabalho e corri para escrever este texto. Hoje, o assunto no escritório foi viagens. Meu chefe já morou na Suíça e tem parentes na América do Norte e, por lá, a proximidade das cidades e a sólida infraestrutura torna o processo de viajar de um lugar a outro muito descomplicado. Um colega juntou-se a nossa discussão contando que tem o sonho de percorrer a América Latina de motocicleta, como na história do guerrilheiro argentino Che Guevara. Enquanto ele contava a fantasia, minha mente esquizofrênica tocava Al Otro Lado Del Río, a primeira canção não escrita em inglês a ganhar um Oscar:

Tentei escapar da tão temida pergunta, mas não tive outra opção. Precisei contar o segredo que tento esconder há anos.

Eu odeio viajar.

É claro que, num mundo que se aproxima cada vez mais do cenário distópico de Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo, o espanto já não me espanta. No capítulo 2, o Diretor ensina aos estudantes que os moradores do novo mundo são programados para amarem viajar, porque uma economia que produz veículos precisa que haja clientes para os serviços de transporte serem consumidos. Mas não sou tão cínico assim, tenho certeza que viajar é um hábito tão saudável quanto qualquer outro. Eu só não gosto.

Felizmente, ninguém se importou o suficiente com isso (ainda bem, porque é um local de trabalho), mas existe uma visão, que permeia praticamente toda a humanidade, de que é natural do ser humano gostar de conhecer culturas, pessoas e lugares diferentes. Bom, deveria ser óbvio que isso não é verdade, porque xenofobia, racismo e homofobia são preconceitos comuns contra culturas, pessoas e lugares diferentes dos conhecidos, mas meu problema não é com os desconhecidos e, sim, com os velhos conhecidos de toda viagem. Eis aqui as 5 coisas que mais odeio em viajar.

O inevitável engarrafamento

Fico surpreso como todo mundo parece esquecer deste detalhe. Não existe absolutamente nada mais alucinante para um hiperativo como eu do que ficar preso num trânsito de seis horas. Não há nenhum lugar do planeta que compense o estresse de ficar preso numa estrada brasileira, onde - não por acaso - está a principal causa de morte de jovens no país. Detesto tanto engarrafamento que saio de casa às 5h40 da manhã somente para evitar o trânsito do Rio de Janeiro. Na segunda maior cidade do Brasil, porém, tenho a vantagem do 4G à disposição, algo que não costuma estar disponível no meio da estrada. 

O aeroporto

Se viajar pelas rodovias é péssimo, os aviões são ligeiramente melhores pelo fator segurança. Mas ainda não estou a salvo das filiais do inferno na Terra, também chamadas de aeroportos. Quando mentalizo o inferno bíblico, imagino que é um aeroporto com filas intermináveis, sem wifi, ar condicionado desligado, e decorado pelo Romero Britto em pessoa. Nunca me esqueço de quando meu voo atrasou e eu não conseguia ver o status porque a Infraero usava uma cópia pirata do Windows XP e o alerta da Microsoft cobria a tela. Ou quando cheguei ao aeroporto de Atlanta, GA, às 5h da manhã e fui agraciado com uma fila de 4 horas na imigração norte-americana, que culminou na Delta Airlines vendendo meu assento a outro passageiro e depois expulsando o mesmo do avião para eu poder entrar. Ou, ainda, quando o aeroporto de Vancouver, BC, me deixou esperando por 6 horas por problemas no sistema elétrico e quase me fez perder as 2 conexões que fui forçado a fazer nos EUA para economizar na passagem. O pior é que, toda vez que conto isso, ouço uma história do tipo "você não viu nada, eu tive que...". Tô fora!

As malas

Não, não estou falando dos seus colegas de viagem que falam sem parar. Passar qualquer semana longe de casa exige uma quantidade imensa de roupas, revistas, livros, aparelhos eletrônicos e sabe-se lá mais o quê. Não importa a antecedência com que eu prepare as malas, sempre esquecerei alguma coisa. No Canadá, esqueci minhas chaves e o brinquedo que comprei para a minha sobrinha (uma Peppa Pig de 60cm de altura).

Passando pelos EUA? Tenha certeza de que suas malas serão abertas. Antes de voltar para o Brasil, embalei cuidadosamente cada uma das peças do meu computador e guardei-as dentro do gabinete de aço inoxidável. Os agentes norte-americanos não se importaram com isso e cortaram todos os plásticos-bolhas, arranharam meu gabinete e quebraram os cabos SATA (que felizmente são baratos). Ainda deixaram um pedido de desculpas por escrito, onde avisam que não se responsabilizam por nenhum dano causado aos meus pertences. 

Aliás, agora que as bagagens são cobradas à parte, talvez seja a hora de começar a mandá-las pelo correio.

A louca das fotografias

Devo ter um pé-frio muito grande, não é possível. Toda vez que viajo com alguém, há quem insista em tirar fotos em todo lugar. Várias fotos no mesmo lugar, inclusive. Uma vez, em Arraial do Cabo (balneário no literal fluminense), uma amiga insistia em tirar fotos a cada metro que a gente andava. Não é força de expressão, nós realmente tiramos fotos a cada dois passos. Naquela época, câmeras digitais eram novidade e ainda funcionavam à pilha, então ela deixava o visor desligado e, para compensar as fotos tremidas e borradas, tirava vários retratos em sequência, na expectativa de que ao menos um deles prestaria. Pensei que enlouqueceria, mas, por sorte, outra amiga (que também gostava de tirar fotos o tempo todo) juntou-se a nós e elas finalmente me deixaram em paz. Talvez por isso eu tenha tanto apreço por Arraial, é uma cidade muito relaxante (até porque não há nada para se fazer por lá) e o sinal do celular na praia era fantástico. 

O corre-corre

Este é, de longe, o principal motivo para eu recusar todos os convites de viagem que puder. Todo mundo que viaja parece ter em comum a pressa para ficar correndo para lá e para cá em busca de programas de índio turísticos para fazer o tempo todo. "Não existe viagem para relaxar", disse meu chefe hoje. Os cidadãos que ignoram a produção cultural, artística e esportiva dos locais onde vivem subitamente decidem que amam cultura, arte e esporte e que precisam explorar todas as oportunidades oferecidas há muitos quilômetros de suas cidades natais. Talvez seja o fator novidade, não sei. Mas a ideia de que minhas férias precisam ser governadas por uma obrigação de diversão é justamente o que menos preciso durante minhas férias. Já tenho um lugar onde tenho obrigações a cumprir chamado "trabalho", não preciso de outro, obrigado

Conclusão

Não vou negar que já fiz viagens que foram excelentes. Mas prefiro quando meus amigos vêm me visitar, é a mesma diversão sem nenhum esforço adicional.


 

Comments

There are currently no comments

New Comment