34 years late, Brazil has arrived in 1984

Acho que não deve ser surpresa para mais ninguém que 1984 (de George Orwell) é um dos meus livros favoritos de todos os tempos. Como obra de ficção, o universo construído na Oceania é, ao mesmo tempo, fantástico e verossímil. Como crítica social, as divagações aflitas do personagem principal provocam empatia e ajudam-nos a reconhecer no mundo real as construções socioeconômicas que permitem aos governos controlar as mentes de suas populações. 

Uma amiga começou a lê-lo, recentemente. Quero dedicar esta publicação a ela, e desejo que ela enxergue a genialidade do artista nos pequenos detalhes, da mesma forma que eu. Por isso, este texto não conterá spoilers

 

O Ministério da Verdade...

 

O personagem principal, Winston Smith, é um falsificador de registros históricos no Ministério da Verdade, que é o responsável pela disseminação das mentiras convenientes ao Partido. Seu trabalho é adulterar qualquer peça de informação que contradiga ou denigra o Partido, bem como forjar notícias sobre seus aliados e adversários. Winston é informado de que está corrigindo erros de digitação, mas ele está ciente de que está executando propaganda e revisionismo histórico. De fato, mesmo odiando o Partido, o trabalho, o regime e até a própria existência, Winston é considerado um profissional ágil, capacitado e eficiente, tanto por si mesmo, quanto pelos círculos dominantes do Partido

Parece criativo e inédito, mas Orwell não estava inventando nada que já não estivesse existido. Escrito em 1948 (o nome do livro vem da inversão dos dois últimos dígitos), o livro descreve um aparato governamental real, estabelecido 15 anos antes, no dia 13 de março de 1933, com a ascensão do nazismo ao poder na Alemanha. Mais apropriadamente chamado Ministério da Propaganda, foi liderado por Joseph Goebbels até a conquista pelo exército soviético, doze anos mais tarde. Orwell conhecia o aparato porque trabalhou na contrapropaganda dos Aliados quando esteve vinculado à BBC. 

 

...virou a Secretaria Especial de Comunicação Social

 

No século XXI, os governos não precisam mais do policiamento constante e da censura dos meios de comunicação para controlar a verdade. Já há tantas distrações e notícias falsas circulando que não há necessidade de se banir nenhum registro histórico, apenas diluí-lo e afogá-lo no oceano de fake news. Se o Ministério da Propaganda precisou produzir centenas de filmes para popularizar suas teorias de pureza racial, hoje não precisaria de mais do que alguns minutos diários de comerciais. Aliás, a necessidade do controle dos meios de comunicação caiu por terra: eles mesmos estão dispostos a se venderem por uma fração mínima do orçamento dos governos. 

É através da Secretaria Especial de Comunicação Social, ligada diretamente à Secretaria-Geral da Presidência, que a propaganda do governo federal é capitaneada pelo País. A despeito do aperto financeiro que as contas públicas têm sofrido, o orçamento de propaganda de 2017 foi estourado no mês de julho, e a Secretaria simplesmente pediu suplementação. Metade dos 200 milhões de reais foram gastos exclusivamente com propaganda da Reforma da Previdência. Curiosamente, os anúncios não eram de conscientização das mudanças (algo que os meios de comunicação fizeram sozinhos, porque é a função social dos mesmos), mas sim de repetição da narrativa de que nada havia mudado. Ora, se nada mudou, qual a necessidade da propaganda? Algumas das peças publicitárias seguem abaixo:

 

 

 

 

O próximo é meu favorito. Para convencer os brasileiros de que a Reforma foi um avanço, a conta oficial do Estado Brasileiro decidiu usar a bandeira nacional... dos EUA! O oposto parece impensável. Por muito menos, presidentes norte-americanos já foram interrogados pelo FBI.

 

 

Curiosamente, o principal articulador da Reforma da Previdência e não por acaso ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência (a que segura o talão de cheques para a publicidade), Moreira Franco, bem como sua esposa, são dois dos "privilegiados" que ele alega tentar combater.

 

 

Apesar disso, o governo parece considerar o esforço publicitário insuficiente, talvez porque as pesquisas de opinião não estão produzindo o resultado esperado. Passados 85 anos da fundação do Ministério da Propaganda nazista e 60 anos da confecção de 1984, o governo federal agora mergulha no papel de Winston Smith e encontra-se travando uma batalha contra os registros históricos. O primeiro ponto de parada da internet é, obviamente, a Wikipédia, que tem sido tão incessantemente vandalizada por computadores do governo que um bot do Twitter, o Brasil WikiEdits, foi criado para monitorar as alterações feitas por eles. Entre os alvos, políticos adversários e aliados, operações da Polícia Federal, e, estranhamente, desenhos animados japoneses e campeonatos de surfe. A Revista Piauí fez matéria bastante concisa sobre as edições. 

Felizmente, nem todo conteúdo é tão fácil de remover como o contido na Wikipédia, e é aí que entra em ação a máquina da burocracia estatal. Se é difícil convencer o cidadão livre a apagar os registros inconvenientes à imagem do governo, é razoavelmente mais simples, porém, coergir o hospedeiro do conteúdo a removê-lo sem o consentimento do autor. De que outra forma explicar, portanto, a liderança isolada do país no ranking de governos que censuraram publicações no Facebook?

 

 

Esta lista mostra uma realidade terrivelmente assustadora. O segundo colocado, a Turquia, viveu estado de exceção e golpe de estado no período, e, ainda assim, teve 40% a menos de censuras. A França, em quinto, teve eleições presidenciais marcadas pela falsificação de notícias. Mesmo a Rússia, que promove eleições onde a soma dos votos dos candidatos atinge 140%, teve 14 vezes menos imposições ao Facebook. 

Com a aproximação das eleições, estes números devem aumentar, não só porque a disputa acirrada deverá favorecer a prática de difusão de informações criminosas, mas também porque o prejuízo à imagem do governo precisará ser evitado a qualquer custo. Inclusive ao custo da democracia, se for preciso.

Com 34 anos de atraso, o Brasil desembarca em 1984.


 

Comments

There are currently no comments

New Comment