Every country has the O. J. Simpson it deserves

AVISO DE CONTEÚDO: este texto faz parte do tema Cantinho da Arte que publico ocasionalmente às quintas-feiras, mas aborda violência doméstica e contra a mulher, que pode ser nocivo a algumas pessoas. Prossiga com cuidado. 

Para quem está vivendo debaixo de uma caverna (como eu, mas pelo menos tenho wifi), esta semana a defesa do ex-goleiro do Flamengo Bruno, condenado por assassinar e ocultar o cadáver da ex-amante, Eliza Samúdio, no interior do estado de Minas Gerais, em 2010, entrou com recurso na Justiça para obter progressão de pena. Os advogados alegam que ele já cumpriu tempo suficiente para se qualificar para a progressão de pena para o regime semiaberto, e que ele teria quase dois anos de remissão da pena por bom comportamento. Há muita expectativa em relação à soltura do ex-jogador, que muitos consideram um dos últimos goleiros de calibre internacional a defenderem a seleção nacional (lembrando que nosso goleiro já foi o Muralha). 

Não foi dessa vez. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais não só negou a contagem de tempo da defesa, como ainda acatou recurso do Ministério Público para aumentar a pena de Bruno em 42 dias. O ex-goleiro não será liberado em 2018 e não poderá ser inscrito em competições internacionais do ano que vem (embora o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil ainda estejam na mesa). Apesar da montanha de provas e testemunhas contra ele e até uma confissão, é comum encontrar quem ainda acredite numa conspiração elaborada para persegui-lo por ter alcançado o sucesso profissional.

Ok, mas o que isso tem a ver com arte? Simples: há quase 24 anos, na Califórnia, outro famoso e querido ex-jogador de futebol (americano) era preso e julgado pelo mesmo crime, e com a mesma motivação, e, se você tiver curiosidade de saber como a arte imita a vida, talvez se interesse em saber que o FX - produtor de séries originais do calibre de Sons of Anarchy, Archer e American Horror Story - escolheu o julgamento de O. J. Simpson como o primeiro de seu novo seriado de recriações de crimes famosos norte-americanos. 

Conhecido como "O Julgamento do Século" (passado), o caso paralisou o país inteiro por onze meses até que chegasse a uma conclusão. O. J. - iniciais de Orenthal Johnson e também a sigla para "orange juice" ("suco de laranja"), o que rendeu o apelido de "The Juice" - havia sido um premiado jogador de futebol americano na década de 1970. Muitos dos recordes estabelecidos por ele na época ainda não foram quebrados, mesmo depois de 45 anos de esporte profissional. Mesmo depois de aposentado dos campos, continuou tendo uma bem-sucedida carreira na mídia, como garoto-propaganda de uma das maiores locadoras de veículos do mundo e como ator em muitos filmes de sucesso, como os da série Corra Que a Polícia Vem Aí (tsc, que irônico). O. J. era bastante querido em praticamente todos os grupos sociais. Os próprios policiais eram convidados frequentes nas festas em sua mansão de Brentwood, subúrbio privilegiado de Los Angeles.

Em 12 de junho de 1994 (dia dos namorados no Brasil, mas não nos EUA), um vizinho da ex-mulher de O. J., Nicole Brown, chamou a polícia após um de seus cachorros encontrar sangue no condomínio onde ela morava. Por ser uma região de alto padrão imobiliário e conhecida pelo baixíssimo nível de criminalidade, a polícia chegou rapidamente e, ao perceber que se tratava da ex-mulher de Simpson, deu prioridade ao caso. Junto ao corpo da moça, brutalmente esfaqueada várias vezes na cabeça e no pescoço, havia o corpo de outro homem, Ronald Goldman, um garçom de um restaurante local. A investigação rapidamente descobriu uma infinidade de provas documentais e circunstanciais contra O. J., que foi rapidamente apontado como o único com motivo e oportunidade.

De fato, como foi repetido à exaustão pela promotoria, havia um histórico bastante conhecido de violência doméstica entre o casal. Nicole havia prestado não uma ou duas, mas oito queixas de agressão contra O. J. Na noite em que foi executada, Nicole ligou mais uma vez para a polícia e claramente afirmou que seu ex-marido invadiu a casa dela e iria matá-la. O assassinato dela não era considerado pela promotoria como uma fatalidade, mas sim uma progressão natural de violência que o Estado falhava em impedir. 

Mas este não foi um julgamento tradicional. Numa área de intensas tensões raciais, a promotoria optou por migrar o julgamento de Santa Monica (jurisdição mais próxima do local do crime, e também um distrito majoritariamente branco da Califórnia) para o coração de Los Angeles, onde o júri seria mais heterogêneo (o promotor justificou esta escolha como "efeito de ótica"). Aproveitando a imensa popularidade de O. J., a defesa convenceu o tribunal a permitir a transmissão completa de todas as sessões do julgamento pela TV e pelo rádio. A corte rapidamente se transformou num circo milimetricamente escrutinizado pela mídia e por toda a sociedade norte-americana. É a partir daí que o seriado constrói seu roteiro: das versões públicas dos acontecimentos da época. 

The People v. O. J. Simpson: American Crime Story, no entanto, não é um documentário, e nem poderia sê-lo, já que muito do roteiro é baseado em palpites e carece de provas. Apesar disso, o seriado consegue ser bastante fiel à realidade sem deixar de ser intenso e dramático, e boa parte disso é devido ao elenco poderoso contratado pela FX. Sarah Paulson (American Horror Story) representa com maestria a promotora Marcia Clark, numa fantástica atuação que foge do lugar-comum de colocá-la como vítima. Se existe um motivo para assisti-lo, o nome dele com certeza é Sarah Paulson. 

À esquerda, Sarah Paulson caracterizada; à direita, Marcia Clark de carne e osso.

Não quero dar spoilers (não sei se é possível com uma história acontecida há mais de 20 anos), mas o sexto episódio, Marcia, Marcia, Marcia, foi escrito completamente em torno da atuação de Paulson. É um episódio escrito para transformá-la em mártir, em vítima das circunstâncias, e fraco em termos de interações. De todos os capítulos, é o que a história menos progride, já que os demais personagens sequer possuem falas suficientes para tal. Paulson, no entanto, faz dos limões limonada e espreme do roteiro uma atuação de Kristen Stewart às avessas: a cada porrada que leva, sua personagem exibe uma expressão facial diferente, original e verossímil. É difícil não sentir empatia porque as emoções de Paulson sangram pela tela.

Para o papel principal, Cuba Gooding Jr. (vencedor do Oscar por Jerry Maguire) faz um O. J. cínico, chorão e reclamão, que adiciona tons desafinados ao ex-jogador conhecido pela voz grave e intensa. Sua defesa é composta por Robert Kardashian (pai das irmãs Kardashian, representado por David Schwimmer, o eterno Ross de Friends), Robert Shapiro (John Travolta, de Grease, Pulp Fiction e Hairspray) e Johnnie Cochran (Courtney B. Vance). Curiosamente, é o último, mais desconhecido de todos, que demonstra mais conforto no papel de um advogado ativista dos direitos civis, evangélico e falastrão. 

Um deles é Johnnie Cochran; o outro, Courtney. A equipe de figurino e maquiagem fizeram um trabalho impecável e não sei qual é qual.

Não à toa, o seriado esfregou o chão do Microsoft Theater com a competição durante a premiação do 68º Emmy Awards, sendo indicada para 13 e vencendo 6 das principais categorias, incluindo melhor elenco e melhor minissérie. Sarah Paulson e Courtney B. Vance levaram, respectivamente, melhor atriz e ator principais de minissérie. Sterling K. Brown derrotou Travolta e Schwimmer no prêmio de melhor ator coadjuvante, o que me surpreende já que sua atuação aproveita muito mal um dos melhores personagens da história, o advogado-promovido-a-promotor-por-ser-negro Christopher Darden.

A semelhança física, porém, é assustadora. Sterling K. Brown é o da esquerda.

Assistir The People... e não tecer comparações com o caso Bruno é simplesmente impossível, e força a todos nós a repensar o papel da cobertura midiática de crimes violentos numa sociedade dita democrática. Se Bruno ainda luta contra a justiça para conseguir encurtar sua própria pena, é porque aprendemos com O. J. que a justiça só pode operar debaixo do guarda-chuva da lógica e da razão. Bruno está na cadeia mesmo com o corpo nunca tendo sido encontrado porque há a certeza além da dúvida razoável de que ele foi o responsável pelo assassinato da ex-namorada, e não importa quantos pênaltis ele defenda, nada desfará a perda de uma vida

Para quem gostou e ficou interessado, porém, trago boas notícias. O FX legendou a minissérie inteira e a disponibilizou no Netflix! São apenas 10 episódios, maratonáveis em um único dia (ou noite). Vou até aproveitar o final de semana para assistir novamente (me desculpe, Fernando, não poderei aparecer no churrasco sábado...). 

Até a próxima!

Tags: art brazil 

 

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